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Raízes da violência08/12/2018 | 09h00Atualizada em 08/12/2018 | 12h09

Ativismo pelo fim da violência contra as mulheres só ganhou força nos anos 1980 em Caxias

Visibilidade foi possível com a abertura política no final do regime militar

Ativismo pelo fim da violência contra as mulheres só ganhou força nos anos 1980 em Caxias Juan Barbosa/Agencia RBS
Movimentos despertaram contra a violência que afligia as mulheres na década de 1980. Desde então, ativistas precisam sair às ruas para exigir direitos básicos, caso do protesto ocorrido em 2008 (foto) Foto: Juan Barbosa / Agencia RBS

Quando o tema é feminícidio, muitos faziam e ainda fazem a leitura de que a mulher sempre apresentou um comportamento que forçou o ato fatal do companheiro. Em março de 1951, o Pioneiro trazia a reportagem sobre um homem que degolara a ex-mulher, de 30 anos, na casa onde ela trabalhava como doméstica no centro de Caxias do Sul. 

A reportagem frisava a opinião dividida da população, que sequer sabia dos detalhes da relação do casal, e resumia os comentários de boteco como uma frase: "Fez muito bem. Pisou fora do laço, ferro nela". À polícia, o assassino de 56 anos afirmou sentir-se ridicularizado, diminuído e desprestigiado pela separação.

Se mães e namoradas eram mortas e agredidas pelos companheiros pelo sentimento de posse e banalidade, como impedir que as novas gerações não assimilassem a intolerância como normal?. 

Luiza Iotti diz que a onda de crimes causou preocupação em setores da sociedade e uma campanha nacional do Conselho Brasileiro de Hygiene Social começou a questionar, a partir de 1925, a tolerância da Justiça aos autores de feminicídios. Outros movimentos surgiram nas décadas posteriores. Mas não há clareza se isso teve reflexos em Caxias, uma vez que esse tipo de violência só passou a ser percebida mais claramente por meio de estatísticas da polícia no final dos anos 1980. Há outro detalhe fundamental: o Poder Judiciário e a polícia eram órgãos comandados apenas por homens e não havia um serviço de amparo às vítimas. Portanto, os feminicídios não eram considerados como uma forma diferente de violência.

Os serviços públicos para mulher agredida e ameaçada em Caxias não foram implantados de forma fácil e são parte de lutas recentes. As novas gerações provavelmente desconhecem a árdua jornada das mães e avós para que a cidade contasse com uma delegacia especializada e uma casa de acolhimento.

Nas lembranças de Lourdes Zabot Elias, presidente da União Brasileira de Mulheres - unidade Caxias do Sul, o movimento feminista ganhou força na cidade somente nos anos 1980 com a abertura política nos estágios finais do regime militar. No período, havia uma onda de feminicídios no país e o protesto tinha representação por meio da pichação Quem ama não mata, uma evidente crítica à tese equivocada de que homens tiravam a vida das esposas e namoradas em nome do amor.

— Nos anos 1980, fazíamos passeatas, havia movimentos aqui e ali. Mas não havia uma referência para registro de ocorrências e as mulheres precisavam recorrer ao plantão da polícia. A grande queixa antigamente era o atendimento prestado por um policial homem, que fazia questionamentos desse tipo: o que tu fez para apanhar? o que tu aprontou? — relembra Lourdes, também titular da Coordenadoria Municipal de Direitos da Mulher (Comdim).

A ativista considera a Constituição de 1988 como um marco que deu voz às mulheres. No mesmo ano, Caxias do Sul inaugurou a primeira Delegacia da Mulher (DM), após muita pressão da comunidade. No começo, havia agentes homens para receber mulheres.  

— Daí tivemos que lutar por um atendimento feito apenas por mulheres. São conquistas que só avançaram com a democracia — pondera Lourdes.

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Números só passaram ser considerados nos anos 1980

A Delegacia da Mulher se mostrou muito útil na cidade e começou a expor a intolerância em números. Nos primeiros quatro meses de 1989, a equipe já havia recebido 238 ocorrências de lesão corporal, 200 de ameaças e 21 casos de estupro para investigar. Em 1989, foram empossadas as primeiras integrantes do Conselho Municipal da Mulher na gestão do prefeito Victorio Trez. Havia, portanto, reforço para reverter as  desigualdades e a violência de gênero.

— Se ainda hoje há preconceito, naquela época era ainda mais intenso.  Dessa forma,  a delegacia da Mulher foi uma importante conquista. Mas logo percebeu-se outro problema: após denunciar o agressor de violência doméstica, que geralmente é marido, companheiro ou familiar, algumas não  tinham lugar seguro para ficar e acabavam tendo que voltar para casa, às vezes sofrendo mais agressões e ameaças — conta Thaís Bampi, psicóloga e gerente do Centro de Referência da Mulher.

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Caxias do Sul ganhou uma delegacia especializada para investigar crimes contra as mulheres em 1988Foto: Reprodução / Jornal Pioneiro - 29/04/1988

Em 1999, o município instituiu a Coordenadoria da Mulher e a Casa de Apoio Viva Rachel. A casa acolhe provisoriamente mulheres e seus filhos ameaçadas de morte num endereço sigiloso. Como uma demanda leva à outra, em 2005, foi instituído o Centro de Referência para prestar orientação e atendimento às vítimas. No ano seguinte, surgia a Lei Maria da Penha, o movimento mais impactante no combate à violência no Brasil por estimular denúncias e padronizar atendimentos.

Apesar das mudanças nos últimos 30 anos, a violência persiste sem perspectivas de reduzir. Nos últimos seis anos, 34 mulheres foram assassinadas em razão do gênero e outras centenas são agredidas e ameaçadas todos os anos em Caxias, números não muito diferentes de décadas passadas.

— Vai demorar para mudar enquanto a família seguir com a educação formal tradicional, ligada a estereótipos com padrões em que é difícil uma mãe pedir ao filho que vá arrumar a cama, lavar a louça e essas tarefas são deixadas para a filha. Caxias tem essa tradição que vem de tempos, do machismo, de um conservadorismo muito forte. Basta ver quantas mulheres ocupam cargos de destaque na cidade. A violência continua com a mesma raiz, do cara com poder econômico, que se acha o dono da razão — conclui Luiza Iotti.

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