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Investigação11/12/2018 | 20h00Atualizada em 11/12/2018 | 20h00

Grupos de apoio dão suporte a  famílias que procuram desaparecidos

Serviços vão desde orientação jurídica até assistência psicológica 

Grupos de apoio dão suporte a  famílias que procuram desaparecidos acervo de família/Divulgação
Tábata Azevedo Marchese, 24, que desapareceu no dia 22 de julho de 2014, após fugir de uma comunidade terapêutica em São Marcos. Foto: acervo de família / Divulgação

Contar com a solidariedade do próximo pode ajudar a amenizar o sofrimento de quem está na procura por uma pessoa desaparecida  — estima-se, conforme a Polícia Civil, que 16.242 pessoas estejam sumidas no Rio Grande do Sul. Um exemplo de amparo social é o Grupo de Apoio aos Familiares de Desaparecidos de Santa Catarina (Gafad), que presta assistência gratuita a famílias de todo o país. Os serviços vão desde orientação jurídica até assistência psicológica. 

A entidade, classificada como Organização de Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), foi registrada oficialmente em 2014 mas, desde 2010, a voluntária Aldaleia Conceição, presidente da Gafad, desenvolve ações. Ela se sensibilizou com a causa após ajudar uma amiga, cujo filho estava desaparecido.

— Queremos humanizar a situação das famílias, para que elas não se sintam desamparadas. Muitas chegam até nós em desespero. Percebemos como é importante que elas sejam acolhidas por pessoas que já passaram pela mesma dor — explica Aldaleia.

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Toda a equipe da Gafad envolvida no atendimento é voluntária. Duas mães ocupam os cargos de relações humanas e são as responsáveis pelo primeiro contato com as famílias. Atualmente, o grupo atende a cerca de 100 famílias. Para receber ajuda, não é necessário a comparecer presencialmente: as orientações podem ser feitas pela página do Facebook, que conta com mais de 6,5 mil seguidores. 

— O alcance das redes sociais é muito bom. Quando a família nos solicita, colocamos a foto da pessoa desaparecida na nossa página, com a identificação de onde ocorreu e os telefones para informações. Já tivemos casos de localizar a pessoa no mesmo dia — diz. 

Outra organização com reconhecimento nacional é a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD), que surgiu como o grupo Mães da Sé de São Paulo. A iniciativa surgiu há quase 23 anos, logo após o desaparecimento da filha da fundadora, Ivanise Esperidião da Silva Santos. Inconformada com a falta de apoio na busca pela filha de 13 anos, ela decidiu ajudar outras famílias que passavam pelo mesmo drama.

— Não existe uma investigação de fato. Vivemos um luto inacabado. É uma ferida que não cicatriza. Quando você enterra o filho, vive um luto real, porque sabe que ele morreu e não vai mais voltar. Agora, quando ele desaparece, é muito pior. É muito triste — afirma Ivanise.

Inicialmente, os encontros aconteciam nas escadarias da Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Atualmente, a ABCD tem sede própria e oferece assistência gratuita a familiares de pessoas que sumiram. Mais detalhes sobre o trabalho podem ser obtidos no site maesdase.org.br.

"Minha vida parou no dia 22 de julho de 2014" 

— É muito difícil. Eu tenho comigo uma esperança que não termina. Eu procuro fortalecer minha parte espiritual para me manter firme. Eu não posso entrar em desespero. Dizem que tenho de tocar a vida, mas como vou tocar a vida se é a minha única filha? Minha vida parou no dia 22 de julho. Até me considero uma pessoa forte porque não enlouqueci por causa da situação.

O relato descreve os últimos quatro anos da aposentada Maria Isabel Fontoura de Azevedo, 58 anos. Ela procura pela filha, Tábata Azevedo Marchese, 24, que desapareceu no dia 22 de julho de 2014, após fugir de uma comunidade terapêutica em São Marcos. Desde então, familiares da jovem não tiveram informações sobre ela.

Tábata é natural de Porto Alegre e vivia com a mãe e os avós maternos no bairro Lindóia. Ela cursava Fisioterapia e tudo seguia aparentemente bem na vida dela até que a mãe começou a notar um comportamento diferente.

— A Tábata começou com umas atitudes estranhas, mas achei que era coisa de adolescente. Até que começou a me passar pela cabeça que poderia ser droga. Eu fui procurar ajuda e se descobriu que ela já estava usando drogas desde os 18 anos. Achei uma comunidade terapêutica em São Marcos e ela foi, tranquila. Íamos uma vez por mês visitá-la. Parecia que tudo ia dar certo — conta Maria Isabel.

Apesar da concordância inicial, a estada não foi como o esperado. A primeira fuga da jovem ocorreu quatro meses após ser internada. Um dia depois, ela apareceu na casa da avó, em Porto Alegre. Convencida pelos familiares, concordou em retornar para São Marcos, onde daria seguimento ao tratamento. No entanto, no dia 22 de julho de 2014, foi diferente: Tábata saiu da clínica, mas não entrou em contato com nenhum familiar. 

Foi então que começou a angústia e peregrinação da mãe. Isabel procurou a polícia, fez apelo em redes sociais, contratou um detetive particular, participou de inúmeras reportagens em jornais, mas não teve nenhuma notícia da filha. 

