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Coronavírus07/04/2020 | 15h53Atualizada em 07/04/2020 | 16h17

Caxiense volta para casa depois de passar 11 dias abrigado nos pavilhões da Festa da Uva

 Jonatan Rosa da Luz refez contato com a família e a mãe o acolheu em casa

Caxiense volta para casa depois de passar 11 dias abrigado nos pavilhões da Festa da Uva Arquivo Pessoal/Divulgação
Jonatan e a mãe, Rosemeri, se reencontraram depois que o filho passou 11 dias acolhido nos Pavilhões da Festa da Uva. Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Essa é a história do filho pródigo. Na parábola bíblica, o filho não tem nome, nem o pai, nem a mãe. Não se sabe sequer onde ocorreu o fato. Mas essa é uma história relevante na cultura judaico-cristã. Trata do perdão que a tudo resgata e do amor que a tudo supera. 

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O caxiense Jonatan Rosa da Luz andava à sombra, perdido, solitário e atormentado. Discussões aparentemente banais fervilhavam a ponto dele se desentender com as pessoas que mais se importavam com ele. Irado, arredio e embrutecido, rasgava em direção contrária ao zelo e cuidado da família e atirava-se ao consumo desenfreado de álcool, que o conduzia com fervor à cocaína.

 —  O cara que usa droga quer sempre ter a razão  —  revela Jonatan, 31 anos.

Quanto mais perto das drogas, mais distante de casa ele ficava. Há sete anos, Jonatan morava em Florianópolis, e vivia como pedreiro, construindo casas para os outros, mas ele não conseguia firmar-se em um lar. Mesmo relacionando-se com uma companheira, flertava com o vício que o afastava ainda mais de quem o amava.

 —  O dependente químico vai perdendo os melhores amigos, a família, a esposa, a gente acaba perdendo as melhores pessoas que estão do nosso lado  —  desabafa, explicando que tem um filho de oito anos, que vive em Caxias do Sul.

A viagem
Por mais poética que a literatura possa ser, ou mais espiritual que a bíblia possa ser, a beleza (e dureza) da vida é insuperável. Jonatan passou pelo seu calvário, duelando contra si mesmo. Ele sempre se reconheceu como um cara tímido e fechado, que trancava dentro de si os dilemas, medos e conflitos. Não importava onde estivesse, se Caxias do Sul, Florianópolis ou São Marcos (onde mora a sua mãe), todo lugar parecia arredio.

Da última vez em que ocorreu uma briga familiar, ele tinha recém chegado de Florianópolis para ficar com a mãe em São Marcos, à procura de trabalho como pedreiro. No entanto, ele acabou chegando na Serra gaúcha em meados de março, bem no período em que os municípios estavam decretando medidas de prevenção à covid-19. Sem perspectivas de trabalho, Jonatan invocou-se com os cuidados da mãe, para que ele ficasse em casa, respeitando o isolamento. Mas, no final da tarde do dia 22 de março, bateu a porta e saiu.

Uma dose leva a outra que o levou ao pó. Naquela noite, dormiu na praça central de São Marcos. Quando acordou, foi à rodoviária e planejou vir a Caxias.

 —  Eu só queria chegar em Caxias e beber mais  —  revela.

O purgatório
Quando pisou em Caxias, a fome bateu, e foi bater à porta da Fundação de Assistência Social (FAS). Um homem que ali fora estava, que talvez tenha sido um anjo, ele não sabe bem explicar,  informou que não havia ninguém por ali, mas que o levaria a um lugar onde lhe dariam acolhida e um pão para saciar a fome.

 —  Cheguei então no Centro Pop Rua, e eles estavam se organizando para levar os moradores de rua para os Pavilhões da Festa da Uva. Então me pediram se eu queria ir, pensei um pouco e decidi ir junto com eles  —  conta Jonatan.

