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Religião07/08/2018 | 07h00Atualizada em 07/08/2018 | 15h17

Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias, não formará mais seminaristas

Uso do espaço é estudado pela Diocese

Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias, não formará mais seminaristas Diogo Sallaberry / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Diogo Sallaberry / Agência RBS / Agência RBS

Um dos símbolos mais importantes da Diocese de Caxias do Sul, o Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida não irá mais  formar jovens para a vida religiosa. A decisão da diocese passou a vigorar no início deste mês, quando três dos quatro seminaristas que residiam no imponente prédio do loteamento Colina Sorriso foram transferidos para o Seminário São José, outro espaço de formação da diocese situado no mesmo bairro. O quarto jovem voltou para a casa da família. 

A partir de agora, adolescentes que desejam seguir a vida sacerdotal participarão de um projeto chamado Grupos de Formação em Família, modalidade que permite que o jovem siga morando em casa, mas trabalhe a vocação religiosa em encontros quinzenais. A decisão de encerrar a etapa formativa no Seminário Aparecida era cogitada há anos devido à redução do número de ingressos. A casa, que chegou a receber quase duas centenas de jovens, nos últimos anos estava com menos de cinco alunos. 

— O seminário menor é o símbolo da Diocese, foi a primeira grande obra feita por dom José Barea (o primeiro bispo de Caxias do Sul). O que tem acontecido é que o número de interessados foi diminuindo espontaneamente. As famílias tinham mais filhos, tinha mais gente. Mas também evoluiu o conceito de educação. Com isso, passamos a pensar: será que vale a pena manter o seminário? — explica o bispo dom Alessandro Ruffinoni, encarregado de noticiar a polêmica decisão aos devotos de toda a Serra.

A inauguração do prédio, em 1939, era uma resposta à determinação do papa Pio XI. Na bula papal de criação da diocese, Pio XI ordenou que "na diocese de Caxias seja construído, logo que for possível, um Seminário Menor". O termo menor indica que somente adolescentes com menos de 18 anos poderiam ser aceitos ali. "É um empreendimento inadiável, pois dele depende o futuro da religião nesta nova circunstância eclesiástica" definiu dom José Barea, o o bispo da época.

O contexto histórico indica, portanto, o caráter essencialmente de formação que motivou a construção do seminário. Para que fosse erguido, inclusive, a diocese colheu donativos de moradores de toda a Serra. Doações em dinheiro, cimento, colchões e tijolos, entre outros, vieram de católicos de diversas cidades, inclusive da região litorânea gaúcha, o que permitiu que mais padres fossem formados. O resultado, é claro, é positivo. Além de bispos nascidos na Serra como dom Paulo Moretto, dom Neri Tondello e dom Adelar Baruffi, também passaram pelo seminário o governador José Ivo Sartori (PMDB), o ex-prefeito Mario Vanin, o escritor José Clemente Pozenato e o ex-reitor da UCS, Isidoro Zorzi.

Especialistas estudam futuro do Seminário

O futuro do Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida é incerto, mas há algumas premissas que norteiam um grupo de estudiosos sobre a futura ocupação. Segundo o bispo dom Alessandro Ruffinoni, duas ideias estão descartadas: vender o espaço ou transformá-lo em hospedaria, como ocorre com a Pousada dos Capuchinhos, em Vila Flores. Não é cogitado também alugá-lo para uma empresa ou instituição, por exemplo, que pode descaracterizar o prédio erguido com dinheiro da comunidade há 79 anos.

— Nós temos de cuidar dele porque é nosso. O seminário é uma obra de Deus feita pelo seu povo — resume o reitor do Santuário, padre Mateus Boldori, 28 anos.

Mateus é um dos quase 200 padres formados no seminário. Ele atuava como reitor há pouco mais de um ano e será deslocado para uma das paróquias de Caxias do Sul. Há também leigos que estudam sobre o futuro do espaço. Um deles é o ex-seminarista e coordenador de planejamento e orçamento da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Roberto Boniatti. Ele conta que o estudo sobre a ocupação e as novas diretrizes do seminário ocorrem há muitos anos. A simbologia e importância do prédio construído e usado pela comunidade é o que rege o futuro dele. Nesse primeiro momento, ele deve servir como espaço para encontros de formação e de movimentos da Igreja Católica, o que já acontece há algum tempo. O seminário é, há anos, espaço para cursilhos. O movimento cursilhista trabalha, entre outras questões, a orientação de católicos adultos leigos para a reflexão em torno da fé cristã.

