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Mobilidade19/07/2018 | 08h00Atualizada em 19/07/2018 | 08h00

Movimento quer melhorias na estrutura para ciclistas em Caxias do Sul

Pedala Caxias se articula com a prefeitura para conseguir mais segurança para quem opta pela bicicleta

Movimento quer melhorias na estrutura para ciclistas em Caxias do Sul Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Da esquerda para a direita: o publicitário Jerônimo Galvan, 25, e os arquitetos Karoline Turcatti, 27, Morgana Chedid, 29, Gabriele Salvi, 30, e Adriano Tomasi, 28, formam o Pedala Caxias Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Após anos praticamente sem avanços na estrutura cicloviária de Caxias do Sul, o último mês veio com novidades para quem anda de bicicleta no município. Em junho, a prefeitura anunciou a construção de uma ciclovia de 1,7 km de extensão na BR-116 em Ana Rech. 

No início deste mês, de uma reunião do secretário de Trânsito, Transportes e Mobilidade, Cristiano de Abreu Soares, com o movimento Pedala Caxias — que encaminhou um abaixo-assinado com 7,5 mil assinaturas solicitando a implantação de ciclovias — saiu a ideia de criar faixas compartilhadas, vias com pintura e sinalização indicando que devem ser usadas por carros e bicicletas, algo inédito para Caxias. A previsão da secretaria é ter as primeiras faixas pintadas até o verão. 

O número de interessados no assunto e a possibilidade de se ter uma estrutura relevante para bicicletas ainda neste ano chamam a atenção em uma cidade que historicamente prioriza os carros ao investir em mobilidade.

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A ideia do abaixo-assinado surgiu em reunião anterior com o secretário de Trânsito, conforme o ciclista e executivo Carlos Zignani, 72 anos. Integrante do Grupo Pedal Livre, Zignani faz longos percursos de bicicleta há uma década e, após experiências no exterior, começou a se perguntar sobre a falta de infraestrutura para o modal. Na conversa, o secretário revelou que a prefeitura tinha planos para as bicicletas, mas era necessário verificar se havia demanda para justificar os investimentos.

— Saímos de lá com uma meta de conseguir 5 mil assinaturas, achando que era coisa de outro mundo. Mas, quando a gente largou as primeiras listagens, a adesão foi incrível, com muitas pessoas pedindo para assinar — conta. 

O documento foi distribuído entre academias, lojas de artigos esportivos e grupos de ciclismo. A ação acabou chamando a atenção da arquiteta Karoline Turcatti, 27. Ciclista e corredora frustrada com as poucas possibilidades de Caxias, decidiu fazer mais do que contribuir com a assinatura: entrou em contato com os arquitetos Adriano Tomasi, 28, Morgana Chedid, 29, Gabriele Salvi, 30, e o publicitário Jerônimo Galvan, 25, para encontrar maneiras de divulgar e fortalecer a iniciativa.

— A gente tem capacidade técnica, tem vontade e tem um mesmo sonho de cidade. Pensei em parar de reclamar e passar a fazer alguma coisa — aponta Karoline.

Nascia, oficialmente, o Pedala Caxias.

— Foi aí que a gente sentou e viu que podia realmente fazer algo. Primeiro demos o nome e criamos o logo. Pensamos em algo que realmente sintetizasse o que a gente quer. Pensamos em mobilidade, em compartilhar, mas o que a gente quer mesmo é que Caxias pedale, então Pedala Caxias — justifica. 

Em menos de 30 dias, atingiram a marca de 7,5 mil apoiadores e decidiram que era suficiente para mostrar que há, sim, gente disposta a usar a bicicleta como meio de transporte na cidade. 

Conviver, compartilhar, incentivar e conscientizar

Tentativas de conseguir algum investimento do poder público em ciclovias não são novas em Caxias. Desde o governo de José Ivo Sartori (MDB) e durante a administração do ex-prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT), o Movimento Massa Crítica organizava manifestações e chegou a encaminhar projetos, mas não houve avanços significativos. Karoline confia, porém, que desta vez será diferente. O Pedala Caxias aposta no contato direto com a Secretaria de Trânsito e no objetivo maior de conscientizar toda a população, e não apenas mobilizar quem já é ciclista.

— A gente tem de pegar a pessoa que nunca andou de bicicleta e fazê-la entender que a pessoa que está de bicicleta é uma que não vai estar no carro na tua frente, te atrapalhando no trânsito — exemplifica. 

O publicitário Jerônimo Galvan acrescenta ter visto, nas redes sociais, pessoas apoiando a causa  mesmo não sendo ciclistas:

— Atingir essas pessoas talvez seja a grande diferença — reforça.

