Dona Ironita, um símbolo do Rodeio de Vacaria - Geral - Pioneiro

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Tradicionalismo31/01/2020 | 19h44Atualizada em 31/01/2020 | 19h55

Dona Ironita, um símbolo do Rodeio de Vacaria

História do evento se confunde com os 74 anos da patroa da edição de 1988

Dona Ironita, um símbolo do Rodeio de Vacaria Lucas Amorelli/Agencia RBS
Ironita de Lord Bueno Guerreiro só não participou de uma das 32 edições do Rodeio Internacional de Vacaria Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

— Você vai ficar aqui? Você deveria ficar. Porque esse parque se transforma em algo mágico. Os corações de quem participa de provas e apresentações e do público se unem na mesma batida. É uma emoção tão poderosa que envolve até quem nunca viu um rodeio na vida.

É com o mesmo brilho no olhar de como se fosse a primeira vez que Ironita de Lord Bueno Guerreiro estará desfilando, a partir deste sábado (1º), todo o carisma, a elegância e o amor que nutre pelo Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, que chega à 33ª edição. Até o próximo domingo, dia 9, a expectativa é de que 280 mil pessoas passem pelo Parque de Exposições Nicanor Kramer da Luz.

Na verdade, a história de uma das maiores festas do tradicionalismo do país, Patrimônio Cultural do Estado desde 2006, se confunde com a dos 74 anos de vida de dona Ironita. Patroa da edição de 1988, primeira prenda do CTG Porteira do Rio Grande e segunda prenda do Rio Grande do Sul em 1960, ela compartilha cada momento vivido em cada um dos rodeios que participou.

— O mais interessante nesse rodeio é a integração. As indumentárias, as novas amizades, outras culturas que se encontram aqui. É uma troca profunda. Até casamento já saiu. Todos os artistas que participam sempre voltam apaixonados por alguém e sempre deixam alguém apaixonado. Uma vez, veio um cantor de Buenos Aires que se apaixonou por uma moça aqui, foi na casa dela, pediu em casamento e levou embora. Muitos fazem letras depois que passa o rodeio aproveitando a emoção da paixão que tiveram aqui.

Inclusive...

— O primeiro casamento foi o meu (risos). Meu marido foi um dos primeiros sócios do CTG e dançava muito bem. Ele era o posteiro (que cuida das cercas e do gado, para que não haja invasões nas fazendas) da Invernada Artística. E eu era a primeira prenda. Daí já viu, né? — descreve dona Ironita, que conheceu Percy de Almeida Guerreiro no rodeio de 1960.

O namoro começou naturalmente e, dois anos mais tarde, virou casamento. As três filhas, Anahida, Anatércia e Lécia, foram criadas no ambiente em que os pais se conheceram. Tanto que uma delas, Anahida, foi coroada a primeira prenda do Estado, em 1981, seguindo os passos da mãe. Após a morte de Percy, há 12 anos, as três ajudam a mãe a cuidar dos negócios da família.

— Aqui (no rodeio) nunca houve uma discussão, uma briga, uma intriga, todos escutam suas músicas nas suas barracas. Então, é o que eu digo. É tanta paz, tanta alegria, tanta concordância, é tanta comida, tanta coisa boa aqui dentro...

A única coisa que preocupa Dona Ironita é a juventude atual. E ela crê piamente que o tradicionalismo pode funcionar como um "salvador" da nova geração. Por isso, passou a ter como um dos propósitos de vida trabalhar para tentar integrar mais e mais pessoas à causa.

— São adolescentes enlouquecidos. Falo da sociedade como um todo. Hoje, as moças vão em velório de shortinho. As pessoas se apresentam em palcos com calças rasgadas, sem camisa... O tradicionalismo trabalha em prol do respeito, da cultura. Sou do tempo de Hebe (Camargo, apresentadora), de estar sempre muito bem vestida para valorizar o público.

Dona Ironita é conhecida por todos que circulam no Parque Nicanor Kramer da Luz. Ela é uma espécie de talismã durante os rodeios. Mantém uma sala no local, que ela mesma monta e desmonta em todas as edições, para recepcionar autoridades, convidados especiais e os visitantes.

— Essa ideia surgiu depois que eu fui patroa (em 1988). Se chega alguém da Argentina, por exemplo, nós recebemos. Servimos champanhe, vinho, cafezinho, chimarrão... Ficamos muito agradecidos em receber as pessoas.

Este ano, o governador Eduardo Leite deve estar presente na abertura do rodeio. E, ao ficar sabendo da possibilidade de o vice-presidente Hamilton Mourão também desembarcar em Vacaria para a cerimônia, se apressou em buscar a melhor forma para recebê-lo.