— Já viemos debatendo a melhor forma de ocupação do seminário. Pode ser ocupado de várias formas, sem um único modelo. Por enquanto, já acontecem em fins de semana retiros e desenvolvimentos de lideranças. Seguirá nesta linha — adianta Boniatti.

Como o seminário possui uma capela e há espaço para confraternizações, existe também a possibilidade de se celebrar casamentos no local. Outro destaque do seminário é a biblioteca. O acervo é invejável: uma variedade de mais de 26 mil obras, incluindo livros com mais de 400 anos e dezenas de peças cedidas pelo bispo emérito dom Paulo Moretto. Na tarde da última segunda-feira, três voluntárias trabalhavam na organização de material histórico do seminário. Seguindo um hábito que já dura 17 anos, Suzana Postali Fantinel, 78 anos, executava as tarefas ao lado das colegas, também professoras aposentadas, Alice Piardi Basso, 71, e Lucy Luiza Corso, 70. Apaixonadas pelo seminário e felizes pelo convívio com jovens estudantes, elas não escondiam a apreensão sobre o imóvel que cuidam com tanto carinho.

—  A gente ama isso aqui, e se nos permitirem, vamos dar continuidade a esse trabalho. Vimos vários reitores e seminaristas se formarem. É nossa alegria estar aqui — define Suzana. 

"O seminário pode agora formar leigos, padres, jovens"

Especialistas defendem que a mudança na formação dos jovens no Seminário Nossa Senhora Aparecida é consequência óbvia da mudança da sociedade. Afinal, nem sempre a ideia dos que ingressavam no seminário era se tornar padres: as famílias enxergavam ali a oportunidade de oferecer estudo de qualidade e formação mais rígida aos jovens. Prova disto é que mesmo em 1954, quando 193 formaram-se no seminário, apenas três se tornaram padres. 

— O seminário era extremamente importante porque muita gente do interior não tinha a oportunidade de concluir os estudos, e encontrava nele esta chance. Diversos colegas meus saíam do seminário e prestavam vestibular para Medicina. E passavam com tranquilidade. O estudo integrado, com conhecimento científico e clássico, era um diferencial — opina o filósofo Jayme Paviani, um dos ilustres seminaristas formados no local.

O encerramento do regime de internato para formação de novos padres diz respeito, também, ao novo momento vivido pela Igreja e ancorado pelo papa Francisco. Reitor do seminário, o padre Mateus Boldori diz que se trata de um momento de ressignificação das estruturas da igreja, que precisam se adaptar às mudanças.

— O Papa nos recorda que, muitas vezes, as nossas estruturas, por vezes muito rígidas, sejam transformadas em estruturas pastorais. A ideia é que sejam capazes de criar acolhimento e formar as pessoas para a missão. E o seminário caminha neste sentido: a casa é grande, espaçosa, com espaços bons. Pode formar leigos, padres, jovens, e ajudar no discernimento vocacional de muita gente — analisa Boldori.

Everaldo Cescon, pós-doutor em Filosofia e diretor da área de Conhecimento de Humanidades da UCS, estudou no seminário entre 1985 e 1987. Considera o período como essencial na formação de sua maturidade e educação. Cescon, inclusive, seguiu até a etapa da Teologia, que antecede a formação de padre. No entanto, ao discernir que sua vocação era, de fato, formar pessoas, apostou na vida acadêmica. Cescon entende que o encerramento da etapa de formação do seminário é um processo natural diante da mudança dos anseios dos jovens. 

— Até os anos de 1990, os padres tinham o desejo de mobilizar as comunidades e pessoas para buscarem uma melhoria na vida de todos. Hoje posso estar equivocado, mas vejo que o jovem, incluindo os padres jovens, buscam realização de desejos profissionais. Além do mais, há o fenômeno das vocações maduras surgindo — afirma.

Novo projeto de formação já tem frutos

Além dos três jovens que frequentavam o Seminário Nossa Senhora Aparecida e que agora seguem em regime de internato no Seminário Maior São José, há outros nove rapazes em etapas formadoras da vida religiosa. Quatro estão no estágio inicial, chamado de etapa propedêutica, e outros cinco já cursam Filosofia. Para identificar jovens com desejo de seguir na vida religiosa, a diocese destina um animador vocacional que trabalha nas comunidades e escolas: o padre Lucas Antônio Mazzochini, 34 anos. Por meio de indicações ou da busca espontânea, ele conhece as famílias dos candidatos, toma nota do perfil e é responsável pelo encaminhamento deste futuro religioso dentro da diocese.

