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Raízes da violência24/11/2018 | 09h30Atualizada em 24/11/2018 | 09h30

Enquanto criminalidade crescia em Caxias, polícia dependia da carona das próprias vítimas

Eram comum instituições não terem nem mesmo gasolina para as viaturas

Enquanto criminalidade crescia em Caxias, polícia dependia da carona das próprias vítimas Reprodução/Livro A Segurança Pública em Caxias do Sul
Em 1967, cidade ganhou uma companhia da Brigada Militar. Na foto, sede na Rua Visconde de Pelotas Foto: Reprodução / Livro A Segurança Pública em Caxias do Sul

Se a criminalidade mudou de face entre os anos 1960 e 1970 em Caxias do Sul, a polícia carregava o estigma da falta de efetivo e recursos das décadas anteriores. No livro A Segurança Pública em Caxias do Sul, de Manoelito Savaris, Niver Bragnini, Terezinha Boeira e Aparecida de Queiroz Burdin, é possível perceber que nos anos 1940 todo o aparato de policiamento da cidade funcionava numa único endereço: Rua Coronel Flores, esquina com a Rua Sinimbu. Com o passar do tempo, a Polícia Civil, a Brigada Militar, os bombeiros e a cadeia foram separados e levados para locais diferentes. 

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A BM, que tinha um destacamento na cidade, só começou a desempenhar um papel mais expressivo na segurança em meados dos anos 1950. Até então, era o município quem ficava responsável por meio da Guarda. Naquela década, as lideranças locais imploravam pelo envio de mais policiais, sempre insuficiente para atender uma cidade em crescimento e com muitos assaltos. 

Os servidores da segurança também sofriam com constantes atrasos de salários. Conforme Savaris, Bragnini, Boeira e Burdin, a mudança ocorreu a partir de 1963, com a instituição do modelo Pedro e Paulo, que consistia em dois PMs com capacete e coturno percorrendo a pé as principais ruas. Três anos antes, havia sido inaugurado a nova cadeia de Caxias, lugar onde hoje é o Presídio Regional, na BR-116.

 Em 1967, Caxias ganhou a 2ª Companhia da BM e no ano seguinte contava com um efetivo de pouco menos de 100 homens. Nos anos 1970, a situação pouco mudou e a corporação sofria com viaturas antigas e ultrapassadas para o avanço da bandidagem.

Na Polícia Civil, não era diferente. O comissário aposentado da Polícia Civil Gilberto Corá lembra que faltava até mesmo gasolina para os veículos oficiais. Na época, as investigações eram realizadas na base da unha:

— Se houvesse um assalto em Caxias, o delegado dava soco na mesa e nos mandava para a rua: vocês são polícia ou são merda? E a gente fazia, acontecia e tinha que descobrir. Ia ali aqui, ouvia informante, ia a pé pelo bairro. Era assim que funcionava. A vítima participava junto, levando a gente de carona, pois não tínhamos como nos deslocar. O armamento era revólver velho apreendido.

Com os parcos investimentos, a polícia já naquela época tinha a ingrata tarefa de "enxugar o gelo da violência".

— No passado, os criminosos tinham medo da polícia porque decorria de um tipo de respeito e funcionava. Até os anos 1960, com o Pedro e Paulo nas ruas, a polícia era respeitada. A partir daí, passou a ser temida. Hoje, não é temida nem respeitada — conclui o historiador e policiail militar aposentado Manoelito Savaris. 

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