— Perguntei para o gerente do Banco do Brasil, que é meu amigo, qual o vinho que ele recomendava. Ele disse que achava que não poderia servir vinho para ele por ele ser uma autoridade. Ele sugeriu que eu servisse cafezinho, chimarrão, mas um vinho bem geladinho ele não vai negar — diverte-se.

Com a responsabilidade de cuidar dos animais da fazenda onde vive, dona Ironita é apaixonada pela pecuária e agropecuária. Divide as demais tarefas com as filhas e só "tira férias" quando está no rodeio.

— Ainda arrepia, fica no nosso coração. É nossa gente. Nós vivemos num paraíso. Aqui você tem tudo o que precisa. Minha emoção é a mesma de quem concorre nas provas. É tudo tão lindo.


HISTÓRIAS PARA CONTAR NÃO FALTAM

Com a maior parte da vida dedicada aos rodeios, histórias para contar não faltam para dona Ironita. Em razão de ser apaixonada pela pecuária, considera a parte campeira a mais bela do evento.

— É a força do cavalo com a sabedoria do homem. O rodeio surgiu por causa da campeira — descreve.

Ela relembra que os rodeios na região dos Campos de Cima da Serra começaram em 1954, em Esmeralda, quando o município ainda pertencia a Vacaria.

— Estavam os amigos sentados num domingo e só tinham futebol para ouvir no rádio. Um dia um deles sugeriu para dar um "tiro de laço". Foram para a fazenda, reuniram um gado e começaram a laçar. No domingo seguinte aumentou muito a quantidade de pessoas para laçarem. Tudo começou aí — garante.

Uma das passagens mais engraçadas que dona Ironita lembra foi quando o Rodeio de Vacaria recebeu pela primeira e única vez a presença de um presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici, na 10ª edição, em 1974:

— Teve um uruguaio que foi escolhido para fazer uma gineteada especialmente para o presidente. E o cavalo vai foi arqueando, arqueando e, quando jogou o ginete para cima, deu um coice e acabou tirando a bombacha dele, deixando só de cueca.


MAIS DE 30 MIL PESSOAS ACAMPADAS

A expectativa para a 33ª edição do Rodeio Internacional de Vacaria é que 280 mil pessoas circulem pelo Parque Nicanor Kramer da Luz até o próximo domingo, dia 9. Só no acampamento, são esperadas cerca de 30 mil pessoas, fato que chegou a deixa preocupado Elvio Guagnini Rossi, patrão do CTG Porteira do Rio Grande, que organizada o evento.

— Eu estou apavorado. Mas vai dar tudo certo — disse Rossi, na última quinta-feira, enquanto acompanhava a última vistoria do Corpo de Bombeiros para a liberação do parque.

No total, são 1.420 terrenos destinados aos acampamentos. Cerca de 3 mil competidores do Brasil e Exterior devem participar dos concursos artísticos, além de outros 7 mil nas provas campeiras. A premiação aos vencedores ultrapassa R$ 800 mil, incluindo 10 veículos e seis motocicletas. Além disso, mais de 30 artistas farão shows todas as noites na Concha Acústica e nove bailes estão programados para ocorrerem no Circão de Lona, com a animação de 22 conjuntos.

Durante o evento também será realizada a nona edição do Rodeio Crioulo Nacional do Alvorecer Tradicionalista, cujo objetivo é incentivar a manutenção da tradição gaúcha. Crianças de até 13 anos podem participar nas categorias pré-mirim e mirim. Outro atrativo é o 12º Festival Cante uma Canção em Vacaria, neste sábado e domingo, no qual serão apresentadas músicas inéditas de artistas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Argentina e Uruguai.

A estrutura do parque conta com supermercado, farmácia, venda de artesanatos e até salão de beleza.


SERVIÇO

:: O que: 33º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria
:: Onde: Parque Nicanor Kramer da Luz
:: Quando: de 1º a 9 de fevereiro de 2020
:: Ingressos para o parque: R$ 7 (de segunda a quarta-feira); R$ 12 (de quinta-feira a domingo); R$ 80 (passaporte para todos os dias). Crianças e adolescentes de 7 a 15 anos, pessoas acima de 60 anos e estudantes, com identificação, pagam meia-entrada. Crianças até seis anos e sócios do CTG Porteira do Rio Grande em dia com as mensalidades não pagam ingresso
:: Ingressos para os bailes: de R$ 25 a R$ 30 (antecipados) e de R$ 35 a R$ 40 (na hora). Os bilhetes estão sendo comercializados desde quinta-feira, diretamente no parque.
:: Estacionamento: R$ 20 (de segunda a quarta-feira); R$ 25 (de quinta-feira a domingo) e R$ 180 (para todos os dias, não incluído o ingresso de acesso ao parque). Sócio titular do CTG Porteira do Rio Grande tem direito a uma vaga de estacionamento
:: Mais informações: (54) 3232.1077, (54) 3231.1011 ou no site www.rodeiodevacaria.net


 
 
 

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