— Eu cheguei a ir até a cracolândia, em São Paulo, mas nunca mais soube nada — diz a mãe da jovem. 

Mesmo quatro anos depois do que considera o pior dia da sua vida, a mãe não perde a esperança de reencontrar a única filha.

— Acho que alguém está proibindo ela de entrar em contato ou ela não quer falar com a gente. Eu sinto que vai acontecer em forma de milagre. Eu me agarro a isso — acredita. 

Segundo a Polícia Civil de São Marcos, a investigação do caso de Tábata permanece aberta. Em maio deste ano, uma informação de que a jovem estaria em Vacaria não se confirmou após diligências no município.

O QUE FAZER EM CASO DE DESAPARECIMENTO

ADULTOS
:: Após tentativas de contatar a pessoa e perguntar a parentes, amigos, conhecidos e vizinhos, os familiares devem procurar a Delegacia de Polícia mais próxima para formalizar o desaparecimento. Recomenda-se levar uma foto atual da pessoa e um comprovante de residência.

:: Após registrar a ocorrência, tente rastrear os últimos passos da pessoa desaparecida, por meio das redes sociais, amigos ou pessoas que possam dar pistas sobre o paradeiro.

:: Se você possui familiares que residem em outras cidades, tente entrar em contato com eles, pois muitos desaparecidos costumam se refugiar em casas de amigos ou parentes que moram longe.

:: Converse com as últimas pessoas que tiveram contato com o desaparecido para avaliar a sua situação psicológica. 

:: Em caso de pessoas com doença mental, tente informar quantas vezes já desapareceu, onde foi encontrada, se estava recolhida em algum hospital ou casa de tratamento.

:: Faça cartazes e distribua em locais movimentados da cidade.

:: Divulgue nas redes sociais.

:: Importante: é obrigatório informar a polícia quando o desaparecido for localizado. 

IDOSOS
:: A principal razão do desparecimento de idosos é o esquecimento, devido a doenças como o Alzheimer, por exemplo. Como prevenção, mantenha sempre nome, endereço e telefone junto da roupa da pessoa. Em caso de desaparecimento, além das orientações já citadas para adultos, providencie o bloqueio do benefício ou aposentadoria que ele recebe. Apresente-se na agência bancária com o boletim de ocorrência em mãos. Desta forma, em caso de tentativa de saque, o gerente da agência bancária deverá comunicar imediatamente a polícia.

CRIANÇAS
:: Ao perceber o desaparecimento de uma criança ou adolescente, comunique imediatamente à polícia, na delegacia mais próxima do local onde a criança ou adolescente foi visto pela última vez. As primeiras horas após o desaparecimento são as mais importantes. É justamente nesse instante que se pode identificar testemunhas e obter as melhores informações que auxiliem na localização. A investigação imediata em caso de desaparecimento de crianças ou adolescentes é uma garantia legal pela Lei Federal nº 11.259/2005.

COMO A FAMÍLIA PODE AJUDAR

:: Não é necessário esperar 24 horas para registrar o boletim de ocorrência. Lembre-se de que as primeiras horas que sucedem o desaparecimento são vitais para garantir a localização e proteção do desaparecido. 

:: Depois de comunicar a polícia, o primeiro lugar onde se deve procurar uma pessoa desaparecida é próximo ao local em que supostamente ela sumiu. Pergunte a todos aqueles que se encontram pela imediações e aqueles que estão passando pela região.

:: Faça uma rápida busca nas delegacias de polícia, hospitais e pronto-socorros.

:: Mantenha alguém no local onde a criança foi vista pela última vez, pois ela poderá retornar ao local.

:: Avise amigos e parentes o mais rápido possível, principalmente os de endereço conhecido da criança, para onde ela possa se dirigir.

:: Percorra os locais de preferência da criança.

:: Tenha sempre uma foto da criança atualizada. 

:: Memorize a vestimenta da criança e outros detalhes para melhor descrevê-la quando precisar.

:: Dica: faça a carteira de identidade da criança o mais cedo possível. Mantenha sempre uma foto 3x4 atualizada a cada ano. 

COMO A POLÍCIA TRABALHA EM CASO DE DESAPARECIMENTO

:: O primeiro procedimento da polícia após receber o registro é fazer uma busca em hospitais e no Instituto Médico Legal. O objetivo é localizar pessoas que possam ter dado entrada nesses lugares sem consciência, vítimas de algum acidente ou mesmo mortas.

:: Persistindo o desaparecimento, a polícia abrir um inquérito policial para investigação. Havendo suspeita de sequestro ou rapto, poderá solicitar a quebra do sigilo telefônico ou de meios tecnológicos. Providencia o bloqueio do RG do desaparecido e faz constar no INFOSEG a tarja desaparecido.

:: De acordo com o artigo 208 do Estatuto da Criança e do Adolescente, os órgãos de investigação deverão também comunicar os Departamentos de Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, bem como portos, aeroportos, rodoviária e empresas de transporte interestadual e internacionais, para evitar o deslocamento da criança ou adolescente para fora do estado e do país.

fonte: Associação Desaparecidos do Brasil

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