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Telefonia08/10/2018 | 08h49Atualizada em 08/10/2018 | 08h49

Sem manutenção, orelhões se tornaram um estorvo nas ruas de Caxias

Além da maioria dos equipamentos não estar funcionando, as estruturas acabam sendo obstáculos para locomoção de cegos

Sem manutenção, orelhões se tornaram um estorvo nas ruas de Caxias Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS
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Caxias do Sul tem hoje 1.680 telefones públicos distribuídos pela cidade. O número, aparentemente significativo, reduz drasticamente no momento em que os aparelhos são testados: raros são os que ainda funcionam. 

A Oi, concessionária responsável pela operação do serviço na maior parte do país, não informa qual o contingente em operação atualmente, mas é comum ter de caminhar muito para conseguir um orelhão operando. Na área central de Caxias, por exemplo, quase nenhum está disponível. Com a fiação arrancada ou roubada, ausência dos fones ou simplesmente sem sinal, por vezes nem é preciso retirá-los do gancho para perceber que não têm mais utilidade.

Apesar do uso dos celulares ter virado comum e estar acessível a praticamente todo mundo — até maio deste ano, segundo a Anatel, eram 235,45 milhões de linhas (1,13 por habitante) —, ainda assim, os aparelhos são considerados uma opção emergencial para situações específicas, especialmente quando acaba a bateria de telefones móveis.

Há cerca de 15 dias, o empresário Gilmar Eduardo Fagundes caminhava pela área central quando precisou usar um orelhão. Ele insistiu na busca de algum aparelho disponíveis mas, depois de testar mais de 20 telefones, acabou desistindo.

— Precisava ligar para um 0800 e tinha de ser de um telefone fixo. Como estava no Centro, decidi usar o orelhão. Não achei nenhum que funcionasse. Todos danificados, a maioria por vandalismo. Em resumo, não consegui realizar ligação. Fico imaginando se fosse algo urgente... — relata Fagundes.

O Pioneiro testou diversos aparelhos nas proximidades da Praça Dante Alighieri na última semana e de todos os locais verificados, apenas um _ na Rua Visconde de Pelotas, entre a Sinimbu e a Avenida Júlio de Castilhos _ estava funcionando. O restante estava, com raras exceções, depredado e sem condições de uso.

— Todos estavam danificados, a maioria por vandalismo. Estavam sujos, depredados e pichados — acrescenta.

CONTRAPONTO

Contatada pelo Pioneiro por e-mail, a Oi não esclareceu se há plano para remoção dos orelhões estragados. A empresa, no entanto, alegou que realiza a manutenção dos aparelhos, informando que investiu, ao longo de 2017, em torno de R$ 360 milhões em reparos em todo o país.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL 01/10/2018Sucateamento dos orelhões na área central da cidade. Além de usuário que não pode usar, os equipamentos atrapalham cegos e pessoas com deficiência visual/de locomoção. (Felipe Nyland/Agência RBS)
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

A nota também informa que, em média, 15% dos cerca de 45 mil telefones públicos instalados no Rio Grande do Sul foram danificados no primeiro semestre deste ano. Os principais problemas decorrentes do vandalismo, segundo a Oi, são defeitos em leitora de cartões, nos monofones e teclado, além das pichações e colagem indevida de propagandas nos aparelhos e nas folhas de instrução de uso, prejudicando o entendimento das orientações pelos usuários. 

"Em alguns casos, as equipes da empresa consertam e limpam os aparelhos e eles são danificados no mesmo dia", informa o comunicado.

A Oi detém 640 mil telefones públicos no país (exceto no estado de São Paulo). Desses, a concessionária estima que cerca de 50% estejam em funcionamento.

Obstáculo para cegos

Enquanto para a maioria da população os orelhões passam praticamente despercebidos no dia a dia, para cegos e pessoas com baixa visão, tratam-se de obstáculos rotineiros. O problema não é nem a existência das estruturas e, sim, a falta de sinalização:

— Não tem nenhuma sinalização do piso tátil. A bengala até identifica o lastro, mas não a cápsula, e os cegos acabam batendo a cabeça. Já ocorreram vários acidentes — comenta a coordenadora do Instituto da Audiovisão (Inav) de Caxias, Fernanda Ribeiro Toniazzo.

Segundo ela, a instalação do piso tátil é uma reivindicação antiga e há, inclusive, normas de acessibilidade da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que determinam especificações técnicas para a sinalização.

— Há anos mandamos para a prefeitura essa demanda, mas nunca tivemos resposta — ressalta.

O Pioneiro questionou a Secretaria Municipal do Urbanismo, que é a pasta que responde a esse tipo de demanda. A reportagem, porém, não obteve retorno da prefeitura até o fechamento desta edição.

Proposta sugere remoção

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL 01/10/2018Sucateamento dos orelhões na área central da cidade. Além de usuário que não pode usar, os equipamentos atrapalham cegos e pessoas com deficiência visual/de locomoção. (Felipe Nyland/Agência RBS)
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Paralelamente, um projeto de lei que propõe justamente a remoção de orelhões  está em trâmite no Legislativo desde o início deste ano. A proposta, de autoria do vereador Adilo Didomenico (PTB), sugere atribuição ao poder público para notificar a Oi sobre necessidade de manutenção de telefones públicos ou retirada dos equipamentos inativos. O projeto estabelece prazo de 30 dias para o procedimento. Caso contrário, a prefeitura poderia realizar a remoção. A proposta também obriga a instalação de piso tátil na proximidade dos aparelhos.

— A grande maioria deles (orelhões) não está funcionando, não há motivos por ainda estarem atrapalhando o passeio público — comenta o parlamentar.

O projeto, entretanto, ainda tramita nas comissões internas do Legislativo e não há previsão de quando será votado em plenário.

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