Família Bocchese e as lembranças da gripe espanhola em Antônio Prado - Geral - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Memória24/03/2020 | 07h00Atualizada em 24/03/2020 | 07h00

Família Bocchese e as lembranças da gripe espanhola em Antônio Prado

Bisneto de Antônio Bocchese, Tito Armando Rossi Filho compartilhou texto sobre o hábito da avó de "lavar bem as munheca"

Família Bocchese e as lembranças da gripe espanhola em Antônio Prado Acervo pessoal de Tito Armando Rossi Filho / Divulgação/Divulgação
Maria Philomena Marin, viúva de Antonio Bocchese, com os filhos. Em pé, Ignez Clementina (Tina), João (Joanin), Joana Magdalena (Neni), Livia e Ildegonda Luiza (Ilda). Sentada, ao lado da mãe, a filha Elsa Foto: Acervo pessoal de Tito Armando Rossi Filho / Divulgação / Divulgação

Em  tempos de coronavírus, isolamento social e higienização reforçada, as referências à gripe espanhola se fazem presentes em várias páginas das redes sociais. Na última sexta (20), o engenheiro e genealogista amador Tito Armando Rossi Filho, 47 anos, publicou  um relato recordando de parte da trajetória da avó, Lívia Bocchese Rossi, e do bisavô, Antônio Bocchese, à época da epidemia surgida em 1918. Foi na página do Facebook “Nossas Memórias de Antônio Prado”, cujo texto original reproduzimos aqui - com a permissão  também da família do senhor Vitor Bocchese Grazziotin  (in memoriam), autor de parte do relato  citado: 

Lembro  como se fosse hoje da minha querida avó Lívia Bocchese. Com seu jeito meigo, que lhe era muito particular, obrigava a mim e outros netos a lavarem a mão antes de desfrutarem de sua “carne lessa” ou de outra iguarias da culinária colonial a nós oferecidas na  sua casa em Caxias. É uma suposição minha, mas pensando hoje, essa insistência dela por higiene das mãos talvez não tenha sido apenas capricho de vó, mas teve origem há cerca de 100 anos. O pai dela, meu bisavô Antonio Bocchese, fora acometido pela gripe espanhola,  faltando uma semana para o aniversário dela de nove anos. Quer um pouco mais de história? Então vamos lá, conforme relatado de forma primorosa pelo Vitor Bocchese Grazziotin (in memorian) e publicado em 2010 no Jornal Cidadania (texto ao lado), por ocasião  do centenário de construção da Casa da Neni. (Tito  Armando Rossi Filho)

Leia mais
Ruas de Caxias: o antes e o depois das obras em 1940
O paraíso do vinho no bairro São Pelegrino

Morte  de Antonio Bocchese em 1919 

"Antônio  casou-se com Maria Philomena Marin. Ela era filha de Zaccarias Marin e Giovanna Pronol, e fazia parte da família Marin, ali da capela do Caravaggieto. Ambos tinham 19 anos quando casaram, em 11.05.1904.

Antônio  foi quem mandou construir a hoje famosa Casa da Neni, primeiro prédio tombado e declarado Monumento Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na região colonial italiana. A partir desse primeiro ato de tombamento surgiu todo o processo  das demais casas tombadas em Antônio  Prado.

Antônio  era ourives e, além da loja que mantinha na cidade, mascateava pelo interior do município e municípios vizinhos, comprando ouro e outros metais preciosos e vendendo as joias que ele mesmo fabricava: aneis, correntes, pulseiras, broches, e brincos. Contam que  quando faltavam os cadinhos de grafite, para fundir o ouro, ele usava as xícaras de porcelana da coberta de mesa da vovó. Era uma pessoa extremamente afável e social, gostava de festas. Era uma pessoa de liderança e foi um dos idealizadores do Clube União,  do qual foi sócio fundador e o 1º vice- presidente. Igualmente, foi um dos idealizadores e sócio fundador da Società di Muttuo Soccorro Vittorio Emmanuelle, hoje a Sociedade Pradense de Mútuo Socorro.

Muito  jovem ainda, faleceu a 15 de abril de 1919, com 34 anos de idade, vitimado pela grande epidemia de febre espanhola que grassou também em  Antônio Prado, no princípio do século passado. Com a morte de Antônio, a família sofreu um rude golpe. Marietina (esse  apelido era proveniente da sua pequena estatura) viu-se na contingência de solicitar socorro aos parentes para ajudarem a criar os seis filhos pequenos.

A  Tina foi morar com os avós maternos – Zaccarias e Giovanna, que tinham uma chácara ali onde hoje é a Coop. Pradense, defronte ao Colégio Irmão Irineu. A Livia e a Ilda foram morar com os tios Angelini (Luigi e Madalena) em Vila Nova, Porto Alegre. A Neni,  o Joanin e a Elza ficaram em casa com a mãe. Para tocar os negócios, Marietina associou-se com seu irmão, Carlos Marin – o Carletto.

Marietina  e a Neni cuidavam da loja e o Carletto, para assumir a ourivesaria, foi aprender o ofício em Caxias, com o Abramo Eberle. Contam que, nos finais de semana, ele ia para casa, de bicicleta. De todos os moradores da Casa da Neni, o que menos usufruiu da bela  residência que havia mandado construir para a sua família foi Antônio. Nela viveu menos de dez anos, vitimado que foi pela terrível epidemia de febre espanhola, vindo a falecer em 15 de abril de 1919. É sintomático o registro do livro de óbitos da paróquia  de Antônio Prado. Nos primeiros meses do ano de 1919 encontra-se o registro do óbito de nove pessoas, todas jovens. No mesmo período, em Nova Roma, houve o registro de sete óbitos, também causados pela febre espanhola. Depois de reorganizada a família e acertar  a retomada dos negócios, Marietina passou a ter uma estabilidade financeira e familiar, com as filhas assumindo a parte comercial e organizando a vida doméstica." 

Vitor Bocchese  Grazziotin (in memorian), em texto alusivo ao centenário de construção da Casa da Neni, em 2010 

Leia também
Em época de isolamento contra o coronavírus, confira como fica o pagamento de contas
2020 tinha tudo para ser um bom ano para a economia de Caxias do Sul
Associação de recicladores do Aeroporto, em Caxias, suspende atividades

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros