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Caso Naiara 21/03/2019 | 09h00Atualizada em 21/03/2019 | 10h47

"Parece que a vida está normal, mas não está", diz presidente de bairro um ano depois da morte de Naiara em Caxias

Acontecimento com menina não mudou a rotina das crianças 

"Parece que a vida está normal, mas não está", diz presidente de bairro um ano depois da morte de Naiara em Caxias Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Acontecimento com menina não mudou a rotina das crianças Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Na manhã de segunda-feira, entre 7h e 7h30min, a reportagem encontrou estudantes em duplas, em turmas ou acompanhados pelos pais no caminho que Naiara fazia diariamente entre os bairros Monte Carmelo, Esplanada e São Caetano. A parceria de caminhada era mais visível entre o Esplanada e o Monte Carmelo, mas no São Caetano, bairro onde fica a Escola Renato João Cesa, frequentada por Naiara, foi possível ver crianças desacompanhadas. 

Dá para afirmar que a solidariedade entre vizinhos ou pais de colegas para acompanhar a meninada é quase inexistente em um horário de comércio fechado, pouco movimento de pedestres, mas com trânsito intenso de veículos. 

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O comerciante Mario Berzan, dono do mercado que cedeu gravações de câmeras de segurança que mostravam os últimos momentos de Naiara com vida na Rua Júlio Calegari, percebeu mudança de comportamento.

— O caso da Naiara foi chocante.Antes de ter acontecido isso, via muitas crianças caminhando sozinhas aqui pela frente. Sinceramente, hoje não vejo mais — constata Berzan.

Dos pedestres que a reportagem encontrou na manhã de segunda-feira, todos conhecem a história de Naiara, caso de um adolescente de 15 anos. O rapaz passa diariamente na rua da casa onde morava a menina, no Monte Carmelo e percorre parte do caminho que a menina fazia diariamente para ir até o bairro São Caetano. O adolescente tinha a companhia de um amigo anteriormente e, neste ano, a caminhada teve a adesão de mais dois estudantes.  

_ Com a gente agora tem dois guris ali com 9 e 10 anos. É melhor ir em grupo _ conta o estudante, que percorre 1,3 quilômetro para ir até uma escola do Nossa Senhora das Graças e precisa passar por vias com sinalização de trânsito deficitária e veículos em alta velocidade.

Para levar o filho Wellington, 10, até uma escola no Nossa Senhora das Graças, Jocemara Correa, 44, passa diariamente pela Rua Eugenio Rech, via de chão e cercada por mato, Vizinha da família de Naiara, a dona de casa afirma que é comum crianças andarem sozinhas pela rua no início ou final da manhã. 

— Vejo muita criança por aí. Trago meu filho porque é uma questão de segurança —  diz Jocemara.

Monitora de uma van conduzida pelo marido, Sandra Borges viu aumentou nos pedidos por transporte escolar na Escola Renato João Cesa, mas isso não teve muita relação com o caso de Naiara.

—  Houve uma redução no transporte com a crise econômica. Na época da Naiara, dois ou três pais que haviam cancelado o transporte nos procuraram de novo. Mas agora a procura tem mais a ver com pessoas que estavam desempregadas, tiveram que cortar despesa, conseguiram emprego de novo e voltaram a nos contratar — explica Sandra.

"Parece que a vida está normal, mas não está"

Samanta Nascimento, presidente da Associação de Moradores (Amob) do Monte Carmelo, lamenta que muitas crianças ainda continuem expostas pelas ruas da comunidade. Segundo ela, boa parte das famílias não tem recurso para pagar por transporte ou estrutura para garantir o acompanhamento  por parte de algum parente até a porta da escola. Levantamento de 2018 apontou 1,5 mil crianças que saíam de casa para ir até a escola ou creche no Monte Carmelo. No mesmo ano, a liderança identificou 700 matrículas de moradores da comunidade apenas na Escola Basílio Tcacenco. 

— O caso passou e a população acabou esquecendo, as autoridades acabaram esquecendo, mas agora vem o inverno, amanhece mais tarde, anoitece mais cedo. Parece que a vida está normal, mas não está —  desabafa a líder comunitária. 

Na opinião dela, uma das prioridades na educação municipal deveria ser o transporte.

—  Até entendo que a compra de uniformes (anunciada pela prefeitura) é útil para quem não tem recurso, mas a população ficaria mais assistida se houvesse a van garantida para seus filhos. Quantos desses (referindo-se ao assassino de Naiara) estão soltos por aí? — questiona.

Samanta também lamenta a baixíssima adesão no ato em homenagem a Naiara realizado no último sábado. Somente nove pessoas participaram. A intenção, segundo ela, é avaliar uma nova mobilização.

—  Esse tipo de ato tem que ser melhor trabalhando e talvez não vamos fazer só pelo caso da Naiara, mas por outras crianças também — antecipa Samanta.

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