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Saúde 30/07/2018 | 08h00Atualizada em 30/07/2018 | 08h00

Mortes por gripe A seguem crescendo em Caxias 

Cidade já registra oito vítimas fatais, perto do recorde desde o aparecimento do H1N1 em 2009

Mortes por gripe A seguem crescendo em Caxias  Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Valtoir do Santos, 62 anos, fez a vacina da gripe mas, há uma semana, sofre com dores no corpo e febre alta Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A morte de um líder comunitário na semana passada elevou para oito o número de mortos em decorrência de gripe em Caxias do Sul. Na Serra, são 14 casos. A vítima mais recente da influenza na cidade é Dante Pinguello, 62 anos, presidente da Associação de Moradores de Bairro (Amob) Diamantino. Ele não resistiu aos 13 dias internado na unidade de tratamento intensivo (UTI) e morreu na noite da última terça-feira, dia 23 de julho. Em razão de a gripe não estar sendo levada a sério pela população, as estatísticas mostram que 2018 encosta em 2016, ano em que houve o maior número de mortes (nove) desde o aparecimento da epidemia do vírus H1N1 (gripe A), em 2009. 

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— A proteção contra a influenza ocorre apenas através da vacina. Quanto menor a cobertura vacinal, maior é a população desprotegida. Por isso, ocorreram tantos casos como agora. As pessoas não buscam mais vacinas, seja de qualquer cobertura. Quando o Ministério da Saúde indica que o grupo de risco deve fazer a vacina e ele não faz, as pessoas vulneráveis que contraírem o vírus terão o estado de saúde ainda mais agravado — explica a coordenadora da Vigilância Epidemiológica de Caxias, Juliana Argenta Calloni.

Como não há mais vacinas contra a gripe disponíveis em clínicas particulares nem em postos de saúde — estima-se que 126 mil pessoas tenham sido imunizadas na rede pública —, a orientação é que a população redobre os cuidados para evitar que as crises respiratórias se agravem. E engana-se quem pensa que o frio torna o vírus da gripe mais resistente: na verdade, no inverno, as doenças respiratórias se multiplicam porque as pessoas se aglomeram em ambientes fechados, o que facilita a transmissão. Por isso, cuidados básicos de higiene se tornam importantes aliados no combate à gripe. Higienizar com frequência as mãos com água, sabão ou álcool gel é fundamental, além de auxiliar no combate a outras doenças de fácil transmissão.  

— O ato de proteger o nariz e a boca ao espirrar ou tossir é importante, além do ato de lavar as mãos. A principal forma de contato é através das mãos. Nós não sabemos como estão as superfícies que tocamos e, com frequência, as levamos à boca, aos olhos. Este cuidado serve para combater todos os tipos de vírus respiratórios. São hábitos que devemos ter sempre — afirma Juliana.

Em 2018, o predomínio dos casos no Rio Grande do Sul está sendo do influenza A (H1N1), mesmo tipo que ocorre em maior escala em Caxias: sete das oito vítimas foram mortas por esta cepa do vírus. 

Comportamento mudou, mas atendimento segue imprescindível

A gripe A chegou em 2009, causando pânico diante da ação de vírus desconhecido que atacava em todo o país. A rotina de boa parte das pessoas mudou durante aquele inverno. Escolas e faculdades suspenderam aulas, a população passou a fazer uso habitual de máscaras, e a prefeitura improvisou até um hospital emergencial no Centro, que atendia exclusivamente a casos de gripe. Foram pelo menos seis mortes suspeitas naquele ano - não foi possível sequer contabilizar todas as vítimas fatais diante da dificuldade de comprovar de forma laboratorial a doença. 

Em 2018, quando Caxias registra um número ainda mais expressivo de óbitos, não se percebe um cuidado tão grande por parte da população —neste ano, por exemplo, a campanha de vacinação terminou com 76,86% do público-alvo imunizado (foram 96.743 doses, abaixo dos 90% da meta), sendo que crianças e gestantes tiveram a menor adesão: menos de 50% deles se vacinaram. 

