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Pandemia08/04/2020 | 21h27Atualizada em 08/04/2020 | 21h33

Coronavírus x H1N1: covid-19 é mais letal que gripe A

Apesar de semelhante à gripe A em formas de contágio e alguns sintomas,a covid-19 tem velocidade de propagação e taxa de letalidade maior

Coronavírus x H1N1: covid-19 é mais letal que gripe A Antonio Valiente/Agencia RBS
Nas últimas semanas, é cada vez mais comum ver caxienses usando máscaras pelas ruas da cidade Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

A descrição do cenário no México, país onde ocorreu o primeiro surto da gripe A, causada pelo vírus Influenza H1N1, no mundo, em abril de 2009, poderia ser usada tranquilamente para retratar a cidade de Wuhan, na China, e outras tantas na Itália, na Espanha ou nos Estados Unidos, grandes epicentros da covid-19, provocada pelo novo coronavírus, em 2020. "À medida que as informações ganhavam clareza, o número de pessoas com máscaras se multiplicava. A cidade com quase 20 milhões de habitantes ganhava ares de metrópole-fantasma. À noite, bares normalmente apinhados foram abandonados."

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O relato do jornalista Marcelo Gonzatto, que estava no México à época do surgimento da gripe A, é bem parecido com o que temos visto nas últimas semanas, em muitos municípios do Rio Grande do Sul, 11 anos depois da pandemia de Influenza H1N1. Só que, por aqui, o ápice de casos de covid-19 ainda está por vir, e deve ocorrer no durante este mês de abril e em maio.

Mesmo tendo sido considerada como doença respiratória aguda altamente contagiosa, inicialmente, em 2009, o Ministério da Saúde não recomendou, no Brasil, medidas de contenção. Elas foram sendo adotadas aos poucos e eram semelhantes, mas não tão rigorosas como as que vimos atualmente.

No final de julho daquele ano, mesmo com apenas dois casos confirmados, os caxienses reproduziam nas ruas o cenário da pandemia no México. 

Para a infectologista Giorgia Torresini, as medidas são mais drásticas agora porque o coronavírus se revela mais contagioso e letal do que se mostrou o Influenza H1N1 no passado:

– Alguns eventos foram suspensos (durante a gripe A), mas por um período limitado. Não lembro de tanta mobilização social ou política em cima do H1N1. Esse vírus (coronavírus) já veio muito conhecido e deu tempo para irmos nos mobilizando. Sabíamos da existência dele, como se comportava.

Com grandes semelhanças, mas diferenças mais graves

Há várias semelhanças e algumas diferenças entre o Influenza H1N1 e o coronavírus. A questão é que justamente o que os difere é o que torna o novo vírus mais mortal. Segundo o médico infectologista Alexandre Schwarzbold, presidente da Sociedade Rio-grandense de Infectologia e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), são dois vírus de ‘famílias’ distintas, com características, inclusive genéticas, diferentes, mas ambos são respiratórios, podem integrar desde um simples resfriado até enfermidades respiratórias graves, como foi em 2009 e ocorre agora.

Os dois vírus têm praticamente as mesmas formas de contágio e, portanto, os meios de prevenção são os mesmos. Os sintomas também são parecidos, mas alguns pacientes de covid-19 relatam sintomas sobre os quais não há informações em pacientes da gripe A, como a perda de paladar e de olfato. Outra semelhança é a relação com os grupos de risco. Pessoas com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, e idosos têm mais chance de desenvolver quadro grave. Só que na pandemia de gripe A houve incidência forte em gestantes e crianças. A covid-19 acomete mais idosos. Ambas progridem para pneumonia viral.

Contágio

A diferença mais importante é a velocidade de contágio. Enquanto uma pessoa infectada com H1N1 transmite o vírus para até duas pessoas, um paciente com coronavírus é capaz de transmitir para até cinco. Conforme dados do Ministério da Saúde, no país, foram 17 dias para chegar a 100 casos. Depois, em apenas sete dias foram mais 900 casos, atingindo a marca de 1.000, e em mais 14 dias, o país chegou a 10.000 casos.

– Essa facilidade de contágio faz com que muitas pessoas fiquem doentes ao mesmo tempo – apontou a infectologista Giorgia Torresini.

