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Raízes da violência 2/405/11/2018 | 17h39Atualizada em 05/11/2018 | 17h58

A difícil relação entre autoridades e imigrantes nos primórdios de Caxias do Sul

Cidade não teve um crescimento baseado apenas no trabalho passivo dos colonos

A difícil relação entre autoridades e imigrantes nos primórdios de Caxias do Sul Domingos Mancuso/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami
Diretores da colônia já faziam apelos por força policial desde os primeiros anos do assentamento de imigrantes Foto: Domingos Mancuso / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Facções, tráfico de drogas, assaltos e tantos outros abusos que atormentam os moradores de Caxias do Sul até podem ser fenômeno desta época, de um perfil de pessoas propensas a deslizes e a maldades ou de uma cidade que cresceu demais como teorias tentam explicar. Mas fica claro que a cultura de hostilidade vem se perpetuando desde o início do povoamento da cidade. Conforme documentos históricos, homicídios, feminicídios e estupros sempre foram comuns, obviamente em quantidade menor nos primeiros anos se comparados aos dias atuais. 

Para a historiadora Terciane Luchese, que pesquisou conflitos entre colonos e autoridades nos primórdios de Caxias e de Bento Gonçalves, o contexto de cada época é fundamental para entender como a violência se fortaleceu.

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Em 1876, época em que os primeiros colonos chegaram ao chamado Campo dos Bugres, a Revolução Farroupilha ainda ecoava por todo o Rio Grande do Sul. Andar armado com facão, revólver ou espingarda era normal, fazia parte da cultura. A colônia também não era uma ilha isolada. Relatos indicavam que ocorriam assassinatos e assaltos cometidos por bandoleiros nos Campos de Cima da Serra, que tinham ligação com a colônia devido ao comércio estabelecido pelos tropeiros.

Por outro lado, se havia um grande número de imigrantes dispostos a trabalhar e prosperar de forma tranquila, também vieram alguns desordeiros, pessoas de má índole e instigadores de conflitos, conforme a pesquisadora descobriu nos relatórios antigos. Em relação a parte do grupo trazido pelo vapor Caí, em maio de 1877, por exemplo, o inspetor geral da colônia emitiu um alerta: " [...] que V. Sª os mantenha bem vigiados e separados dos outros imigrantes enquanto não puder mandá-los para as colônias. Se houver algum distúrbio [...] V. Sª queira despachar um processo para dar parte do que houver ocorrido, procedendo, entretanto com toda a prudência mas, também, com toda a firmeza possível."

— Há uma certa romantização do imigrante visto como bonzinho, passivo e ordeiro. Muitos eram, mas outros tantos não. Vinham de uma Itália vinculada à pobreza, onde havia disputa pela sobrevivência, comoção social. Aqui, tem um clima tenso pelas questões que envolvem o desejo por uma melhoria nas condições de vida, há um desejo de sobrevivência, então ocorre o embrutecimento de quem veio da Europa — situa Terciane.

Colonos x autoridades

Conforme Terciane Luchese, diretores e demais funcionários a serviço do império foram os responsáveis por sistematizar a ocupação das terras na Serra e mantinham contato direto com os imigrantes. Uma das missões era amenizar a rivalidade entre grupos políticos trazidos da Itália, como austríacos e italianos ou católicos e maçons. O diretor atuava como uma espécie de delegado, embora esse cargo não existisse no povoado. Apesar da chegada de desordeiros, os delitos envolvendo imigrantes nasciam de rixas que poderiam evoluir para violência física. 

Em fevereiro de 1876, bem no início da ocupação de Caxias, o colono Sebastião Mauri deu um tiro no peito de outro italiano, Biliardi Chiafredo. O disparo só não foi fatal porque o colete de flanela de Chiafredo absorveu o impacto. No mês seguinte, o espanhol José Maria Vasques atirou contra dois cavalos de um vizinho que estavam em sua propriedade em Nova Milano, na época parte da Colônia Caxias. Ele ainda fez ameaças afirmando que continuaria armado e agiria novamente em caso de novas invasões. Em abril daquele ano, o diretor da colônia relatava outro incidente, desta vez envolvendo o francês João Rohá, que possivelmente inspirado pelo gesto do espanhol matou cavalos de dois imigrantes italianos e provocou grande desavença. Não seriam crimes graves, mas traziam preocupação. 

Num ofício ao presidente da província, o diretor da colônia pediu ao presidente do Rio Grande do Sul que avaliasse a necessidade de enviar "praças de polícia que auxiliem na manutenção da ordem entre os colonos, em cujos número se encontram de gênios díscolos e rixosos". O pedido foi reiterado em outras ocasiões.

