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Raízes da violência24/11/2018 | 08h00Atualizada em 24/11/2018 | 08h00

Como dois amigos envolvidos em assaltos dominaram o imaginário popular nos anos 1970

João Maria e Chupa-Bico lideravam grupos que atemorizavam a população

Como dois amigos envolvidos em assaltos dominaram o imaginário popular nos anos 1970 Reprodução/Jornal Pioneiro
Morte de Chupa-Bico atraiu muitos curiosos em março de 1977 Foto: Reprodução / Jornal Pioneiro

Três anos antes de "o jardim da infância do sindicato do crime" ser descoberto num esconderijo improvisado uma antiga torre da Catedral Diocesana, em Caxias do Sul, nasceu João Maria, em 1952. Do outro lado da cidade, outro guri de três anos dava os primeiros passos em casa e mais tarde seria conhecido pelo apelido de Chupa-Bico. 

Filhos de famílias imigrantes extremamente pobres, João Maria e Chupa-Bico não tinham grandes perspectivas. Moravam em comunidades diferentes, mas se tornaram amigos na infância e viraram assaltantes na adolescência. Ninguém sabe exatamente quando a dupla decidiu empunhar armas, mas eles seriam conhecidos como líderes das primeiras quadrilhas de assaltantes de Caxias do Sul no final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

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De repente, os furtos da turma do "jardim da infância" se tornaram ingênuos se comparados ao que os moradores de Caxias do Sul testemunharam a partir da primeira metade dos anos 1960, quando os militares já comandavam o país.  Enquanto o governo se preocupava em combater os subversivos contrários ao regime, a insegurança crescia diante de uma polícia com recursos escassos. Chupa-Bico e João Maria não eram os únicos responsáveis pela alta da criminalidade, mas contribuíram para o imaginário da população.

A primeira ficha de João Maria remonta a 1969, quando ele tinha apenas 14 anos. Num daqueles erros do passado, o adolescente foi trancafiado no presídio ao lado de criminosos experientes. Antes de completar 18 anos, já era acusado de seis assassinatos. Em entrevistas posteriores ao jornalista Paulo Cancian, João Maria havia dito que nem todos os homicídios eram de sua autoria, pois teria assumido os crimes para livrar companheiros da cadeia, uma vez que menores de 18 anos escapavam impunes. 

— Nem tudo era culpa deles, mas depois que a notícia era espalhada, ficava assim — relembra Gilberto Corá, comissário de polícia aposentado que trabalhou em Caxias do Sul de 1970 até o início dos anos 2000.

Chupa-Bico, por sua vez,  crescera na comunidade da Antena, no complexo do Jardelino Ramos, o Burgo. O advogado Flávio Roth, 72, vizinho de Chupa-bico, conta que o rapaz foi criado pela mãe e frequentava a escola. Enquanto boa parte dos jovens optou pelo trabalho, Chupa-bico escolheu os assaltos. O terreno era fértil para o crime na virada dos anos 1960. Caxias aproveitava a onda do milagre econômico brasileiro, gerava muito emprego e o dinheiro circulava em abundância no comércio, nos bolsos. Em 1970, a cidade já tinha mais de 140 mil habitantes e a conduta de alguns jovens havia se desviado para o crime.

— Da metade dos anos 1960 até o final dos anos 1970, Caxias trouxe muita gente de fora, as empresas daqui encostavam um ônibus lá em outra cidade para carregar mão de obra. Onde houvesse gente desempregada, os empresários iam. Evidentemente que as famílias iam atrás. Daí foram surgindo esses bolsões habitacionais em volta de Caxias sem estrutura, sem condições, um sistema educacional que não acompanhou esse processo e nenhum cuidado com os filhos das famílias — relata o historiador e policial militar aposentado Manoelito Savaris.

Estimulada pela histórias retratadas na imprensa, a população aguçou a curiosidade e a quadrilha ganhou fama e muitos crimes na ficha. Os relatos de que alguém havia sido assaltado pela dupla e comparsas se proliferavam. 

