Número de policiais nas estradas é 40% menor que o ideal na Serra - Geral - Pioneiro

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Trânsito05/10/2018 | 07h00Atualizada em 05/10/2018 | 07h00

Número de policiais nas estradas é 40% menor que o ideal na Serra

Policiais revezam com equipes de outras regiões da Serra para atender ocorrências

Número de policiais nas estradas é 40% menor que o ideal na Serra Lucas Amorelli/Agencia RBS
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

A defasagem no número de servidores nas autarquias responsáveis pelo patrulhamento de quase 2 mil quilômetros de rodovias da Serra _ calculada em cerca de 40% a partir de estimativas dos grupos rodoviários da Brigada Militar e delegacias da Polícia Rodoviária Federal (PRF) consultados pelo Pioneiro _ , deixa o trânsito menos seguro e abre espaço para o vaivém de infratores e criminosos. Com menos policiais para monitorar as estradas, motoristas ficam mais vulneráveis, além da fragilizarem a segurança dos próprios servidores que ocupam os postos nas estradas (muitas vezes, um único servidor fica responsável pelo turno). A situação só não é pior do que a média em todo o Rio Grande do Sul, que chegaria a 60% segundo dados do Comando Rodoviário da BM obtidos pelo jornal Zero Hora em maio deste ano. Esta seria a maior defasagem de efetivo da história. 

Um dos reflexos desta baixa de pessoal é o atendimento parcial que já ocorre no posto da PRF em Nova Petrópolis. Na tarde de ontem, por exemplo, não havia servidores na unidade. Sindicatos de policiais rodoviários denunciam o fechamento da unidade, de forma definitiva, nos próximos meses. A PRF descarta a possibilidade da sala situada na entrada da cidade fechar as portas, mas admite que é impossível, com a equipe atual, destinar profissionais exclusivamente àquela unidade. 

— Não tem indicativo de fechamento, mas teremos ainda mais mobilidade com as equipes. Não há mais como ter uma equipe fixa ali, não há efetivo para fechar essa escala. Mas o policiamento seguirá sendo feito, talvez não mais neste posto físico — afirma o chefe da delegacia, Marco Aurélio Baierle.

No mês passado, um edital da Brigada Militar convidou militares para preencherem 33 vagas, em caráter emergencial, em rodovias gaúchas. Destas, 10 são em cidades que pertencem à Serra: Casca, Farroupilha, Nova Bassano, Bom Princípio e Gramado. A que receberá o maior reforço é Nova Bassano, com três novos servidores. 

Presidente da Associação de Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar e Bombeiros (ASSTBM), Aparício Santellano, afirma que são cada vez mais comuns os relatos de policiais que precisam escolher a qual ocorrência atender.

— Há postos que há um ou dois policiais militares atuando, que dirá policiais rodoviários. O que se tornou cada vez mais comum é que a mobilidade, os policiais volantes, que quase nunca ficam no posto e percorrem as cidades. É algo que precisa ser repensado e eleito como prioridade — defende.

Socorristas e profissionais que lidam diretamente com socorro de acidentes na Serra notam que, algumas vezes, policiais rodoviários sequer conseguem ir até a ocorrência. Em alguns casos, a Brigada Militar precisa atuar nas rodovias para que a cena do acidente seja preservada, por exemplo. 

A defasagem de equipe também deve estar longe de ser resolvida nas rodovias federais. Um concurso que deve ter edital publicado ainda neste ano, com 500 vagas para o país, deve destinar somente 49 para o Rio Grande do Sul, de acordo com o presidente do Sindicato dos Policiais Rodoviários do RS, Maicon Nachtigall.

— A estimativa é que venham 49 para o Estado, mas tivemos recentemente a aposentadoria de 200 servidores. Já estava precário, com este número, obrigou que saísse o concurso. Só que estes profissionais só devem atuar na metade do ano que vem — afirma.

A Serra, segundo Nachtigall, registra duas perdas estruturais efetivas: o fechamento da unidade de São Marcos, em 2015 e o encerramento de uma equipe fixa em Vacaria, há dois anos. 

— O número de policiais no interior é muito inferior ao necessário. O que se prega hoje é mais com menos, mas para se ter sensação de segurança, exige a presença do policial. A realidade da Serra é a realidade de todo Estado, é lamentável — reclama. 