Outra diferença é o período de transmissão. Um paciente de H1N1 adulto transmite o vírus por sete dias. Já um adulto com coronavírus transmite pelo dobro de tempo, 14 dias.

Além disso, durante a pandemia de gripe A, havia um antiviral (oseltamivir) usado no tratamento. Agora ainda não há um medicamento específico de eficiência comprovada. As taxas de letalidade (percentual de pessoas que morrem entre os infectados) e de mortalidade (número de mortes por 100 mil habitantes) são maiores nos casos de covid-19. Esses índices variam de um local para outro. 

– As taxas agora estão muito associadas ao acesso e à qualidade de cuidado de saúde, o cuidado mais precoce, acesso mais rápido. No H1N1 era um pouco menor. Então, temos diferenças no contágio, na faixa etária e no número de mortos, porque estamos diante de uma doença que é nova, não tem tratamento definido e que tem um curso de uma doença inflamatória sistêmica ainda mais severa do que o H1N1– analisa Schwarzbold, defendendo o distanciamento social.

Foto: Arte Pio / Arte Pio
Foto: Arte Pio / Arte Pio

H1N1 (2009-2010)
Como surgiu:

:: Em Vera Cruz, no México, em abril de 2009, a partir da mutação de vírus de porcos. Identificado como uma nova cepa do já conhecido Influenza A subtipo H1N1. Continha elementos típicos de vírus aviários, suínos e humanos, incluindo elementos dos vírus suínos europeus e asiáticos.

Avanço:
:: Na última semana de abril de 2009, no México, as aulas são suspensas, eventos cancelados, pontos turísticos fechados e a população em massa usa máscaras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a situação de emergência de saúde pública e que há risco de se espalhar pelo mundo. O Brasil tem suspeitos da doença.
:: Em maio, a gripe A passa do grau três (inicial) para o quatro, quando a transmissão ocorre de pessoa para pessoa e, em junho, para seis, topo da classificação, quando a OMS declara que a situação é de pandemia (surto global). O primeiro caso no Brasil é confirmado em 8 de maio. Em 11 de maio, o Rio Grande do Sul tem caso no Noroeste. As medidas de isolamento são restritas aos pacientes infectados. Milhões de doses do antiviral oseltamivir são distribuídas.
:: Caxias tem o primeiro caso confirmado em 3 de julho. O Hospital Geral instala uma unidade para suspeitos.
:: No início de julho, postos de saúde passam abrir até mais tarde. No dia 21, diante das crescentes notificações – duas novas a cada 24 horas – e de hospitalizações de casos severos, Caxias determina restrições para conter contaminação, quando haviam cinco mortes suspeitas na região.
:: A OMS diz que a taxa de óbito pelo H1N1 no mundo é de 0,5%. Os hospitais reivindicam medicamentos, diagnósticos mais rápidos (levam duas semanas) e respiradores. Comunidade é orientada a seguir etiqueta respiratória. São restritas as visitas em hospitais; prorrogadas as férias para escolas e universidades; reduzido o público em igrejas e cultos; funcionários de bancos, farmácias, órgãos públicos e ônibus usam máscaras e álcool em gel.
:: A primeira morte em Caxias ocorre em 27 de julho e a cidade ganha reforço de 36 leitos do Estado. Dois dias depois, são três as mortes na cidade. Dia 14 de julho, sobe para sete. Proporcionalmente à população (à época de 410 mil pessoas), o número de óbitos na cidade (1,75 óbitos para cada 100 mil habitantes) é alto se comparado à média gaúcha (0,7), que já é superior à nacional e à internacional.
:: No início de agosto, cirurgias eletivas pelo SUS são suspensas para reservar vagas em UTIs. No dia 4, mortes somam 29 no RS e governo estadual diz que surto só vai arrefecer após o inverno.
:: Aulas são retomadas em Caxias em meados de agosto.
:: No início de setembro, pandemia entra em declínio no Brasil. Primeiro lote de vacinas com 3,4 milhões de doses é divulgado nos EUA em 21 de setembro.
:: Em 6 de janeiro de 2010, Brasil compra 83 milhões de vacinas para campanha em março e abril. 88% do público dos grupos de risco é imunizado.
:: No começo de julho, depois de uma morte no RS, Caxias estabelece plano de contingência. É feita a requisição de leitos na rede privada e a contratação emergencial de profissionais.
:: Ao menos 84 pessoas morrem e 675 são hospitalizadas no Brasil até meados de julho de 2010. Em todo o 2009, a partir do dia 25 de abril, são registradas 2.051 mortes no país.
:: A OMS declara o fim da pandemia de gripe A, pouco mais de um ano depois do primeiro surto da doença pelo mundo. No total, foram cerca de 151 mil mortes registradas entre os dois anos.