Lá, ele ganhou um kit de higiene, roupa de cama e banho e pôde lavar a alma. Ainda trancado em si mesmo, Jonatan esquivava-se de qualquer contato. Até que cedeu ao olhar da assistente social Krisiane Zugno e do técnico em enfermagem Daniel Araújo dos Santos, e passou a se abrir, mesmo que ainda ressabiado. Krisiane e Daniel, com persistência e afeto, estavam ali, diariamente dispostos a ouvir a voz do seu coração.

 —  Tivemos vários acolhimentos desde o dia 23 de março, mas muitos acabam indo embora. Quem fica lá é porque tem uma perspectiva de sonhar novamente. O que fez o Jonatan mudar, foi o fato de ter sido escutado  —  sentencia Krisiane Zugno, 35, assistente social no Centro Pop Rua.

A redenção
Através da paciência e disponibilidade de Krisiane e Daniel, Jonatan teve talvez a primeira oportunidade de escutar a voz do seu coração. Mais ainda, foi preciso o isolamento do mundo, e das influências externas, como seus vícios, para que ele estivesse à vontade para falar dos seus medos e anseios, dores e amores.

 —  A cada vez que deitava minha cabeça no travesseiro, eu olhava para o teto dos pavilhões e pensava nas pessoas que estavam lá abrigadas, como eu. Lá conheci pessoas com problemas muito piores do que o meu. Mas também aprendi que ninguém é mais do que ninguém. Somos todos iguais  —  avalia Jonatan.

Desde o primeiro dia em que esteve no abrigo temporário organizado pela prefeitura de Caxias do Sul, ele foi estimulado pela equipe do Centro Pop Rua, a manter contato telefônico com a mãe, a empregada doméstica Rosemeri Andradina da Silva Rosa, 52 anos, que mora em São Marcos com o atual marido, de 72, com quem tem três filhos.

Nos onze dias em que permaneceu no abrigo, em Caxias, a família passou a perceber a mudança no comportamento de Jonatan, a ponto de a mãe aceitar que ele voltasse para casa. O retorno, teve lágrima e riso, em meio a suspiros de alívio, por parte da mãe. O Centro Pop Rua pagou a passagem de Caxias para São Marcos, na quinta-feira, dia 2.

 —  Tá loco, foi muito emocionante voltar pra casa. A minha história é como a do Filho Pródigo. E olha que teve até churrasco no domingo (6)  —  brinca Jonatan, ainda emocionado.

A lição
Rosemeri tenta descrever como foi rever e abraçar novamente o filho. Quando Jonatan saiu de casa, no dia 22 de março, era como se ele tivesse morrido. Então, o reencontro teve sabor de vida.

 —  Nenhuma mãe quer perder um filho, ainda mais ele, um filho tão bom  — desabafa.

Perder um filho, nessa luta que é a vida, não importa que vilão seja, se a covid-19, se a droga ou um tiro. Perder um filho é como perder a própria vida, que o digam as mães que perderam os seus para esses inimigos que pipocam em cada esquina.

 — Meu filho é outro, só de conversar com ele, sinto que hoje ele é feliz. Tenho muito agradecimento por todos que ajudaram ele  —  diz Rosemeri.

Jonatan revela que o segredo foi a palavra de um pastor abençoado que ele infelizmente esqueceu do nome.

_ O pastor me disse, lá nos Pavilhões, que eu precisava liberar o perdão, que primeiro eu tinha de me perdoar por tanta coisa errada, porque eu me julgava muito _ conta.

Dito e feito, refeito da confusão da mente antes bagunçada por álcool e cocaína, em paz consigo mesmo, pôde receber o abraço de amor e perdão da mãe, que o acolheu de braços abertos, como naquela parábola.

— Se de alguma forma minha história de Filho Pródigo puder influenciar outros eu fico feliz. Agradeço a todos, do guardinha lá da porta, até a cozinheira, todos foram muito importantes. Pra mim, esses 11 dias foram uma escola. Nunca é tarde pra recomeçar… — ensina, com a convicção de que o dia de hoje será ainda melhor do que o de ontem.

Ou seja, um dia por vez, né, Jonatan?

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