O QUE DIZ

O major Rovani da Costa Silveira, comandante do 3° Batalhão Rodoviário da Brigada Militar (3°BRBM), que congrega os grupos rodoviários da BM na Serra, disse não ter autorização para se pronunciar sobre a falta de efetivo e encaminhou a demanda ao coronel José Henrique Botelho, responsável pelo Comando Rodoviário. Botelho estava em viagem ontem e não pôde atender ao Pioneiro.

Grupo Rodoviário de Casca

Sede: km 51 da RSC-324.

Atuação: RSCs 126, 129, 132, 324, 434, 438, 441, 447, 462 e ERSs 351,381 e 832.

Quilômetros de patrulhamento: 296

Número de servidores: sete

Situação: a área de patrulhamento é grande e contempla municípios como Casca, Vila Maria, Marau, Guaporé, Serafina Côrrea, Paraí, Nova Araçá e São Domingos do Sul, entre outros. Segundo levantamento do Pioneiro, este é uma das unidades com maior defasagem no número de servidores. Em 2010, reportagem publicada pelo jornal informava que a equipe dispunha 16 policiais rodoviários, que atendiam a 26 municípios. Atualmente, são sete servidores, queda de 56%, e, é claro, a mesma quilometragem para cuidar. O déficit é sentido, na prática, no deslocamento da equipe em ocorrências ou na redução de ações preventivas. Apenas neste ano, foram 157 acidentes atendidos, segundo a corporação.

— Nós ficamos sempre em um ou dois servidores, e contamos com a cobertura de Passo Fundo e Erechim. O ideal era, no mínimo, três servidores por turno — admite um dos policiais.

Grupo Rodoviário de Farroupilha

Sede: km 64 da ERS-122.

Atuação: ERSs 122, 230, 437, 448, 455, 456, 313, 314, 315, 331, 829, 834 e RSC-453 

Quilômetros de patrulhamento: 427

Número de servidores: não informado

Situação: o comando do Grupo Rodoviário de Farroupilha não forneceu informações sobre a equipe. No entanto, sabe-se que o trecho de atuação é extenso, e contempla rodovias com grande número de acidentes como a ERS-122 e a Rota do Sol (RSC-453). Socorristas e outros profissionais que costumam se deslocar para os acidentes relatam que, em alguns casos, o tempo para que viatura e policiais do GRv cheguem pode chegar a duas horas.

— A realidade no trecho das rodovias estaduais que atendemos é muito diferente dos das federais. A equipe da Brigada Militar está bastante desguarnecida. Já tivemos situações de caminhões parados na via por horas aguardando a chegada da viatura, e é preciso, por exemplo, que eles façam a preservação da carga ou da cena do acidente — revela um socorrista de Carlos Barbosa.

O tempo de chegada da viatura do GRv de Farroupilha cresce ano a ano, segundo profissionais que dependem do serviço. 

— Sabemos que há situações em que eles nem vão mais. É claro que, a grosso modo, respinga na gente, que precisa fazer a sinalização de um acidente, ou das Brigadas Militares, que têm de ser acionadas, dependendo do município. A gente se vira para não deixar ninguém desamparado, todos fazem isso — conta um bombeiro que atua em um dos agrupamentos da Serra.

Grupo Rodoviário de Gramado

Sede: km 32 da RSC-235

Atuação: ERSs 020, 110, 115, 235, 373, 429, 439, 446, 476, 484 e 486 e RSCs 285 e 453.

Quilômetros de patrulhamento: 619

Número de servidores: não informado.

Situação: a maior extensão de patrulhamento pertence ao grupo de Gramado: são mais de 600 quilômetros espalhados em 13 rodovias, incluindo a Rota do Sol. Um acidente registrado nesta semana, em que três pessoas ficaram feridas, chamou a atenção pela logística de atendimento. A colisão foi km 4 da ERS-235, em Nova Petrópolis. Quem foi chamado para atender ao acidente foi o agrupamento de Sapiranga, distante mais de 50 quilômetros, contra pouco mais de 30 que separam Gramado e Nova Petrópolis. A viatura levou mais de uma hora para chegar. A parceria, no entanto, mostra-se cada vez mais necessária, segundo integrantes do GRv de Gramado, porque não há servidores suficientes que possam atender ao telefone na base e às ocorrências.

— Nós revezamos com Sapiranga para que o posto não fique vazio e a gente não deixe de atender ao telefone. São mais de 10 municípios que precisamos atender, mais de 600 quilômetros. Às vezes, se demora duas horas para chegar ao local — diz um dos patrulheiros. 

