Número de acidentes com morte cai no Estado, mas sobe na Serra em 2019 - Geral - Pioneiro

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Trânsito04/03/2020 | 20h52Atualizada em 05/03/2020 | 09h54

Número de acidentes com morte cai no Estado, mas sobe na Serra em 2019

Diretor do Detran considera índices de Caxias do Sul "assustadores"  

Número de acidentes com morte cai no Estado, mas sobe na Serra em 2019 Porthus Junior/Agencia RBS
Rota do Sol é uma das rodovias responsáveis pelo aumento no número de vítimas no trânsito da região Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

A Serra tem andado na contramão do restante do Rio Grande do Sul (e do Brasil) com relação ao número de mortes no trânsito. Se o Estado comemora uma retração de 4,7% no percentual de vidas perdidas de 2019 para 2018, a região contabiliza um crescimento de pelo menos 12% neste mesmo período, conforme dados oficiais divulgados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) durante esta semana. Desde 2015 não eram registradas tantas mortes em rodovias estaduais, federais e municipais nas 64 cidades serranas. No total, 232 pessoas (das 1.591 em todo o Estado) perderam a vida em rodovias da Serra. 

Se for levada em consideração a contagem feita pelo Vidas Perdidas no Trânsito, no site do Pioneiro, o percentual pula de 12% para 20,4%. Já se forem contabilizados apenas os 31 municípios integrantes do Conselho Regional de Desenvolvimento da Serra (Corede-Serra), esse percentual é ainda mais alarmante: 27,8%. Em comparação com 2015, quando houve menos vítimas (197) nos últimos 13 anos, o aumento é de 17,76% em 2019, conforme o levantamento do Detran.

Mesmo com essa ascensão do ano passado, o índice ainda é inferior a 2012, quando morreram 309 pessoas nas estradas da região.

Caxias do Sul, por ter maior frota, obviamente puxa para cima a fila de vítimas na região. Mesmo assim, os números da cidade assombram (e muito) o próprio Detran. Tanto que, conforme o diretor-geral adjunto do órgão, Marcelo Soletti, ações específicas estão sendo estudadas para entender o que tem ocorrido na maior cidade da Serra, que só em 2019 contabilizou 60 mortos — a Capital, Porto Alegre, com 1,5 milhão de habitantes, teve 77. Desde 2011, quando 61 pessoas foram vítimas da violência no trânsito, a cidade serrana não apresentava um número tão expressivo. Para se ter uma ideia, em 2018, foram apenas 33 mortes no trânsito em Caxias, quase a metade do ano passado.

— O Brasil inteiro vem de uma tendência de redução e as cidades estão cumprindo isso, com trabalhos pontuais para evitar esse aumento no número de mortes. O índice de Caxias é assustador. Estamos avaliando esses números e buscando todas as informações para que possamos realizar um trabalho pontual na cidade — destaca Soletti.

Ainda este ano, o Detran pretende instalar em Caxias e em outros 17 municípios considerados os mais violentos do Estado, a Escola Pública de Trânsito, apresentada em setembro de 2019 e que será voltada para, além de condutores, servidores, credenciados e terceirizados do órgão, estudantes, ciclistas e pedestres. A ideia é ministrar cursos temáticos sobre trânsito.

— Não temos dúvidas que o álcool ainda segue como o responsável pela maioria dos acidentes com morte no trânsito. Estamos finalizando os dados para colocar a escola em prática. E ela será no sentido de escola mesmo, para apresentar as principais causas e ensinar aos gestores como fazer a prevenção. Caxias será uma dessas cidades com a qual vamos trabalhar mais pontualmente as causas dos acidentes — conta Soletti.


Leis mais rígidas contribuem para redução no RS

No índice geral do Rio Grande do Sul, o levantamento do Detran também aponta para uma queda de 10% no número de acidentes fatais em vias estaduais de 2018 para 2019. No entanto, houve um aumento de 1,5% nas federais. Esse acréscimo, mesmo que pequeno, pode ter relação com os quatro meses em que as rodovias ficaram sem o uso de radares móveis por determinação do governo federal. O controle foi retomado no fim do ano após determinação judicial.

Marcelo Soletti destaca que alguns pontos foram cruciais para a diminuição no número de mortes. A Lei Seca, que entrou em vigor em 1997 mas só em 2008 adotou o “tolerância zero” para a quantidade de álcool no organismo, é um deles. Os valores mais salgados nas multas para quem for pego dirigindo sob efeito de álcool ou substâncias psicoativas (R$ 293,47 vezes 10, totalizando R$ 2.934,70) também é um dos motivos apontados por essa redução em nível estadual. O sistema de segurança e a tecnologia nos automóveis mais modernos também ajuda na hora das colisões. No entanto...