Essa despreocupação, porém, seria natural diante do conhecimento mais aprofundado que especialistas têm hoje sobre o vírus, analisa a coordenadora da Vigilância Epidemiológica, Juliana Argenta Calloni. 

— Hoje, nós temos estabelecidas medidas de prevenção que não existiam até então, e, no início, não era conhecida a forma de transmissão do vírus. A população sentia muito medo — avalia.

O uso de máscara era comum, inclusive, em velórios de pessoas com suspeita de gripe. Outra medida da época — suspensão de aulas — também não seria mais necessária, analisa Juliana. Segundo ela, hoje, quando uma criança está gripada, o indicado é que ela fique 14 dias afastada do convívio escolar, tempo em que poderá transmitir o vírus. O adulto, por sua vez, transmite a influenza por até sete dias. No Sistema Único de Saúde (SUS), as unidades básicas de saúde (UBS) são a porta de entrada para buscar atendimento, o que é essencial. 

—  Se a pessoa não está bem e não encontra médico naquele momento na UBS, ela deve informar o quadro imediatamente à equipe do posto, que fará o encaminhamento correto. Muitas vezes, a pessoa só pergunta pela vaga e, com a negativa, nem espera pela triagem, desiste de atendimento. Em casos graves, ela será encaminhada, independentemente se não tem médico na UBS_ explica Eliane Prieri, do setor de atenção básica da Secretaria Municipal de Saúde. 

As 47 UBSs de Caxias funcionam das 7h30min às 16h30min, e contam também com medicações para controle da gripe A, como o fosfato de oseltamivir, que são encaminhadas aos pacientes quando prescritas pelo médico. 

Sintomas e demora para buscar ajuda

O diagnóstico precoce da gripe A é um aliado fundamental na recuperação do paciente, principalmente, considerando que os primeiros dois dias são essenciais para o tratamento de quem está com o vírus. Contudo, mesmo com a campanha de vacinação e o alerta dos especialistas para que as pessoas fiquem atentas aos sintomas, que são diferentes de um resfriado comum, geralmente com dores no corpo e febre, ainda há pacientes que demoram para buscar atendimento. O aposentado Valtoir do Santos, 62 anos, fez a vacina da gripe mas, há uma semana, sofre com dores no corpo e febre alta. Somente neste domingo pela manhã decidiu procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Norte para consultar. 

—  Os sintomas da gripe começaram há uma semana. Tenho muita dor no corpo, tontura, não consigo comer e a febre estava bem alta. Está é a primeira vez que tenho gripe desde que comecei a fazer a vacina — contou ele. 

Diagnosticado com pneumonia e com alteração nos exames de sangue e no raio X, Santos aguardava internação hospitalar para seguir o tratamento. Situação semelhante enfrentava a aposentada Maria Domadi, 76. Segundo ela, os sintomas começaram há mais de uma semana.

— Me sinto muito mal e estou com febre muito alta e tosse. Fiz a vacina da gripe, mas dessa vez ela me pegou e como os sintomas não passaram e a febre não baixava, decidi vir ao médico _ disse, enquanto aguardava consulta.

Já para a cuidadora de idosos Cátia Fouchy, 35, a febre alta da filha Ketelyn Fouchy Neugebauer, três, soou como um alerta: era melhor buscar atendimento logo. 

— Ela teve febre de 40°C e baixou para 38,5°C. Está abatida e com o nariz escorrendo. Trabalho com idosos e estamos sempre atentos à gripe. Então, quando ela tem febre, procuro o pediatra, porque temos muito medo da gripe A — analisa. 

Vítimas sem vacinação são maioria

Das oito vítimas que morreram por gripe A em Caxias, apenas duas eram vacinadas. Entre os casos de pessoas não imunizadas está o líder comunitário Dante Pinguello. Febre alta persistente, dores no corpo e falta de ar fizeram o idoso procurar atendimento médico. Pinguello foi atendido e chegou a ficar hospitalizado por um dia. Segundo a filha dele, Sindiane Pinguello, diante de uma suposta melhora dos sintomas, o médico indicou que o idoso poderia voltar para casa. Porém, a febre alta, junto com os demais sintomas, voltou a aparecer. Três ou quatro dias depois, a família buscou atendimento novamente. Desta vez, com dificuldades respiratórias graves, Pinguello foi baixado e precisou ser entubado. Dali, seguiu para a UTI.