— Eu ingressei no Seminário Aparecida aos 14 anos, bastante jovem, certo de que haveria uma inclinação forte a ser padre. Aqui, eu tive ajuda para crescer nas dimensões intelectual, espiritual, comunitária, humano-afetiva e na minha missão pastoral — lembra.

O trabalho de Mazzochini é complementado por outro jovem padre da diocese _ Marciano Guerra, 29, que conduz a nova aposta de formação religiosa, os grupos de Formação em Família. No momento, 11 jovens, com idades entre 14 e 18 anos, reúnem-se quinzenalmente para trabalhar a vocação. Em vez de permanecerem em regime de internato do seminário, eles ficam em casa, próximo de suas famílias, e se deslocam até a paróquia São Pelegrino para o acompanhamento em grupo. 

—  Nós sabemos que por mais problemas que uma família tenha, estar próximo do carinho dos pais sempre é melhor que estar distante. É um formato diferente, mas que também tem benefícios — pontua o bispo dom Alessandro Ruffinoni.

— É como se fosse um grupo de jovens, que se encontra duas vezes ao mês e participa de reflexões, retiros, momentos diferentes da diocese. Sobretudo, eles têm um acompanhamento personalizado, quando trabalhamos o projeto de vida de cada um. É normal que nesta idade eles se perguntem o caminho de vida. E nosso papel é ajudá-los nisso — afirma o padre Guerra.

Desses 11 jovens, sabe-se que três devem seguir para o Seminário São José no próximo ano, dando o primeiro passo para tornarem-se padres. Os grupos de formação também existem em Bento Gonçalves e Nova Prata, com dezenas de inscritos. 

A previsão é que em 2019 se iniciem trabalhos iguais em Farroupilha e Carlos Barbosa. Matheus Henrique Velho Trindade, 18, é um dos jovens que teve a vocação trabalhada no grupos de Caxias. Ainda que desde criança nutrisse a vontade de seguir vida religiosa, optou por se dedicar ao estudo técnico no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) na adolescência. Se estivesse no seminário, por exemplo, ele não conseguiria se dedicar a um estudo integral. Agora, além de deixar a escola formado em fabricação mecânica, sai com outra certeza: de que seguirá estudando para ser padre. A partir do próximo ano, ele se mudará para o Seminário São José, e dará continuidade à vida religiosa.

— Esse é um momento de muita dúvida na vida do jovem. Mas me sinto mais maduro e preparado para tomar uma decisão que é para o resto de vida. Neste meio tempo, fui vendo como a missão de padre é uma missão bonita, de solidariedade. É algo justo e digno, e os grupos me ajudaram a concretizar a ideia sobre o que eu queria ser — conta.

O SEMINÁRIO

:: O Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida, que fica no loteamento Colina Sorriso, foi inaugurado em março de 1939. 

:: Foi a primeira grande obra do bispo dom José Barea, que estimulou a construção do seminário para atender a uma orientação do papa Pio XI. 

:: O seminário foi erguido com doações da comunidade, e a principal missão era a formação de padres. No entanto, o espaço serviu principalmente para que jovens de diversas localidades pudessem concluir os estudos. Eram aceitos jovens com idades entre 14 e 18 anos. Com o passar dos anos, deixou-se de oferecer estudo interno e os alunos passaram a frequentar a Escola Santa Catarina. Os remanescentes estudam hoje no Colégio São João Batista. Para manter o adolescente no seminário, os pais destinavam três salários mínimos.

:: Entre os diversos sacerdotes que passaram pelo seminário figuram os bispos dom Angelo Mugnol, dom Paulo Moretto e dom Neri José Tondello. Também estudaram lá o ex-prefeito Mario Vanin, o governador José Ivo Sartori, o escritor José Clemente Pozenato, o filósofo Jayme Paviani, o ex-secretário da Cultura João Tonus e o ex-reitor da UCS Isidoro Zorzi.

:: Adolescentes interessados em seguir vida religiosa podem contatar o padre Lucas Mazzochini, pelo telefone (54) 99918-0050.

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