A administração da colônia também citava as confusões provocadas pelo consumo de álcool, o que gerava desentendimentos. A venda de bebidas era proibida, mas sempre havia uma forma de burlar a regra.

Em maio do mesmo ano, um colono alemão era denunciado por uma sequência de furtos de cavalo e  pregos de outros imigrantes. Segundo o estudo de Terciane, esse colono virou personagem ingrato e deveria ser expulso da região _ a expulsão por mau comportamento foi artifício usado em outras ocasiões em Caxias e nas colônias de Bento Gonçalves e Garibaldi. Para a direção do povoado em Caxias, somente uma força policial seria suficiente para que os imigrantes seguissem normas.

— Em questão de quatro ou cinco anos, milhares de pessoas chegaram na região. Se os colonos decidissem se reunir contra as autoridades, era algo que assustava — situa a historiadora.

Morte na porta de açougue

A ampliação das forças de segurança em Caxias, tantas vezes solicitada, nem sempre teve o resultado imaginado. Se o assassinato de três colonos na pequena hospedaria de Nicolao Frederes, em 1877, já seria suficiente para causar espanto, poucos meses depois, dois praças que haviam ingerido bebida alcoólica se envolveram em outra ocorrência com uma família de imigrantes, que resultou em mais mortes e feridos em Caxias. Na prática, as forças policiais não conseguiam estabelecer a ordem apenas na base da conversa. Seguidamente, por fatos parecidos, a província era obrigada a substituir os praças envolvidos em mortes, brigas e repressões e instaurar inquéritos.

No livro Relações de Poder (2009, Editora CRV), a historiadora Terciane cita o assassinato do imigrante Luigi Cattani, ocorrido em 1879, como mais um resultado da falta de entendimento entre representantes do governo e estrangeiros. 

Por causa de uma futilidade, o diretor da Colônia, Luís Manoel de Azevedo, discutiu com Paolo Severgnani e o filho dele, Domenico. Pai e filho não queriam permanecer na fila para retirar cartas. Um dos colonos atirou uma pedra em Azevedo. A dupla foi detida por outros imigrantes, entre eles, Luigi Cattani. Posteriormente, os dois desordeiros foram encaminhados para a cadeia de Porto Alegre. Irritado, Azevedo solicitou a expulsão de pai e filho de Caxias.

Conforme a obra da historiadora, no dia seguinte Cattani estava na porta de seu açougue quando foi questionado pelo italiano Leonardo Morello. Insatisfeito com o apoio de Cattani ao diretor, Morello puxou uma faca e desferiu três golpes fatais em Cattani, que morreu horas depois.  Outro italiano, João Napolitano, foi esfaqueado nas costas. Morello foi preso e Luís Manoel de Azevedo relatou que "os dois indivíduos feridos achavam-se um tanto embriagados e que os agressores, Leonardo Morello e José Napolitano, eram tidos geralmente por desordeiros e assassinos mesmo".

NÚMEROS OFICIAIS

:: Não há estatísticas sobre a violência e a criminalidade em Caxias nos primeiros anos da colonização. Por isso, é quase impossível saber quantos assassinatos ocorreram na cidade na época e qual foi o primeiro crime contra a vida ou patrimônio. O único parâmetro sobre os primórdios da violência no último quarto do século 19 é um relatório sobre a situação no Estado, mas não é possível afirmar se os dados são um retrato fiel do período. 

:: Em 1875, ano da colonização na Serra, haviam sido registrados 32 assassinatos em todo o Estado. No ano seguinte, o número saltou para 59 homicídios. A violência foi ainda maior em 1877, com 92 assassinatos. A população no RS, em 1877, passava dos 400 mil habitantes _ pelo tamanho da população gaúcha e quantidade de homicídios, é uma violência equiparada ao que ocorre hoje em Caxias. 

:: Em 1877, 325 pessoas cumpriam pena na cadeia de Porto Alegre, sendo que 58 delas eram escravas. Na fila da pena de morte, 10 homens e uma mulher (quatro eram escravos) aguardavam a ordem de execução. Outros 50 haviam sido condenados à prisão perpétua e dois escravos também estavam recolhidos para receber chicotadas. O restante dos presos cumpria penas variadas ou aguardava julgamento. Curiosamente, os furtos e roubos eram bem menores do que os crimes contra a vida: entre 1876 e 1877, o governo da província comunicava o registro total de casos de 35 furtos e roubos.

 
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