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Crimes03/08/2018 | 20h49Atualizada em 03/08/2018 | 20h49

Após chacina, silêncio impera em bairros violentos de Caxias

De julho de 2017 a agosto de 2018, 18 homicídios foram registrados no Primeiro de Maio

Após chacina, silêncio impera em bairros violentos de Caxias Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS
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Embora o bairro Primeiro de Maio não tenha sido o cenário das seis mortes de quinta-feira, no dia seguinte aos crimes o clima era de medo. Primeiro, porque a própria polícia sabe que o local é dominado por uma facção criminosa rival da que atua no outro lado da cidade. A própria chacina registrada no Planalto, inclusive, seria a resposta de traficantes a recentes assassinatos cometidos no Primeiro de Maio. No dia 29 de julho, Tiago Cristian Oliveira Alves, 31 anos, foi executado e teve o corpo queimado por criminosos. Dois dias depois, Maicon Antônio Kuver, 17, foi assassinado com cerca de 60 tiros. Ambos os crimes ocorreram na Rua Antonios Nakhoul El Andari.

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Na manhã de sexta-feira, a lei do silêncio imperava no bairro e ninguém aceitou conversar com a reportagem pessoalmente. A movimentação tranquila de ruas e becos, forçada principalmente pela chuva, não escondia olhares  desconfiados dos moradores, que vivem uma rotina de insegurança e pavor diante dos constantes assassinatos.

De julho de 2017 a agosto de 2018, 18 homicídios foram registrados no Primeiro de Maio. Somente neste ano, já foram 10. Os números tornam o bairro o mais violento de Caxias nos últimos dois anos. 

– Estamos todos apreensivos e preocupados com a segurança das crianças e das famílias de bem. Temos muitos trabalhadores, muitos jovens, gente pobre. Nossas igrejas pedem paz, nossa comunidade tem medo de sair das casas – comentou, por telefone, um dos moradores que preferiu não se identificar.

O próprio período em que os assassinatos foram registrados aponta para uma onda de violência. Entre janeiro de 2016 e julho de 2017 (período antes do início das execuções), o bairro contabilizou uma morte. 

Os trechos disputados pelas facções são evitados pela maioria dos moradores, entre eles pontos nas ruas Irineu Braga, Ferdinando Bedin e Antônios Nakhoul El Andari. Esses locais, coincidentemente, foram os principais cenários das execuções decorrentes da guerra do tráfico.

Moradores se calam diante da violência

Assim como ocorreu no Primeiro de Maio, a lei do silêncio imperava entre os moradores do bairro Planalto na sexta-feira pós-chacina. Na viela de chão batido, conhecida como Beco da Esperança, palco das quatro mortes na noite de quinta, os olhares desconfiados nas janelas e portas entreabertas denunciavam o medo de dar qualquer informação à reportagem e acabar vítima dos traficantes por falar sobre os crimes. 

As mortes de José William Oliveira Machado, 23 anos, Tatiane Vidal dos Santos, 19, Emerson Luiz da Cruz Ferreira, 39, e Cassia Valadão dos Santos, 21, grávida de oito meses, deixaram os moradores ainda mais desconfiados, e qualquer movimentação é observada de perto pela facção que comanda o tráfico de drogas naquela região, e é rival ao grupo que atua no Primeiro de Maio. 

O presidente da Associação de Moradores (Amob) Planalto, Edison Borges, mora há 45 anos no bairro. Ele demonstra indignação com a violência e lamenta a morte, principalmente de jovens, no bairro:

 — A sensação é de insegurança. Circulamos no bairro e não temos como saber em que momento vão ocorrer essas abordagens. Vamos ao mercado, levar e buscar as crianças na escola e, no meio de um ataque desses, muitos inocentes podem morrer. Os moradores estão inseguros e tristes, porque são muitos jovens que estão morrendo. 

A situação de vulnerabilidade social, segundo ele, leva os jovens para a criminalidade.

– A nova geração que mora no Planalto está desassistida. Tanto os que moram aqui quanto os que cometem os crimes. Todo mundo perde. Nosso bairro é bom de viver, mas precisamos de políticas públicas e de ações de prevenção na nossa região. É um bairro de pessoas honestas e trabalhadoras, e esses jovens estão perdendo a vida de forma violenta. Eles estão vulneráveis e o poder público não investe em ações que incentivem essas crianças. Não tem programas, esportes, não tem nada – desabafa. 

 
 
 

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