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Violência contra mulher29/11/2019 | 13h36Atualizada em 02/12/2019 | 14h14

Casa de Apoio Viva Rachel, em Caxias do Sul, completa 20 anos

Conforme a coordenação do serviço, de janeiro a meados de outubro de 2019, 63 mulheres e 61 crianças e adolescentes foram abrigados

Casa de Apoio Viva Rachel, em Caxias do Sul, completa 20 anos Arte Luan Zuchi/
Conforme a coordenação do serviço, de janeiro a meados de outubro de 2019, 63 mulheres e 61 crianças e adolescentes foram abrigados Foto: Arte Luan Zuchi

A história de Ana (nome fictício), 32 anos, é de busca por ajuda contra a violência doméstica. Ao longo dos últimos 17 anos, ela foi acolhida seis vezes na Casa de Apoio Viva Rachel, em Caxias do Sul, por causa de dois relacionamentos em que foi vítima de agressões. A trajetória se confunde com a do próprio serviço, que completa 20 anos em 2019, oferecendo abrigo a mulheres que não têm para onde ir quando fogem do perigo que está dentro da própria casa.

O encaminhamento é feito por meio do Centro de Referência da Mulher (CRM), em dias úteis e horário comercial. Fora desse período, a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) aciona a Guarda Municipal, que entra em contato com a equipe de plantão na Casa Viva Rachel, conduzindo a mulher ao local.

Desde 2015, quando o Projeto Mão Amiga assumiu a coordenação, 642 pessoas foram acolhidas na Viva Rachel, que recebe, além das mulheres, os filhos delas, de zero a 17 anos e 11 meses. Embora a terminologia usada seja "filhos", a proteção se estende aos netos quando se trata de avó que sofre violência, aos sobrinhos quando se refere à tia e assim por diante. Conforme a coordenação do serviço, de janeiro a meados de outubro de 2019, 63 mulheres e 61 crianças e adolescentes foram abrigados. É o caso de Ana, que levou as gêmeas de um ano e dois meses, frutos do mais recente relacionamento em que foi vítima de violência. Mãe também de um menino de quatro ano e de uma jovem de 18 anos, ela não pode se encontrar com ninguém na casa. 

Fonte: Coordenadoria da Mulher e CRM

O sigilo a respeito da localização é uma das bases do trabalho, para evitar qualquer possibilidade dos agressores descobrirem onde as vítimas deles estão. As ligações são todas realizadas de dentro da Viva Rachel para familiares a partir de números restritos e as conversas ocorrem no viva-voz. Mesmo quando precisam ir ao médico, as mulheres são acompanhadas por guardas municipais e por um educador social do serviço. Crianças em idade escolar têm os conteúdos repassados para a coordenação da casa. O cuidado é para manter seguras mulheres que correm risco de vida. 

— Eu tenho medo, sim, das ameaças dele, tanto que eu não quis voltar para a minha casa. Eu teria direito de retornar, mas eu não quero, porque eu sei que lá não vou ter paz, eu sei que ele vai ficar me incomodando, e vai saber se vai fazer algo pior. Eu não me sinto segura lá — conta Ana.

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O medo também levou a mulher a se afastar do filho. O menino foi o primeiro a sofrer com a violência do padrasto e está sob os cuidados de uma madrinha. Outra característica da história dela que se repete em muitas outras é que o companheiro tenta impor o afastamento da família e amigos, como explica uma psicóloga que trabalhou por cinco anos na Viva Rachel. Ela não será identificada, para preservar as mulheres que residem lá.

— Quase é um padrão de comportamento nestes relacionamentos. A primeira coisa que este homem, que este agressor, que é o companheiro destas mulheres, faz é afastá-las de todos os tipos de vínculo, principalmente a questão familiar. Obviamente a família enxerga alguns movimentos de submissão, de anulação, e muitas vezes a família interfere, então a primeira coisa que eles fazem é afastar deste convívio com os pais, com os irmãos.

Embora descreva o marido como um homem obcecado por isolá-la, Ana conseguiu pedir ajuda a uma amiga que avisou a família dela após a última agressão em meados de outubro. O irmão da vítima acionou a polícia que a buscou em casa dois dias após ela apanhar do companheiro. Depois disso, a decisão foi seguir para o serviço de apoio. 

Mantida pela Fundação de Assistência Social, a Viva Rachel tem capacidade para manter 15 pessoas ao mesmo tempo. Após o registro da violência na Polícia Civil, as mulheres podem optar pelo abrigo na casa. Com o apoio dos órgãos de segurança, elas têm a possibilidade de buscar os filhos e objetos em casa antes de serem conduzidas para o local sigiloso.

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O refúgio pode ser também oportunidade de recomeçar. A equipe, que conta com psicóloga e assistente social, ajuda a montar um planejamento para o momento do retorno à vida fora da casa. Além do apoio psicológico e da garantia da integridade física, as mulheres também recebem auxílio para encaminhamento de currículos e, para aquelas que têm filhos, busca de vagas na educação infantil, por exemplo.

— Quem de nós não gostaria de ter um local em que uma equipe toda está voltada para o teu bem-estar? A gente tem aqui alimentação, elas ajudam em algumas atividades, são responsáveis pelos seus filhos, cuidam deles, mas a gente dá um suporte, a gente orienta. Situações que talvez no dia a dia são uma preocupação, como comer, dormir, local para ficar, elas não têm (a preocupação) aqui. Então isso é um alívio para poder pensar o que vai ser da tua vida daí pra frente — comenta a coordenadora da Viva Rachel, Maureen Kahler Bagattini.

Estar em grupo com quem vive uma situação semelhante também fortalece e dá esperança, como relata a psicóloga:

— Isso alivia bastante. A temática é a mesma, quase que uma receita. Acaba que elas se identificam muito e se ajudam. Até nos momentos não formais, na hora da TV ou da janta, elas compartilham histórias... Algumas se auxiliam até fora da casa, passam a morar juntas e ajudam a conseguir trabalho para a outra. 

O período de afastamento é fundamental até para a sobrevivência de parte dessas mulheres. Mas, apesar do funcionamento há duas décadas, a diretora de Proteção Social Especial de Alta Complexidade da FAS, Eler Sandra de Oliveira, afirma que ainda é comum que muitas mulheres não saibam da existência dele:

— É importante que elas saibam que tem um lugar para onde podem ir com os filhos delas — ressalta.

Segundo a diretora, o tempo médio de permanência na casa é de cerca de um mês. O tempo máximo pode chegar a três meses, levando em conta as individualidades de cada caso.

Vida fora da Viva Rachel

Depois que saem, as mulheres podem contar com apoio na rede de atendimento. É o chamado desacolhimento e consiste na elaboração de um plano de acompanhamento individual, pela equipe de especialistas da Viva Rachel e do CRM, em conjunto com a usuária. Assim são definidos os próximos passos e a frequência de atendimentos individuais ou em grupos de que a mulher deve participar. Nos encontros, há orientação e apoio psicossocial. Em situações onde ela opta por mudar de cidade ou voltar ao seu município de origem, o CRM articula com a cidade em questão para que a usuária receba o suporte e acompanhamento necessários por meio dos serviços existentes.

COM QUEM FALAR

Coordenadoria da Mulher: (54) 3218-6026
Centro de Referência para a Mulher: (54) 3218-6112
Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM): (54) 3220-9280
Patrulha Maria da Penha: (54) 98423-2154
Central de Atendimento à Mulher: telefone 180

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