A ideia é utilizar, justamente, as redes sociais como canal de comunicação para conscientizar a população sobre a importância de ocupar a cidade e compartilhar o trânsito, como explica o manifesto publicado pelo grupo na página criada no Facebook, que até esta quarta-feira contava com 544 curtidas. 

— Queremos conscientizar (as pessoas) para incentivar (o uso da bicicleta), conviver com a cidade e compartilhar o trânsito. A gente está preso, limitado ao carro, ao ônibus, ou ao nosso medo de andar de bicicleta — declara Karoline.

A iniciativa embrionária já vem dando resultado: após a entrega do abaixo-assinado, o movimento e a prefeitura saíram com tarefas para que iniciativas sejam postas em prática já até o fim do ano. O Pedala Caxias ficou de articular os grupos de ciclistas da cidade — mais de 30 já foram catalogados — para descobrir, em conjunto, quais são as rotas mais usadas hoje. Após essa definição, a prefeitura deve sinalizar as primeiras faixas compartilhadas, começando por rotas no interior de Caxias, usadas nos fins de semana.

— Vamos ser um elo entre os grupos de ciclismo e a prefeitura. Queremos utilizar a força dos ciclistas para  que esse investimento seja feito em rotas que já estão consolidadas — explica o arquiteto Adriano Tomasi.

Luta é por mais segurança


Após a sinalização das primeiras vias compartilhadas, o desafio é trazer o conceito para o centro de Caxias. Conforme os integrantes do Pedala Caxias, a falta de segurança no trânsito é o grande impeditivo para que as pessoas utilizem a bicicleta como meio de transporte. 

— Eu pedalo, mas em fim de semana porque eu tenho medo. Eu sinto que a gente ainda não tem segurança. E é por isso que a gente está lutando, para poder ocupar a cidade de bicicleta — relata a arquiteta Gabriele Salvi. 

Com a sinalização das faixas compartilhadas, a ideia é que o ciclista se sinta mais seguro para ocupar um espaço que, por lei, já é dele. Com a conscientização dos motoristas, para Karoline Turcatti, a presença de ciclistas aumentará, o que pode ser um primeiro passo para a mudança de direção das políticas públicas para o trânsito. 

— As políticas públicas sempre incentivaram o carro. Vai ser um caminho lento, mas em algum momento a gente vai pensar que não tem mais só a opção do carro, que eu posso ir de bicicleta — diz.  

Pensar em mais segurança para os ciclistas, segundo ela, também é primeiro passo para uma cidade menos perigosa: 

— A gente quer ocupar a cidade. Cansamos de uma cidade vazia. Quero que a cidade seja povoada, iluminada, e acho que uma coisa leva outra. Não adianta dizer que Caxias é assim e Madri é legal, por exemplo. A gente quer que Caxias seja legal também. 

AÇÕES PREVISTAS

:: O primeiro passo é formar um comitê com todos os representantes de grupos atuantes na cidade e definir quais são as ruas que devem receber investimento público.  

:: As faixas compartilhadas devem começar a ser sinalizadas no interior, em rotas que já são usadas nos fins de semanas. Inicialmente, são considerados trechos na Terceira Légua, Vale Trentino, Linha 30, Linha 40, Estrada do Imigrante e Estrada do Vinho. Não estão descartadas vias compartilhadas que liguem essas rotas ou que partam de pontos centrais de Caxias. 

:: Com as rotas definidas, a sinalização, com placas e pintura na pista, deve ser iniciada no verão.

:: Até lá, o Pedala Caxias quer empreender ações nas rotas já definidas, envolvendo empreendedores locais. Caso se verifique que os ciclistas costumam usar um posto de combustíveis como ponto de encontro, por exemplo, é possível incentivar a instalação de um bicicletário a partir da garantia de movimento constante no estabelecimento e geração de renda. Futuramente, as rotas ciclísticas podem ser indutoras do turismo em vinícolas da cidade, como ocorre em países como Uruguai, Chile e Argentina. 

:: Em seguida, a ideia é trazer faixas compartilhadas para o centro de Caxias. Ainda não há caminhos definidos, mas o grupo fala em compartilhar a faixa de ônibus na Rua Sinimbu, por exemplo. A Rua Ernesto Alves também foi apontada como ideal, já que possui trecho considerável sem subidas. Também há o sonho de ter um espaço para andar de bicicleta na Avenida Júlio de Castilhos.

:: As rotas com demanda mais expressiva, conforme a Secretaria de Trânsito, poderão virar futuras ciclofaixas (vias exclusivas para ciclistas) ou ciclovias (vias exclusivas com proteção física dos carros).

Para ajudar

O movimento Pedala Caxias está aberto a sugestões, ajuda e parcerias com a iniciativa privada. Para entrar em contato com o grupo é só procurar pelo nome Pedala Caxias nas redes sociais. 

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