Por falta de consenso, comunidade de Vila Cristina, em Caxias, segue sem creche  - Geral - Pioneiro

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Educação24/09/2018 | 08h00Atualizada em 24/09/2018 | 08h07

Por falta de consenso, comunidade de Vila Cristina, em Caxias, segue sem creche 

Pais não concordaram em transferir filhos de escola municipal para estadual. Caso será levado ao Ministério Público 

Por falta de consenso, comunidade de Vila Cristina, em Caxias, segue sem creche  Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Intenção seria reformar a Escola Municipal Assis Brasil (foto) e abrir no espaço um creche com 30 vagas. Para isso, alunos que estudam no local teriam de ser realocados na Escola Estadual Renato Del Mese, a dois quilômetros de distância Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Num contexto no qual centenas de crianças estão fora de creches e escolinhas infantis públicas em Caxias do Sul, a criação de 30 vagas no distrito de Vila Cristina pode não ter tanta força a ponto de balançar a fila de espera. Só que essa possibilidade, inflada pela promessa de R$ 550 mil para a reforma de um prédio que abrigaria uma futura creche, encheu de expectativas e, ao mesmo tempo, dividiu a comunidade.

Para parte dos moradores, o desejo de contar com um espaço público para a gurizada de zero a três anos se materializa com a ocupação da Escola Municipal Assis Brasil, que atende 24 alunos da Educação Infantil (quatro e cinco anos) e das séries iniciais do Ensino Fundamental. 

Na prática, a ideia era que a Secretaria Municipal da Educação (Smed) levasse os estudantes da pequena escola municipal para a Escola Estadual Renato Del Mese, na sede do distrito, onde há vagas para os anos iniciais. Em contrapartida, usaria os R$ 550 mil para reformar o prédio da Assis Brasil e acolher ali crianças que hoje são encaminhadas a creches de Nova Petrópolis e Vale Real.

 A alternativa desagradou a comunidade atendida pela Assis Brasil, localizada na Estrada do Vinho, caminho da Terceira Légua. A transferência para a Renato Del Mese foi reprovada durante uma assembleia realizada na terça-feira passada, em que havia três vezes mais votantes por parte da comunidade escolar do que moradores interessados na criação da creche. Com a decisão, quem acreditava numa solução para a demanda histórica de Vila Cristina agora teme perder os recursos da prefeitura.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 21/09/2018. Comunidade de Vila Cristinasofre com a falta de vagas para educação infantil. Para criar vagas para crianças de zero a três anos, a comunidade propôs tirar os alunos de uma escola municipal e transferi-los para outra escola da comunidade. Com isso, esse prédio seria transformado na escolinha. Contudo, não houve acordo e dinheiro que seria usado no projeto não foi liberado. Eloide Dallegrave está grávida de dois meses e não sabe com quem vai deixar o bebê por falta de creche em Vila Cristina. Na foto, o filho Vitor José, 5, que frequenta escolinha em Nova Petrópolis. (Diogo Sallaberry/Agência RBS)
Eloide precisa levar o filho Vitor para escolinha em Nova PetrópolisFoto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Mães que nunca puderam deixar os filhos em escolinhas públicas ou que recorrem a outras cidades se consideram prejudicadas pela falta de perspectiva. A diarista Eloide Dallegrave, 42 anos, leva o filho Vitor José, cinco, para uma escolinha de Nova Petrópolis, a 15 quilômetros de Vila Cristina. Ela está grávida de dois meses e imaginava que pudesse contar com um serviço no distrito para o novo filho ou para Vitor. 

— Minha opção foi procurar a escola e um emprego em Nova Petrópolis — conta Eloide.

Glaucia Martins Coelli, 28, passa por situação semelhante. Mãe de Arthur, três, atualmente ela trabalha em um restaurante de Vila Cristina e deixa o menino com a sogra, de 73 anos. Antes de o pequeno nascer, Glaucia tinha emprego em uma metalúrgica.

— Não havia saída: tive de sair da empresa para cuidar do meu filho. Temos esperança que a situação mude — diz Glaucia. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 21/09/2018. Comunidade de Vila Cristinasofre com a falta de vagas para educação infantil. Para criar vagas para crianças de zero a três anos, a comunidade propôs tirar os alunos de uma escola municipal e transferi-los para outra escola da comunidade. Com isso, esse prédio seria transformado na escolinha. Contudo, não houve acordo e dinheiro que seria usado no projeto não foi liberado. Glaucia Martins Coelli deixa o filho Arthur Henrique, três anos, com a sogra por falta de creche em Vila Cristina (Diogo Sallaberry/Agência RBS)
Glaucia trabalha em um restaurante e precisa deixar o filho Arthur com a sogra. Falta de creche a impediu de seguir no antigo emprego, em uma metalúrgicaFoto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Faltam terrenos públicos

O maior problema, segundo a própria Smed e lideranças do distrito, é que não há terrenos públicos apropriados para a instalação de uma creche ou escolinha no distrito. Engenheiros da prefeitura avaliaram 10 áreas públicas e nenhuma têm solo estável para a construção de uma escolinha.

