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Feminicídios14/12/2019 | 06h00Atualizada em 14/12/2019 | 06h00

"A crueldade é uma forma de destruir a imagem idealizada", diz psicóloga de Caxias sobre casos de violência contra a mulher

Especialista que atende vítimas de violência doméstica relaciona crimes a questões históricas e culturais

"A crueldade é uma forma de destruir a imagem idealizada", diz psicóloga de Caxias sobre casos de violência contra a mulher Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Para a psicóloga, a crueldade impressa na forma como os assassinatos são cometidos indica questões históricas e culturais Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Marteladas, fogo, disparos à queima roupa e, mais recentemente, líquido ácido no rosto. Estas são algumas formas de violência que levaram à morte mulheres da região nos últimos anos. Somente em Caxias do Sul, foram cinco casos registrados em 2019. Para a psicóloga Raquel Furtado Conte, professora dos cursos de graduação e mestrado de Psicologia da Universidade de Caxias do Sul, a crueldade impressa na forma como os assassinatos são cometidos indica questões históricas e culturais que atuam subjetivamente como motivadoras para que a violência contra a mulher ocorra em todas as suas formas, incluindo o feminicídio.

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— Vivemos em uma sociedade patriarcal em que, historicamente, o homem tinha a mulher como posse, como um bem dele. Geralmente quando ocorre uma separação, quando de alguma forma o homem perde o controle sobre essa posse, ele se sente ameaçado _ explica a especialista que desenvolveu sua pesquisa acadêmica com foco em violência de gênero e também coordena a disciplina Laboratório de Práticas Psicológicas II, onde estudantes atendem um grupo de mulheres passaram ou estejam passando por violência doméstica.

Segundo Raquel, a violência física normalmente ocorre em relações onde a violência psicológica já era registrada, em um processo que envolve a construção de identidade da mulher junto ao companheiro.

— É difícil de romper porque entra muito a questão moral, religiosa e até tradições de famílias onde a violência é naturalizada. No momento da agressão, elas já estão fragilizadas e muitas vezes ficam desnorteadas, com medo de se separar pela dependência financeira e emocional — afirma.

O grupo que Raquel acompanha na UCS atua, sobretudo, oferecendo suporte às vítimas, para que busquem seus direitos e rompam com o medo.

— É um paradoxo, mas para algumas mulheres é mais tranquilizador morar com o agressor porque, de alguma forma, elas conseguem controlar quando ele chega em casa, se está alterado ou não... Fora de casa ele pode atacar a qualquer momento.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 05/08/2016. Produção para falar sobre os dez anos da lei Maria da Penha, que coibe a violência contra a mulher. (Diogo Sallaberry/Agência RBS)
Segundo Raquel, a violência física normalmente ocorre em relações onde a violência psicológica já era registradaFoto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

A masculinidade tóxica já é tema de debate em grupos de homens em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro. Para Raquel, o simples ato de expressar em palavras os sentimentos, pode reduzir a violência contra as mulheres.

— O homem não foi culturalmente incentivado a falar de sentimentos. É uma questão cultural que ainda precisa ser muito debatida. A crueldade característica do feminicídio ocorre como forma de destruição da imagem idealizada por eles, mas é uma desconstrução que deveria ser simbólica e não concreta.

GRUPO DE APOIO

Os encontros de mulheres que ocorrem junto ao Serviço de Psicologia Aplicada (SEPA) da UCS serão retomados em março. O atendimento é gratuito e pode ser acessado espontaneamente ou por indicação da rede de atendimento à mulher do município. O acolhimento ocorre sempre às sextas-feiras, das 14h às 16h40min, no térreo do Bloco E. Informações pelo telefone 54 3218-2187.

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