Foto: Arte Pio / Arte Pio

Coronavírus (2019-2020)
Como surgiu:

:: Em Wuhan, capital da província de Hubei, na China, a partir de um mercado de frutos do mar e aves. O primeiro caso divulgado foi em dezembro de 2019.

Avanço:
::
A cidade de Wuhan, na China, com 11 milhões de habitantes, é fechada em 23 de janeiro com medidas rígidas de restrição de circulação.
:: Wuhan reabre o comércio no dia 30 de março. No dia 25, os cerca de 60 milhões de habitantes da província de Hubei têm permissão para sair de casa após dois meses de quarentena total.
:: Mesmo com retorno das atividades, funcionários de lojas usam máscaras, medem a temperatura de clientes e orientam-nos a utilizar álcool em gel. Há cartazes para que as pessoas mantenham uma distância segura e limite de pessoas nos estabelecimentos.
:: Visitantes têm de informar como e porquê estão em Wuhan. Hóspedes de hotel fazem testes para febre duas vezes ao dia e precisam apresentar um código virtual no smartphone, que detalha seus status de saúde.
:: O controle se espalha pelas cidades próximas a Wuhan e cerca de 800 milhões de pessoas – mais da metade da população da China – ficam em situação de confinamento.
:: Até o final de março, em Wuhan, 2.547 pessoas morreram pela covid-19 – cerca de 80% do total de mortes na China, que era de 3.186, até o final do mês. O país tem mais de 81.470 casos confirmados, embora acredite-se que tanto o número de contaminados quanto o número de mortes sejam subestimados.
:: As restrições finais de Wuhan terminaram ontem, marcando dois meses e meio de quarentena.
:: Ainda no dia 30 de janeiro, a OMS declarou emergência internacional.
:: Enquanto a curva de casos e óbitos subia e descia na China, na Europa, o vírus tomava a Itália e a Espanha. Os dois países foram os mais afetados do continente e já somam juntos mais de 286 mil casos confirmados e 32 mil mortes.
:: O epicentro mais recente é os Estados Unidos. Até ontem, eram 427.118 infectados e 14.556 óbitos.
:: No mundo já são mais de 1,5 milhão de casos confirmados e 87.706 mortes.
:: No Brasil, o registro do primeiro caso suspeito foi em 27 de janeiro, em Minas Gerais. Ele acabou sendo descartado. A primeira confirmação foi em São Paulo, em 26 de fevereiro.
:: Em Caxias, o primeiro suspeito surge em 27 de fevereiro e a primeira confirmação em 11 de março. O segundo caso, cinco dias depois.
:: Em 20 de março, o Brasil reconhece transmissão comunitária do vírus, que é quando não se pode identificar a origem da contaminação. A esta altura diversos estados já adotam medidas restritivas quanto à circulação, fechamento de comércio, suspensão de aulas e cancelamento de eventos.
:: Até a noite de ontem, 16.170 casos são confirmados para contaminação pelo novo coronavírus e 819 pessoas morrem em decorrência da covid-19 no Brasil. A maior parte homens (cerca de 60%). A faixa etária mais afetada é acima de 60 anos (77%). E em 75% dos óbitos a vítima tem associado pelo menos um fator de risco (cardiopatias são as mais frequente, seguidas de diabetes).
:: O Rio Grande do Sul tem 581 casos e 10 óbitos até a tarde de ontem.
:: Em Caxias, são 32 casos confirmados, 11 deles curados. Nenhuma morte.

Foto: Arte Pio / Arte Pio


 
 
 

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