— Temos os prós e os contras. Você tem um carro mais moderno, tecnológico e tem a tendência de pisar mais. O Balada Segura, que começou em 2011, também tem ajudado a diminuir esse índice, além do transporte por aplicativos, o uso do cinto de segurança, que já é quase automático para a maioria e a própria conscientização das pessoas — cita Soletti.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/03/2020. Familiares e amigos de Luiz Henrique Barbosa, 24 anos, vítima de acidente de trânsito no dia 5 de janeiro de 2020, falam sobre a falta que o jovem fez nos últimos dois meses e da importância dos motoristas tomarem cuidado consigo e com os outros no trânsito. O jovem conhecido como Guigão foi vítima de uma colisão entre a motocicleta que pilotava e uma caminhonete Hilux, em Vacaria. A namorada, Caroline Azevedo, que também estava na moto, teve uma das pernas amputadas em decorrência do acidente. Na foto, da E p/ D: Jorge Antônio Carvalho, o Toni, proprietário da autoelétrica onde Barbosa trabalhava, irmãs Thais Pereira e Aline Pereira, sobrinha Maria Eduarda Panisson e o pai Luiz Edgar Barbosa. (Porthus Junior/Agência RBS)<!-- NICAID(14440255) -->
Toni (E), Thais, Aline, Maria Eduarda e Luiz Edgar Barbosa ainda não superaram morte de Luis Henrique Barbosa este anoFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

Uma dor que nunca passa

Dois meses após o acidente de trânsito que vitimou Luis Henrique Barbosa, 24 anos, no dia 5 de janeiro de 2020, familiares e amigos dizem sentir cada vez mais profunda a dor causada pela falta do jovem que residia e trabalhava no bairro Fátima. Ele é uma das 21 pessoas que perderam a vida em estradas da Serra gaúcha neste ano.

Após comemorar o aniversário de 50 anos da mãe, Rosimeri Barbosa, em Caxias do Sul, na noite de sábado, dia 4 de janeiro, ele e a namorada, Caroline Gomes de Azevedo,  aproveitaram a tarde de domingo para ir até Vacaria, em um passeio com a motocicleta Honda XRE 300 que ele tinha adquirido há mais ou menos um ano. O acidente registrado por volta das 16h ocorreu a 300 metros de distância da casa do irmão que Barbosa estava indo visitar, no bairro São João.

O caso ainda corre na Justiça e conforme boletim da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que atendeu à ocorrência no km 41 da BR-116, a moto acabou atingindo a Hilux com placas de Vacaria, após uma manobra classificada pelo documento como um retorno irregular.

— É um sentimento que não dá nem pra explicar. Ele não teve nem chance de pensar, o que deu pra fazer, que foi tentar desviar, ele fez. A falta é muito grande. Hoje é com a gente, amanhã pode ser com outra família e assim por diante — relata Thais Pereira, 29, irmã de Barbosa.

A família diz ainda manter contato com Caroline, namorada dele que sobreviveu à colisão, porém ainda se recupera da amputação de uma das pernas realizada em decorrência do acidente. O casal estava junto há cerca de nove meses e morava junto há três. Mesmo assim Barbosa ainda almoçava e jantava todos os dias na casa do pai, Luiz Edgar Barbosa, no mesmo bairro.

— Não está sendo fácil, ele estava todos os dias lá em casa, parece que ele vai chegar a qualquer momento — afirma o pai.

A mesma sensação tem, quase que diariamente, Jorge Antônio Carvalho, o Toni, proprietário da autoelétrica onde Barbosa trabalhava. Ele conta que, todas as manhãs, um motociclista passa no mesmo horário com o mesmo som que a moto de seu braço-direito fazia ao chegar no trabalho. Com a aposentadoria encaminhada, Toni diz que tinha a intenção de deixar seu negócio para o jovem que foi seu aprendiz nos últimos 13 anos.

— A morte dele me quebrou. Eu tinha ele como um filho, apoiava ele, pagava cursos e todos os clientes gostavam dele, até agora muitos ainda não sabem quando vêm aqui — conta o proprietário, lembrando do caso recente de um cliente que chegou a sair da oficina para chorar quando foi informado da morte de Guigão.

— Tudo que eu sei ele sabia. Eu vou me aposentar agora e não sei como vai ser, estou pensando até em encerrar de vez aqui — avalia Toni.

Vestindo a camiseta com o rosto do irmão, Aline Pereira, 29, ao lado da filha, Maria Eduarda Panisson, 10, uma das cinco sobrinhas de Guigão, diz parecer cada vez maior a lacuna ao longo dos últimos dois meses.

— O primeiro dia acho que não é tão difícil quanto esses outros dias que vão passando — relata.

Segundo ela, 100 peças da camiseta com a estampa de Guigão foram feitas para homenagear e também não deixar que o acidente seja esquecido. O velório do jovem, que ocorreu em Caxias do Sul e em Vacaria, atraiu mais de mil pessoas, prova do quanto o rapaz era querido por quem conhecia. Em Caxias, mais de 200 motociclistas realizaram uma carreata em nome do amigo.

— Eu sempre dizia pra ele e digo pra todo mundo, é preciso se cuidar e, acima de tudo, cuidar dos outros na estrada. Agora queremos que a Justiça seja feita porque o guri, infelizmente, não volta mais — conclui Toni.

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