— No começo, o Chupa-Bico ainda era adolescente e a Comai acompanhava ele, pois ele foi encaminhado para o serviço pelo envolvimento em crime. Eles eram de um grupinho, com iniciativas individuais, não haviam organização por trás. Chupa-Bico era tão conhecido que uma vez no recreio da escola passou um pequeno avião sobre a escola (no São Vicente) e um menino disse: professor, olha o Chupa-Bico lá em cima — conta o professor Aldo Migot, integrante da Comai.

Se a dupla parecia se dar bem empunhando armas, logo outros trataram de imitá-los. Novos ladrões mostravam a cara e apelidos como Topo-Gigio, Charuto, Campolim povoavam as ocorrências e as páginas dos jornais. Anos mais tarde, alguns desses jovens seriam protagonistas de um estágio de violência ainda mais letal.

Entre 1969 e 1975, João Maria e Chupa-Bico se envolveram em confrontos com a polícia e inúmeros assaltos e até mesmo fugas do presídio. Contudo, se comparados aos integrantes dos grupos criminosos atuais, eram personagens quase cartunescos. 

—  Perto do que é hoje, eles seriam amadores — compara Corá

Ao completar 18 anos e ser liberado da cadeia pelo falecido juiz Marino Kury, João Maria havia prometido se regenerar, mas seguiu a rotina de crimes e entradas e saídas da cadeia. 

— O João Maria era um sujeito bem apessoado. Quando eu passava por ele na delegacia, dizia para ele ir trabalhar, largar daquela vida. Ele sempre afirmava que era o último assalto, mas não mudava — conta o fotógrafo aposentado Vasco Rech, 82.

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A derrocada

Em setembro de 1975, 10 detentos escaparam do presídio pela porta dos fundos. Na fuga, um dos presos morreu em confronto com a Brigada Militar e seis foram presos. Três tiveram mais sorte e se juntaram a João Maria, que estava em liberdade. O grupo partiu para Santa Catarina e uniu-se a um quinto assaltante. Lá, cometeram mais de 10 assaltos, mataram um comerciante e feriram uma criança a tiros. Um dos comparsas de roubos se desentendeu com o grupo e foi executado pelos companheiros.

João Maria dos Santos foi um dos primeiros líderes de quadrilha de assaltantes em Caxias do Sul. Morreu em 1975 durante um confronto com a polícia.
João Maria foi tema de várias reportagens Foto: Reprodução / Jornal de Caxias de 17/09/1977

O auge da violência aconteceu na noite de 12 de outubro, quando os quatro assaltantes restantes mantiveram 37 reféns durante seis horas numa boate em Curitibanos. O ataque foi inaceitável e as polícias de Santa Catarina e do Paraná se uniram para caçar a quadrilha. Cinco dias depois da fuga e cercados pela polícia, João Maria e dois ladrões se refugiaram numa capela a 38 quilômetros de Curitibanos. Ali, num intenso tiroteio, João Maria e um comparsa tombaram mortos. Com 20 anos, o rapaz que ficara conhecido de assistentes sociais, juízes e policiais estava acabado.

Chupa-Bico também prosseguiu com os assaltos. Depois de ser preso, acabou voltando às ruas em março de 1977. 

— Ele dizia assim: não assalto por assaltar, tenho a carteira profissional, não tenho documento, minha ficha está suja e de vez em quando tenho que assaltar se não morro de fome. No fim da vida, parecia ter se ajeitado e estava tudo encaminhado. Daí foi chamado num sábado, aí perto da Antena, por uns jovens, que tinham sido amigos deles — recorda Aldo Migot.

Num beco da vila onde havia se criado, Chupa-Bico foi fuzilado por rivais, poucos dias antes de completar 25 anos. A morte da dupla e de outros assaltantes na mesma época encerrava um ciclo, mas não resolveria a questão da insegurança.

—  Temos a tendência de concluir que o bandido é produto da sociedade. Que o bandido não tem culpa de ser bandido. Existe uma corrente muito forte nisto. Afinal de contas, o bandido tem culpa de ser bandido ou não? Mas tem a outra posição: pode até ser que as condições não sejam boas, mas há pessoas nas mesmas condições que não viraram bandidos. Esse é um debate que merece ser aprofundado — ressalta Manoelito Savaris.


 
 
 

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