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Cuidado pessoal28/03/2020 | 07h00Atualizada em 30/03/2020 | 08h36

"É o momento de desacelerar e olhar para nossas emoções", diz psicóloga

Em tempos de pandemia do coronavírus, saiba como preservar a sua saúde mental

"É o momento de desacelerar e olhar para nossas emoções", diz psicóloga Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

O avanço do coronavírus é real. Novos casos são confirmados ou levantados como suspeitos diariamente em todo Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul e cidades da Serra gaúcha. A ameaça à saúde e a realidade de isolamento geram impactos não apenas logísticos e econômicos a todos, mas também psicológicos. Para entender melhor as consequências possíveis e as formas de prevenção, conversamos com a psicóloga clínica Elisa Zanonato Borgheti, presidente da Associação dos Psicólogos do Nordeste do Rio Grande do Sul. Confira:

Pioneiro - O atual contexto local formatado em consequência do avanço do coronavírus pode causar danos à saúde mental da população?

Elisa Zanonato Borgheti: Na psicologia, sempre entendemos os comportamentos no contexto em que se manifestam. Pessoas que possuem maior predisposição a quadros clínicos como ansiedade e depressão, por exemplo, podem vivenciar maior impacto negativo em sua saúde emocional. Na última semana, tenho visto relatos de vários profissionais da saúde sobre pacientes que apresentaram recaída em sintomas de ansiedade (piora em quadros de ataques de pânico, por exemplo) com o aumento das consequências dessa pandemia. Tudo depende muito do caso, pois cada indivíduo tem um funcionamento único, mas sem dúvidas as consequências do cenário atual são mais significativas em pessoas com maior vulnerabilidade a circunstâncias potencialmente geradoras de estresse.

De que forma podemos superar essa situação?

Podemos aproveitar para desacelerar, refletir e direcionar um olhar atento ao mundo interno, atentando para nossas emoções e pensando sobre o que é valoroso e de maior importância para nós mesmos. Por exemplo, se por um lado nos isolamos em nossas residências, por outro nos aproximamos ainda mais de quem agrega sentido diário à nossa vida. Vivências de sofrimento intenso costumam nos auxiliar na comunicação e no encontro de soluções para determinados problemas, e isso evidencia o potencial inato de todo ser humano para a adaptação.

Comportamentos individuais influenciam o todo — e vice-versa —, então devemos focar na parte da qual realmente temos controle: em nós mesmos. Como posso contribuir no atual cenário? Considerando que o excesso de informações é característico da disparada evolução dos meios de comunicação tecnológica, o ideal é sempre selecioná-las, e isso não significa negar a gravidade da situação, mas sim reavaliar a nós mesmos, o que é muito mais saudável do que alimentar o círculo vicioso da desesperança. Sabemos que os efeitos do estresse crônico no organismo prejudicam o sistema imunológico, facilitando, até mesmo contrair o vírus da gripe comum. 

Quais são as suas recomendações para a prevenção da saúde mental neste momento?

Referente à saúde física, as medidas de precaução que muitos já têm falado e que já conhecemos. No âmbito da saúde mental, podemos reconhecer que o medo, assim como todas as emoções, tem a função de nos proteger de perigos. Mas, se praticarmos o automonitoramento, conseguiremos fazer uma análise de hábitos e comportamentos que precisamos manter ou mudar, possibilitando uma reflexão sobre benefícios e prejuízos dos mesmos não só para a saúde individual, mas coletiva.

Talvez seja o momento propício para encontrarmos, em casa, atividades prazerosas que tragam gratificação: aqueles livros e filmes que ficaram de lado, e organizações que postergamos devido à correria do dia a dia. É o momento de reforçarmos a conexão interna e com a comunidade, praticando empatia e apoio mútuo _ mesmo que distantes fisicamente _ e lembrar que estamos todos no mesmo barco. Afinal, sabemos a veracidade do antigo ditado popular: "A união faz a força"! 

RECLUSÃO PODE GERAR SENSAÇÃO DE SOLIDÃO

Como o home office ainda não era realidade crescente nas empresas de Caxias do Sul e da Serra no período que antecedeu a pandemia, lidar com a reclusão em casa ou com o distanciamento das tarefas do dia a dia pode impactar na sensação de solidão e confusão. Afinal de contas, é uma experiência nova para boa parte da comunidade.

A psicóloga organizacional e diretora da Assert.e. Gestão de Pessoas, Tatiane de Lima, aconselha que este é o momento ideal para tentar enxergar o lado positivo da situação: é quando crenças limitantes podem dar espaço à consolidação de que podemos, sim, gerir nosso tempo de forma adequada. Se antes a ideia de que o trabalho só funcionava perto do chefe era predominante, o distanciamento físico é a chance de provar o rendimento pessoal de cada um mesmo à distância.

— O olhar consigo mesmo pode provocar a solidão, mas podemos usar dos recursos digitais para nos sentir mais próximos de quem gostamos. Uma chamada de vídeo diária para a família, uma faxina no guarda-roupas de itens que podemos doar, a leitura daquele livro que estava esperando são só algumas possibilidades de ocupar a mente e não deixar que o tempo livre nos deixe depressivos — avalia.