— Acredito que houve falha no diagnóstico, porque ele ficou muito tempo com febre. Meu pai não admitiu para mim que não tinha feito a vacina. Ele sempre me dizia que tinha feito, mas o pessoal da UBS comentou comigo que ele resistia à vacina há muitos anos — lamenta Sindiane.

Além de líder comunitário, Pinguello era sócio de uma empresa de implementos agrícolas, negócio que confiava também à filha. A dor de perder o pai e companheiro fica ainda maior por saber que poderia ter sido prevenida com a vacinação.

—  Eu entrei em desespero quando soube que ele não tinha sido vacinado. Ele estava sempre gripado, precisava da vacina. Na verdade, agora vemos que todos nós precisamos — desabafa.

O diagnóstico de H1N1 no idoso foi detectado por meio de exame realizado no hospital onde ele estava internado. A Secretaria Municipal de Saúde confirma o quadro e deve incluir o caso no levantamento semanal de influenza que será divulgado nos próximos dias. 

AS VÍTIMAS

Mulher de 48 anos, não vacinada, com obesidade (influenza H1N1).

Mulher de 56 anos, não vacinada, imunodeficiente (influenza H1N1).

Mulher de 77 anos, vacinada, pneumopata (influenza H1N1).

Homem de 33 anos, não vacinado, sem fatores de risco (influenza H1N1).

Mulher de 69 anos, não vacinada, diabética e com insuficiência renal crônica (influenza H1N1).

Homem de 66 anos, vacinado, pneumopata e hipertenso, em uso de oxigênio domiciliar (influenza A, H3N2 sazonal).

Homem de 49 anos, não vacinado, com obesidade (influenza H1N1).

Homem de 62 anos, não vacinado, com obesidade (influenza H1N1).

TIRE SUAS DÚVIDAS

Por que não temos casos no verão no Rio Grande do Sul?

Porque a circulação do vírus é menor. Ele circula mais no inverno porque é a época em que estamos mais confinados, porque nosso inverno é rigoroso. Nesse período, a mucosa das vias aéreas fica mais seca e, com isso, mais suscetível. A chance de se contaminar com um vírus que está no ambiente ou de outra pessoa é mais fácil.  

O vírus sofrem mutação a cada ano?

Sim. As mutações ocorrem anualmente, mas são pequenas. Como as vacinas são feitas a partir das nova cepas, uma pequena mutação não deve interferir no resultado da imunização.

As pessoas que estão com sintomas respiratórios necessitam tomar o fosfato de oseltamivir?

Os casos são avaliados individualmente. Pessoas dos grupos de risco e os casos mais graves, sim. Pessoas com boas condições de imunidade, não. Lembrando que medicamento, que deve ser usado nas primeiras 48 horas em que aparecem os sintomas, só deve ser usado com prescrição médica. O remédio não mata o vírus, ele impede que o vírus se multiplique, reduzindo a duração dos sintomas, da gravidade da doença e da incidência de complicações associadas à gripe.   

Quem já teve gripe A em anos anteriores pode ter de novo? Se sim, será com a mesma intensidade?

Sim, pode. Não se sabe com certeza a intensidade.

Quais as medidas que as pessoas podem fazer em suas casas e que ajudam a proteger contra a influenza?

A população deve manter os cuidados para prevenir a contaminação sempre porque o vírus continua circulando. Entre eles, higienizar frequente as mãos com água e sabão ou álcool gel a 71%, secar mãos e punhos com papel-toalha descartável, evitar contato com as torneiras, usar lenço descartável para higiene nasal e, ao tossir ou espirrar, cobrir nariz e boca. Além disso, é importante evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca, não dividir objetos de uso pessoal, como toalhas de banho, talheres e copos, e evitar aglomerações. 

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