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Saúde 23/08/2018 | 17h30Atualizada em 23/08/2018 | 17h30

Pacientes reclamam da falta de anticoncepcional injetável na rede pública de Caxias

Remédio é indicado para mulheres que têm intolerância ao comprimido, e também é usado para prevenir a gravidez em moradoras de rua e dependentes químicas

Pacientes reclamam da falta de anticoncepcional injetável na rede pública de Caxias Felipe Nyland/Agencia RBS
Maria Regina de Melo Ferreira, 56, tem uma filha de 18 anos que toma anticoncepcional via oral, que também estava em falta Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

O anticoncepcional medroxiprogesterona suspensão injetável está em falta na rede pública de saúde de Caxias do Sul. A ausência do medicamento contraceptivo afeta centenas de pacientes que dependem da aplicação mensal da medicação para a prevenção da gravidez. O remédio é indicado para mulheres que têm intolerância ao anticoncepcional em comprimido, e também é usado para prevenir a gravidez em moradoras de rua e dependentes químicas. 

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Uma jovem de 19 anos, que tem a identidade preservada pelo Pioneiro, é moradora da zona norte da cidade e conta que tentou  retirar a medicação, mas foi informada que a injeção estava em falta na farmácia da unidade básica de saúde (UBS) do bairro onde mora.

— O funcionário que me atendeu disse que eu não iria encontrar o medicamento nos postinhos, e teria de comprar na farmácia.  Estou desempregada, pedi dinheiro emprestado para uma vizinha, mas e quem não tem como comprar? Tenho medo que as  meninas aqui da região acabem engravidando antes da hora — desabafa. 

A dona de casa Maria Regina de Melo Ferreira, 56, tem uma filha de 18 anos que toma anticoncepcional via oral. Ela conta que há meses os pacientes que buscam atendimento na UBS Vila Ipê enfrentam a falta de remédios, entre eles, antibióticos, omeprazol e xaropes. 

—  Tirar esse dinheiro do bolso todo mês deixa o orçamento da casa ainda mais apertado. Há quatro meses enfrentamos o mesmo problema. O anticoncepcional da minha filha eu consegui comprar, mas estou assustada com o que pode acontecer com as meninas que não têm como comprar, porque o risco de ter bebê antes da hora é sério. 

Para profissionais que atuam na rede pública de saúde, a falta de anticontraceptivos acende um alerta, principalmente em áreas mais vulneráveis de Caxias do Sul. Um médico que prefere não se identificar desabafa sobre o dia a dia dentro das UBSs:  

— É uma situação muito grave. A falta dos anticoncepcionais injetáveis nos deixa apreensivos porque a medicação é administrada de três em três meses, e que já há algum tempo não é reposto. A equipe monitora essa prevenção e se uma das pacientes falta no dia da administração, no outro dia temos de fazer a busca para aplicar a injeção, senão teremos mais uma gravidez indesejada. No momento em que falta essa medicação, temos de mudar para o mensal, que daqui a pouco também vai estar faltando. Pode imaginar a tragédia que será, com dezenas de novas meninas grávidas? Muitas são adolescentes. O estoque na UBS de um mês normalmente acaba antes de 15 dias. E demoram para repor _ lamenta. 

Ele afirma que a situação se agravou no último ano: 

— Temos de pedir sempre reposição de estoque, que às vezes é demorada e (o remédio) pode estar em falta no almoxarifado. Em 20 anos não tinha vivido uma situação como agora. É muito empurra-empurra. 

Alternativas

Na falta da injeção na rede pública, a recomendação médica é procurar um ginecologista para saber se pode tomar o comprimido, ainda que temporariamente. Se não for possível a consulta, as soluções seriam uso de camisinha ou abstinência de relação sexual. 

O que diz a Secretaria Estadual da Saúde:

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde informa que o anticoncepcional chegou recentemente do Ministério da Saúde, depois de um período sem entregas. Segundo a assessoria de comunicação da pasta, houve problemas no processo de compras do Ministério e os municípios com estoques maiores foram os tiveram menos problemas, já que a falta de remédios ocorreu em todo o país. A secretaria informa ainda que está contatando os municípios e providenciando as remessas. A situação deverá estar regularizada até o final do mês. 

O que diz a Secretaria Municipal da Saúde:

Em nota, a assessoria de comunicação esclarece que desde fevereiro Caxias do Sul não recebe a remessa mensal, e por isso o município comprou o anticoncepcional, por meio do sistema de registro de preços. A quantidade calculada para essa modalidade foi suficiente para cerca de três meses. Como a remessa não é feita há seis meses, a prefeitura já comprou e distribuiu o que havia registrado, e agora há uma nova licitação em andamento para atender à demanda. A previsão é que o recebimento ocorra em outubro. 

A SMS esclarece ainda que esse medicamento faz parte do programa Farmácia Popular e pode ser comprado com desconto na rede conveniada (custa cerca de R$ 30, nas farmácias consultadas pela reportagem). Há ainda a possibilidade de substitui-lo, desde que prescrito pelo médico. Porém, os anticoncepcionais são todos enviados  pelo Ministério da Saúde, via Estado, e a situação é a mesma com os demais, ou seja, o Estado não está recebendo e repassando os remédios. 

A reportagem conversou ainda com a diretora técnica da Assistência Farmacêutica da Secretaria da Saúde, Janaína Negri. Ela explica que o município mantém o investimento na compra de medicações, mas sofre o impacto do mercado: 

— Dependemos de licitação e muitas vezes o processo é demorado. A compra está feita, temos o dinheiro reservado, mas os medicamentos não estão no estoque — afirma. 

Também faltam: 

Medrox (tratamento hormonal)
Metronidazol (antiparasitário)
Clonidina (urgências hipertensivas)
Levonosgestrel (anticoncepcional)

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