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Epidemia esquecida 1/308/10/2019 | 06h38Atualizada em 08/10/2019 | 07h23

Crack continua estimulando violência, mas já não desperta reações em Caxias do Sul

Oito mortes em assaltos cometidos por usuários da droga sequer motivaram debates sobre um problema escancarado nas ruas

Crack continua estimulando violência, mas já não desperta reações em Caxias do Sul Lucas Amorelli  / Agência RBS/Agência RBS
Jéssica Albino da Rosa viu companheiro ser morto a pedradas durante um assalto cometido por usuários de crack Foto: Lucas Amorelli / Agência RBS / Agência RBS

Não dá para demonizar usuários de crack e afirmar que a violência e a insegurança é estimulada somente por eles, mas impossível negar que Caxias do Sul sofre muito mais violência sob a influência da droga feita dos restos de cocaína e produtos químicos. O assombroso é que quase ninguém mais dá atenção ao que um dia já foi classificado como uma epidemia.

Até esta quinta-feira (10) uma série de reportagens propõe uma reflexão sobre o terrível crack dos anos 1990 e 2000, mas que hoje já não parece não tão temido assim em Caxias do Sul. Nesta primeira primeira parte, três mulheres que perderam filho e companheiros de forma violenta por causa da droga apelam para que Caxias do Sul acorde e não vire as costas para essa chaga. 

Antes escondida nos becos e casas abandonadas, o crack reina a céu aberto e adaptado à paisagem. A impressão é de que não há mais riscos, um trágico engano. Fatos tristes reforçam a indiferença coletiva. 

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No intervalo de apenas seis meses, Eliane Paula Mazzochini, 45 anos, foi assassinada no caminho do trabalho. Luis Francisco Siqueira Borges, 62, morreu esfaqueado dentro de casa. Maicon Roberto Contenda da Silva, 29, e Darci Alves de Brito, 68, tombaram a pedradas e tiros. Volmir Roque Luz dos Santos, 24, permanecia até segunda-feira (7) em estado grave após levar um tiro na testa. Todos foram vítimas de assaltos cometidos por viciados em crack, que estão presos. 

Considerando anos anteriores, a violência relacionada ao crack é ainda mais visível. Dos 19 latrocínios registrados deste 2017 em Caxias do Sul, oito foram cometidos por usuários da droga em busca de dinheiro ou algum bem que rendesse algumas pedras no ponto de tráfico. 

A curva piorou a partir do ano passado, período em que os viciados passaram a figurar como os principais autores de roubos com morte — de 10 latrocínios desde então, só três não tiveram relação direta com a droga. É a cara do descontrole, mais voraz e que rebate a equivocada interpretação de que só morre o homem ou a mulher que optou pelo caminho das drogas — e são dezenas de mortes assim somente neste ano. 

As informações acima foram divulgadas diversas vezes e as vidas perdidas deveriam causar uma mobilização. Não apenas a reação da polícia, do prende e solta e da complexa guerra ao tráfico. Só que Caxias do Sul, como comunidade, não reage há tempos. Os latrocínios não motivaram protestos, cobranças ou alguma reunião de emergência para discutir o tema em Caxias. A rotina segue como se tudo fosse normal, mas não está nada bem. 

Caxias parece esgotada e nada indica que isso vá mudar. 

"Eu não me importava"

Crack no parquinho das crianças, crack nas esquinas. De tão acostumada, Jéssica Albino da Rosa, 25, via as cenas pelo bairro e ignorava os rostos encobertos por mãos e cachimbos. Na madrugada de 6 de julho, na volta de uma partida de futebol, ela e o companheiro Maicon Roberto Contenda da Silva, 29, foram confrontados por dois homens e Maicon tombou com golpes de paralelepípedos. Era o desfecho trágico de um assalto. Poderiam ser ladrões sem relação com drogas, mas eram usuários de crack conforme a polícia descobriu mais tarde. Jéssica enfrentou a dura realidade. 

— Até isso ter acontecido, eu não me importava com o crack. Via as pessoas fumando e não dava muita atenção — conta.

O casal viveu uma relação de um 1 ano e dois meses. Morava nos fundos da casa da mãe de Jéssica, no bairro São Francisco. O filho pequeno de Jéssica via Maicon como um pai. 

Na noite fatídica, o casal havia aproveitado a companhia de amigos num jogo. Na volta, o carro de Maicon estragou na Perimetral Sul. O casal que os acompanhava preferiu voltar para casa com transporte via aplicativo. Maicon e Jéssica tentaram consertar o veículo. Sem sucesso, resolveram seguir a pé. 

No início da caminhada, na Avenida Benjamin Custódio de Oliveira, entre os bairros Charqueadas e Planalto Rio Branco, surgiram dois homens. Exigiram dinheiro, Maicon negou e lutou com um dos ladrões. No meio da confusão, Maicon pediu que Jéssica corresse. Ela obedeceu, mas foi agarrada pelo cabelo e apanhou do outro criminoso. Maicon livrou-se do assaltante e tentou ajudar a companheira. O ladrão com quem havia lutado pegou um paralelepípedo e arremessou contra a cabeça de Maicon. Um golpe e a queda. O bandido não sossegou. Com a mesma pedra, continuou batendo em Maicon. A dupla pegou R$ 500 da vítima e fugiu. 

— Estavam bem agressivos, fora de si. Foi terrível. O Maicon já caiu sem reação na primeira pedrada — relembra a jovem.

A prisão dos criminosos não trouxe um mínimo de alívio para Jéssica. Ela se sente vulnerável e muitas saudades de Maicon. Voltou a morar na casa da mãe porque qualquer canto lhe trazia lembrança. Também recordou da vez em que perdeu o primo Dionatan Albino da Rosa, 13, torturado e assassinado em 2007.

— Tu vê gente fumando pedra no parquinho, onde tem criança. Me dá uma raiva. Antes, não tinha esse olhar. Quem tem autoridade poderia agir diferente. Hoje, tratam como se fosse normal, assim como eu achava que era, mas não é.

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