Grupo Rodoviário de Nova Bassano

Sede: km 171 da RSC-470

Atuação: ERSs 324, 355, 359, 437, 441 e 443.

Quilômetros de patrulhamento: 240 quilômetros.

Número de servidores: não informado.

Situação: a expectativa é que três novos servidores sejam deslocados para reforçar a equipe que atende a 240 quilômetros na microrregião de Nova Prata. Segundo membros do GRv, o batalhão de Nova Bassano atua em parceria com a equipe de Farroupilha. O atendimento de ocorrências é revezado entre as duas bases, separadas por cerca de 100 quilômetros.

— Quando é necessário apoio próximo a Bento, por exemplo, nós somos chamados. Acabamos tendo de ajudar porque existe falta de efetivo grande tanto aqui quanto em Farroupilha. É só olhar a quantidade de estradas que precisamos atuar. É indispensável esta parceria — afirma um dos servidores.

Batalhão Rodoviário de Bom Princípio

Sede: km 26 da ERS-122

Atuação: ERSs122, 452 e 446 e VRSs 827, 842, 865, 843, 826, 415 e 874. 

Quilômetros de patrulhamento: no trecho da Serra, são apenas três quilômetros. Ao todo, porém, são 123 quilômetros sob a responsabilidade da unidade.

Número de servidores: não informado.

Situação: em virtude do déficit de servidores, o grupo trabalha em parceria com equipes de Farroupilha, Montenegro, Portão e Bento Gonçalves.

5ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) 

Sede: km 147 da BR-116, em Caxias do Sul

Atuação: BR-116. Responde pelas unidades de Nova Petrópolis e Vacaria.

Quilômetros de patrulhamento: 391

Número de servidores: não informado.

Situação: a PRF divide os servidores entre as unidades da sede, de Nova Petrópolis e Vacaria. A extensão só do trecho de Vacaria é de 270 quilômetros. A defasagem de equipe, segundo a unidade, é de 20% do efetivo, número menor do que no Estado, cuja margem de defasagem ultrapassaria os 40%.

— Além do redirecionamento das equipes nas três unidades, passamos a usar os drones que nos auxiliam em cobertura de local e nas fiscalizações em geral. Os sistemas de monitoramento acabam ajudando nosso trabalho a ser mais assertivo — pontua o chefe da delegacia, Marco Aurélio Baierle.

Em época de contingenciamento por parte do governo federal e de falta de pessoal, os drones servem como ampliadores do alcance nas rodovias da região. Além disso, outra facilidade acaba atenuando as dificuldades do quadro de servidores: a possibilidade de o motorista registrar a ocorrência virtualmente, no site da PRF, quando não há feridos. A delegacia não divulgou o número de servidores atuando por questão de segurança, mas afirma que o concurso previsto para o próximo ano, que deverá chamar 500 novos policiais rodoviários no país, não deverá sequer preencher a demanda.

— A briga é tanto regional quanto estadual para tentar recompor o quadro em todas as unidades. Com as mudanças da Reforma da Previdência, muitos servidores não esperaram e encaminharam as aposentadorias para não correr o risco de ficar sem direitos. Nós temos o mesmo quadro do efetivo de 1994 —  contextualiza Baierle. 

6ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) 

Sede: km 217 da BR-470, em Bento Gonçalves

Atuação: BR-470

Quilômetros de patrulhamento: 143

Número de servidores: não informado.

Situação: antes RSC-470, a rodovia foi federalizada em 2015. O grupo de policiais rodoviários foi criado em 2016, com servidores vindos de diversas unidades do país. Eles são responsáveis pelo patrulhamento ao longo dos mais de 140 quilômetros, no trecho que inicia em André da Rocha e segue até Barão/Salvador do Sul. Lotados na sede em Bento, eles se deslocam a Veranópolis, onde fica a estrutura de um grupo rodoviário estadual desativado, já que a rodovia passou a pertencer à federação. 

— Nem sempre é possível, mas tentamos fazer com que parte de uma equipe fique lá. São duas equipes volantes — afirma um dos integrantes da delegacia.

Profissionais que trabalham com resgate ou usuários da rodovia não costumam reclamam da demora do atendimento do grupo. Mesmo assim, a estimativa é que a equipe precise de um reforço de 40% para que ações como fiscalizações e prevenção de acidentes possam ser executadas sem prejudicar atendimento de ocorrências. 


 
 
 

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