Disputa por terra motivou rixas mortais entre famílias durante a formação da zona rural de Caxias - Geral - Pioneiro

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Raízes da violência10/11/2018 | 10h00Atualizada em 10/11/2018 | 10h12

Disputa por terra motivou rixas mortais entre famílias durante a formação da zona rural de Caxias

Invasões e medições mal feitas de lotes provocaram assassinatos e agressões

Disputa por terra motivou rixas mortais entre famílias durante a formação da zona rural de Caxias Reprodução/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami
Antigos registros da polícia trazem informações interessantes sobre a violência em Caxias pós-revolução de 1894 Foto: Reprodução / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Na virada do século 20, Caxias do Sul se desenvolvia rapidamente e já contava com uma primeira entidade de classe, a Associação dos Comerciantes, que revendia a produção agrícola. Se na sede da vila, a autoridade policial precisava investigar e intervir em desacordos entre empreendedores, furtos e brigas influenciadas por questões políticas ou brigas comuns, na área rural, era a disputa por terra que roubava vidas. Foi quando a cobertura da imprensa voltou-se para a intolerância envolvendo patrimônio. 

Para os imigrantes, ser dono de um lote era questão de sobrevivência, era a garantia da perpetuação familiar. Para desgosto alheio, sempre havia alguém que invadia o pedaço de terra do vizinho com palanques e cercas ou alguém incomodado por ter a terra como passagem para outras casas. Era o reflexo da reforma agrária do império, que trouxe centenas de imigrantes à Serra, não cumpriu muitas promessas e estimulou desavenças sangrentas entre famílias. 

— Se for olhar nos arquivos, a maior parte dos processos judiciais de antigamente envolviam a posse por terra — destaca o escritor José Clemente Pozenato.

Parte das rixas decorriam de demarcações mal feitas pelo poder público, o que gerava dúvidas onde terminava uma propriedade e começava outra. Logo, os desentendimentos eram resolvidos a tiros, espancamentos e facadas. Em outubro de 1902, época em que a uva já era o carro-chefe da economia da cidade, o assassinato de um agricultor na 6ª Légua (entre o Cruzeiro e São Luiz) provocou consternação. Segundo a reportagem do jornal O Cosmopolita, na tentativa de proteger o pai de um vizinho, um jovem colono levou um tiro de espingarda no pescoço e morreu horas depois, deixando uma filha de um ano e esposa. O autor do crime fugiu, mas seria condenado a seis anos de prisão posteriormente. 

Em maio de 1903, O Cosmopolita trazia outra reportagem sobre um colono baleado na perna em Galópolis. O agricultor acusava duas famílias com quem tinha rixa. "Em breve, temos certeza, teremos ocasião de noticiar outras desgraças", profetizava a publicação. Em maio do mesmo ano, o mesmo jornal contava a história de uma idosa de 73 anos assassinada dentro de casa na Terceira Légua, mas a motivação não estava esclarecida. Conforme as ocorrências do livro de registros da polícia, esse tipo de confronto continuou durante anos. 

Em novembro de 1917, na zona leste (atualmente bairro Cruzeiro), um agricultor foi morto a facadas após ter colocado fogo numa moita em lote que pertencia a outro proprietário.  Os conflitos só diminuiriam com as definições de processos, mortes dos desafetos e uma melhor organização dos lotes.

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Amenizando problemas

Os relatórios oficiais do município sobre a violência e a criminalidade em Caxias do Sul de 100, 120 anos atrás soam contraditórios. Diretores e intendentes gostavam de afirmar que a vila era ordeira e pacífica, talvez para mostrar aos superiores e conselheiros que tudo transcorria bem no povoado. Difícil é saber até que ponto as informações eram verdadeiras.

Se no início da colonização, ocorreram revoltas e conflitos mortais entre autoridades e colonos por questões administrativas ou políticas, os motivos que impulsionavam homicídios e brigas foram mudando com o crescimento da vila. Jornais que começaram a circular nos últimos anos do século 19 traziam notícias de homicídios e julgamentos de crimes variados. 

O Caxiense, primeiro jornal da cidade e defensor dos interesses republicanos, destacava um fato policial já na segunda edição de 6 de novembro de 1897: a polícia havia aberto investigação sobre uma bomba de dinamite jogada propositalmente na casa do chefe da Comissão de Terras na localidade de Alfredo Chaves, hoje território de Flores da Cunha. A comissão era responsável pela demarcação dos lotes vendidos aos imigrantes e as negociações nem sempre eram satisfatórias para os colonos. Naturalmente, isso evoluía para confrontos.

Na edição seguinte, de 13 de novembro, uma das notícias retratava um violento conflito que deixou dois "polacos" feridos a tiros numa casa de negócios na região de Forqueta em novembro de 1897. Os autores do crime, dois imigrantes italianos, haviam sido presos. 

— A embriaguez também tornou-se um problema. Vários imigrantes tiveram problemas pelo uso da cachaça, algo novo na vida deles. Vários desses crimes antigos acusavam o consumo de bebida. Estavam no momento de lazer, jogando carta, a mora e bebendo. Daqui a pouco, havia desentendimento e a discussão acabava em morte — diz a historiadora Terciane Luchese.

A violência, porém, não tinha tanto destaque nos documentos oficiais, indicativo de que o discurso desconsiderava assassinatos como um problema a ser combatido. Em 1918, Pena de Moraes frisava aos conselheiros municipais que as ocorrências na cidade não eram expressivas e, se aconteciam, eram devido ao excesso de patriotismo em muitos casos.

Embora resumidos, os poucos livros de registros da polícia  guardados no Arquivo Histórico trazem informações interessantes. Entre 1915 e 1917, por exemplo, constam diversos casos de agressão, tentativas de homicídios e estupros, além de sete assassinatos. A simbólica surra de relho aparecia com frequência e, por ter caráter humilhante, gerava inquérito policial. 

 
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