Ainda em 2014, a Amob pediu auxílio do Ministério Público (MP) para intervir na demanda. A Promotoria Regional de Educação acabou pressionando o Executivo. Em 2016, a mobilização comunitária identificou um imóvel particular ideal para acolher crianças. Para garantir o espaço, a Amob, com apoio de uma empresária, pagou aluguel de R$ 600 mensais durante 18 meses, além da água e luz. 

A casa ficou desocupada no período porque só poderia ser transformada em creche com as devidas reformas. A prefeitura acenou com os recursos necessários, mas o dono do imóvel rescindiu o contrato de locação em maio deste ano. 

Foi então que surgiu a possibilidade de ocupar a Assis Brasil, devido a duas situações. As quatro peças do prédio seriam suficientes para receber cerca de 30 crianças, que é o tamanho da fila de espera na faixa etária de zero a três anos na comunidade. A outra é que a escola atende apenas em meio período (turno da manhã) e não haveria lógica administrativa em manter duas escolas com mesma etapa de ensino num raio de apenas dois quilômetros _ distância entre a Assis Brasil e a Del Mese. A 21 de Abril é a terceira escola que oferece a mesma modalidade em Vila Cristina.

"Não houve equilíbrio na votação"

Para a presidente da Associação de Moradores de Vila Cristina, Claudete Maria Bortoluz, faltou coerência da Smed no momento de convocar a assembleia. A líder comunitária diz ter recebido um telefonema por volta das 9h de terça-feira, no qual a secretaria informou que haveria uma discussão sobre o tema às 19h do mesmo dia. Ao chegar no local, acompanhada de cerca de 10 moradores, Claudete topou com outras 30 pessoas interessadas em impedir a transformação da Assis Brasil em creche. Logo, prevaleceu a vontade de quem tinha mais vozes na reunião.

— Se soubéssemos que haveria votação, teríamos nos organizado. A escola foi comunicada com antecedência e reuniu pais, moradores. A Amob não recebeu o aviso com antecedência e fomos com poucas pessoas. Não houve equilíbrio — reclama Claudete, que recorrerá novamente ao MP.

A secretária da Educação, Marina Matiello, reconhece que a reunião foi marcada de última hora, mas para ela havia representação de ambos os lados. Sobre os R$ 550 mil necessários para a reforma, Marina esclarece que nunca houve recursos empenhados, mas, sim, uma sinalização.

— O que havia era a possibilidade de retirarmos dinheiro de um setor e aplicarmos na Educação Infantil do distrito, pois é um segmento com prioridade no governo. Mas com a decisão tomada, não temos um planejamento, uma previsão de construir uma creche — alega Marina.

Para a secretária, a intenção da assembleia foi realizar a escuta da comunidade para decidir qual seria a melhor solução. 

— Vamos levar o assunto para o MP. Se for caso, o próprio MP pode convocar uma audiência para decidir os rumos — pondera Marina.

O MP ainda não se manifestou sobre o assunto.

Opinião
A reportagem contatou a professora que coordena a Assis Brasil, mas ela só teria condições de falar sobre o assunto nesta segunda-feira. Procurados, pais de alunos que estudam na escola preferiram não se manifestar.

SAIBA MAIS

:: A Escola Assis Brasil, fundada há mais de 40 anos, tem o perfil de escola multisseriada (duas a três séries por turma), pois recebe estudantes de colégios rurais que fecharam as portas nos últimos anos. Frequentam o local crianças de localidades como Nova Palmira, Cerro da Glória e Caravaggio da Terceira Légua, entre outras.

:: Na projeção da Amob Vila Cristina, as aulas seriam mantidas normalmente na Assis Brasil até o final deste ano. Em 2019, as crianças migrariam para a Del Mese e teriam transporte fornecido pelo município. Em 2020, com as reformas já realizadas, iniciaria o trabalho da creche na Assis Brasil, que ficaria responsável também pelo atendimento das crianças de quatro a seis anos. 

:: A diretora da Renato Del Mese, Irmtraud Goldbeck, garante ter espaço para receber as turmas da Assis. Antes, porém, é necessário reformar piso e banheiros. Segundo a 4ª Coordenadoria Regional de Educação (4ª CRE), o projeto já está em elaboração e, posteriormente, será encaminhado para a licitação — as melhorias são estimadas em R$ 150 mil, segundo Janice Moraes, titular da CRE.

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