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Epidemia esquecida 1/2 10/10/2019 | 06h00Atualizada em 10/10/2019 | 06h00

Última mobilização organizada contra o crack em Caxias do Sul ocorreu há quatro anos

Comitê foi desfeito em 2015 com os primeiros sinais da derrocada de programa federal

Última mobilização organizada contra o crack em Caxias do Sul ocorreu há quatro anos Porthus Junior / Agência RBS/Agência RBS
Ônibus de videomonitoramento repassado pelo governo federal não foi usado para a finalidade proposta Foto: Porthus Junior / Agência RBS / Agência RBS

A mobilização contra o  crack em Caxias do Sul deu o último suspiro em 2015. O comitê local do programa federal Crack é Possível Vencer encerrou as atividades e o enfrentamento deixou de ter uma referência em Caxias do Sul. Hoje, a prevenção está pulverizada e o tratamento mais profissionalizado. Mas falta unidade e coesão, fato acirrado com a mudança de entendimento sobre a questão no governo de Jair Bolsonaro. Agora, uma das apostas é fortalecer as comunidades terapêuticas e promover a internação forçada de usuários de drogas, o vem gerando controvérsias.

Muito do desânimo tem a ver com a derrocada do programa federal criado em 2011 na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff e do qual nunca mais se ouviu falar. Houve promessa de recursos e equipamentos para que Estados e municípios tivessem condições de amenizar a difusão da droga. O governo de Dilma não cumpriu todas as promessas. 

Em Caxias do Sul, há um exemplo forte dessa brecha. Em 2014, a Guarda Municipal de Caxias ganhou do Ministério da Justiça um ônibus de videomonitoramento, que seria estacionado em áreas sensíveis para o tráfico e consumo. O veículo serviria de base para ações de segurança e haveria parceria da saúde e assistência social no acolhimento de usuários de crack. O pacote completo para o município incluía ainda 20 câmeras de monitoramento, que nunca vieram. Desde sempre, o ônibus jamais foi usado para a finalidade proposta. O veículo é deslocado apenas para ações ocasionais da Guarda, caso da Feira do Livro.

— Consultamos o Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública) para usar o ônibus em outros tipos de trabalho e foi autorizado. Tem cidades em que esse ônibus está abandonado — conta Juliana Marcon, então coordenadora do comitê local do Crack é Possível Vencer e ex-presidente do Conselho Municipal de Políticas Públicas sobre Drogas (Compod). 

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O fim do comitê é parte de uma fragilidade que começou anos antes. O extinto Conselho Municipal de Entorpecentes (Comen), criado em 2000 para discutir as políticas contra dependência química, interrompeu a atuação em 2014 por falta de voluntários. A eleição de um novo presidente já deveria ter ocorrido em 2013 e a solução foi viabilizar um grupo de transição para a formação do atual Compod. 

Lançado em 2016, imaginava-se que o novo formato injetaria um novo gás em Caxias do Sul, mas o conselho enfrentou constrangimento no ano seguinte a sua criação. Por falta de adesão, suspendeu uma caminhada pelas ruas centrais e optou por um ato mais discreto na Praça Dante Alighieri. Mesmo com 24 membros titulares e respectivos suplentes, a atividade de percorrer a área central agregou cerca de 15 pessoas. 

— As pessoas iam uma vez na reunião (no Compod) e não voltavam mais. Tem entidades que sequer apareceriam. É uma polêmica, pois cada instituição acredita na sua forma de trabalho e ninguém quer abrir mão — desabafa a ex-presidente do Compod, Juliana Marcon, que deixou o cargo no final de 2017.

"Discordo de que há descaso"

Aparentemente, o Compod ainda não conseguiu assumir um papel de protagonista diante da banalização das drogas. O atual presidente do conselho, Antônio Medeiros, não crê em desmobilização. Para ele, todos os conselheiros são atuantes. Ele cita a Semana de Prevenção ao Uso de Drogas deste ano, com palestra em escolas e capacitação de professores em um seminário no plenarinho da Câmara de Vereadores, em junho. 

— Em um primeiro momento, nós capacitamos todos os conselheiros. Agora, atuamos na prevenção — reforça Medeiros.

O presidente do Compod reforça que há muitos grupos reunidos para tratamento e prevenção. 

—  Eu discordo de que há descaso. O que nós vemos em nossa cidade são os ditos "zumbis". Dá a impressão de descaso e não é, são algumas pessoas que escolheram viver assim. Infelizmente, não querem recuperação, dizem que não é o momento, apesar de a gente conversar, oferecer ajuda. Quem quer ajuda, está nas comunidades terapêuticas, sem falar nos hospitais, nos Caps. 

O esforço dos voluntários obviamente é válido, mas o conselho não tem recursos financeiros para ir muito além. O atendimento na sala do Compod, na Casa da Cidadania, é realizado em dias alternados pelo próprio presidente. Não há sequer um estagiário para dar apoio.

Embora uma lei determine o repasse e a captação de recursos para o Fundo Municipal de Políticas sobre Drogas, em 2017 o Compod pediu ajuda da Justiça para obter verbas pecuniárias e trazer um palestrante para a cidade. 

Medeiros, que assumiu o cargo em 2018, garante que o fundo está disponível, mas até o momento não foi necessário acessá-lo. Para ele, a prefeitura tem apoiado. 

— Não houve eventos de grandes proporções para que a gente precisasse do fundo do Compod. O que hoje necessitamos e somos atendidos é quando precisamos de fiscalização, de transporte e motorista. 

Linha do tempo do avanço do crack:

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Foto: Luan Zuchi / Agência RBS

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