A psicóloga também recomenda: evite o uso contínuo de pijama, já que a roupa influencia bastante na autoestima e na hora de encarar as tarefas. Para quem restou a opção de isolamento sem trabalho, aproveitar o tempo ao acessar cursos online gratuitos é uma alternativa de aliar ensino com criatividade. A FGV, por exemplo, disponibiliza cursos na área de Finanças Pessoais e Sustentabilidade totalmente gratuitos e até com certificados — e vale uma pesquisa rápida na internet que diversas possibilidades surgem.

— Aproveite sua companhia, cuide do jardim ou de plantinhas no seu apartamento e curta seu bichinho de estimação. Isso logo vai passar, e sairemos mais fortes e com nosso autoconhecimento ainda mais aflorado — recomenda Tatiane.

A psicóloga organizacional e diretora da Assert.e. Gestão de Pessoas, Tatiane de LimaFoto: Arquivo pessoal / Divulgação

RECOMENDAÇÕES DA OMS

:: Demonstre empatia
Independente do país onde vivem, as pessoas infectadas não fizeram nada errado e merecem nosso apoio, compaixão e gentileza.  É importante separar a pessoa e a sua identidade do vírus em si para reduzir o estigma. 

:: Atente para o consumo de notícias
Reduza a leitura ou o contato com notícias que podem causar ansiedade ou estresse. Procure informações e atualizações uma ou duas vezes ao dia evitando o "bombardeio desnecessário" de informações.  Informe-se com os fatos e não os boatos ou as informações erradas. Os fatos ajudam a minimizar o medo.

:: Proteja-se e preste apoio
A assistência a outros em seu momento de carência pode ajudar a quem recebe o apoio como a quem dá o auxílio. Um exemplo: telefone para seus vizinhos ou pessoas em sua comunidade que precisam de assistência extra. Crie oportunidades para ampliar histórias positivas e úteis e imagens positivas de pessoas na sua área que tiveram o covid-19. 

:: Valorize os profissionais da Saúde
Homenageie e aprecie o trabalho dos cuidadores e dos agentes de saúde que estão apoiando os afetados pelo novo coronavírus em sua região. Reconheça o papel deles para salvar vidas e manter todos seguros.

:: Agentes de Saúde
O estresse e as sensações associadas com esse quadro não significam que você não seja capaz de fazer o seu trabalho ou que seja uma pessoa fraca. O gerenciamento da sua saúde mental e o seu bem-estar psicossocial durante este momento é crucial para que você possa manter sua saúde física também. Tente utilizar métodos para lidar com a situação como fazer pausas e descansar entre os seus turnos de trabalho e até mesmo tirar um momento dentro do expediente. Tenha atenção ainda aos seus alimentos para manter uma dieta saudável, fazer exercícios físicos e ficar em contato com a família e com os amigos, mesmo que virtualmente.

:: Líderes e supervisores em postos de saúde
Mantenha todo o pessoal protegido de estresse crônico e de uma saúde mental precária para que possam desempenhar seu trabalho da melhor maneira. Certifique-se que a situação atual não terminará da noite para o dia e o seu papel é focar no longo prazo em vez de respostas de curto prazo para a crise. Oriente os agentes de saúde, incluindo enfermeiros, motoristas de ambulâncias, voluntários, professores, diagnosticadores e líderes comunitários em quarentenas como oferecer apoio emocional básico para as pessoas afetadas, com base na utilização de um kit de primeiros socorros emocionais.

:: Cuidadores de crianças
Ajude as crianças a expressarem, de forma positiva, seus medos e ansiedades. Mantenha as crianças perto de seus pais e familiares caso seja seguro para elas. Evite a separação deles. Caso uma criança tenha que ser retirada de seus pais ou tutores, assegure-se de que ela será cuidada por outra fonte como assistentes sociais ou equivalentes e cheque a situação da criança regularmente. Mantenha as rotinas familiares sempre que possível e crie novas rotinas principalmente com as crianças em casa. Pense em atividades lúdicas e pedagógicas para fazer com elas. Fale com seus filhos sobre o covid-19 de forma honesta e apropriada à idade deles.  Se eles tiverem preocupações, o fato de falar sobre elas pode ajudar a baixar a ansiedade das crianças. 

:: Idosos e pessoas com problemas de saúde
Idosos, especialmente em isolamento social e aqueles com problemas cognitivos como demência podem se tornar ansiosos, estressados, com raiva, agitados e distanciados durante a quarentena. Ofereça a eles apoio emocional por meio de redes familiares ou de agentes de saúde. Partilhe fatos simples sobre o que está acontecendo com informações claras a respeito da redução de riscos e infecções em palavras compreensíveis para quem tem barreiras de entendimento. Repita a informação sempre que necessário. Se você tem alguma doença ou síndrome, certifique-se de que seus medicamentos estão disponíveis para uso. Ative ainda seu grupo de amigos para pedir ajuda caso necessário. Pratique exercícios simples diariamente. Mantenha rotinas e tarefas regulares sempre que possível e crie novas num ambiente diferente. Entre elas atividades diárias, limpeza, canto, pinturas e outras. 

:: Pessoas em isolamento
Mantenha sua rede de amigos e conhecidos,  ainda que isolado tente ao máximo manter sua rotina e crie novas. Se as autoridades de saúde recomendaram distância física para conter o surto, você pode manter a proximidade digital com e-mails, redes sociais, telefone, teleconferências etc. Envolva-se com atividades saudáveis e aproveite para relaxar. O exercício constante, o sono regular e uma dieta balanceada ajudam.

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