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Ensino Fundamental - Parte 126/07/2018 | 09h30Atualizada em 27/07/2018 | 10h41

Cem alunos ainda estão fora da escola em Caxias do Sul

Setenta estudantes que não conseguiram vagas perto de casa devem iniciar as aulas no dia 6 de agosto

Cem alunos ainda estão fora da escola em Caxias do Sul Lucas Amorelli/Agencia RBS
Família de Maria Eduarda (à esquerda) , aguarda ansiosa pela volta às aulas, após dois meses de espera Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

O primeiro semestre do ano letivo já terminou e ainda há, pelo menos, 100 estudantes de Ensino Fundamental fora da escola em Caxias do Sul, conforme estimativa da Central de Matrículas. Eles até conseguiram vagas na rede pública, mas em escolas muito distantes do lugar onde vivem e não têm condições de chegar até as instituições.

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Parte 2: Para 2019, meta é trazer os alunos para mais perto de casa em Caxias
Parte 3: Impasse sobre responsabilidade pelo Ensino Fundamental impede novos investimentos em Caxias 

Para 70 deles, porém, a espera está próxima do fim. Estado e município entraram em acordo para abrir três novas turmas de 1º, 2º e 3º ano na Escola Estadual Dante Marcucci, no bairro Cinquentenário. As crianças residem nas regiões dos bairros Desvio Rizzo e Esplanada, onde não há mais vagas nas escolas. Por isso, o transporte até o local será custeado pela prefeitura. Eles iniciarão as aulas no dia 6 de agosto, na volta das férias de inverno.  

A solução foi encontrada depois de diversas reuniões para discutir o problema, que há anos é acompanhado pelo Ministério Público (MP). Em 2017, por exemplo, a promotora Simone Martini ajuizou 22 ações que garantiram o transporte escolar gratuito ou vaga em escola em até dois quilômetros de casa para 284 alunos. 

Para tentar antecipar a resolução dos problemas, o grupo de trabalho formado pela 4ª Coordenadoria Regional de Educação (Cre), município e Conselho Municipal de Educação sugeriu ao governo do Estado alterações no sistema de destinação de vagas. A expectativa é que, em 2019, no momento da matrícula, o aluno seja automaticamente inscrito na escola mais próxima de casa, sem possibilidade de escolha. Se ocorrer, porém, a mudança será gradual, para os novos estudantes. 

Neste ano, até o momento, centenas de alunos foram transferidos para escolas mais próximas, às vezes encaixados em turmas já no limite. Fora da esfera administrativa, oito ações tiveram de ser ajuizadas até este mês para conseguir vagas ou transporte para outros 252 alunos. Mesmo assim, a lista de espera por vagas segue com cerca de 100 nomes. Isso ocorre porque, enquanto algumas famílias conseguem vagas, outras se mudam de bairro ou chegam a Caxias, engrossando a fila. 

É o caso de Andreia Patrício, 33. Moradora do São Caetano, ela se mudou com a família para Cambará do Sul no inicio do ano, mas os planos mudaram e ela retornou há cerca de dois meses para o bairro. A filha Maria Eduarda, oito, estudava na Escola Estadual São Caetano, a poucas quadras de casa, mas perdeu a vaga. 

— Eu voltei pedindo a transferência dela para cá, mas não aceitaram. Fui para a Central de Matrículas e fiquei cerca de um mês aguardando.

Cansada da espera, a mãe procurou a 4ª Cre e ali soube da possibilidade da inscrição na Dante Marcucci. Como a escola fica a quase cinco quilômetros de casa e a família não tem condições de levar a filha, o transporte gratuito é a única esperança.

— Em nenhum colégio aqui da redondeza conseguimos vagas. E eu estou fazendo os papeis para começar a trabalhar. É bem complicado — lamenta.

Maria Eduarda, 8, voltou para Caxias há cerca de dois meses e não conseguiu vaga em escola perto de casaFoto: Lucas Amorelli / Agência RBS

Maria Eduarda também está impaciente:

— Não é legal (ficar sem estudar). É chato ficar em casa — opina a menina, que diz sua disciplina favorita é matemática. 

Conforme a Central de Matrículas, o transporte e a vaga para Maria Eduarda estão garantidos. Mesmo com a confirmação da medida paliativa, Andreia espera conseguir uma vaga perto de casa para os próximos anos.

— Com o jeito que está Caxias, tu não vai trabalhar com a cabeça tranquila sabendo que teu filho está num colégio distante. É muito longe daqui, nem sei que bairro é aquele lá. É bem complicado tu mandar teu filho para lá, sabendo que tem escola aqui. Não está fácil — desabafa. 

Para conseguir vaga, pai teve que levar filha para outra cidade

A história de Andreia se repete na boca de outros pais com filhos aguardando transporte gratuito. Para quem se estabelece nas regiões do Rizzo e do Esplanada, a espera por vagas é inevitável.

— Estamos no aguardo, dizem que tem umas 15 crianças na espera no bairro. Estou esperando a liberação da turma (na Dante). O importante é não perder o ano — pontua o soldador Marciano Lopes Leivas, 45, pai de Eloyse, oito, cuja família chegou de Passo Fundo alguns meses atrás.  

Já o açougueiro Eder Ricardo Padilha, 37, teve de fazer o caminho contrário: morador do São Caetano, ele nunca conseguiu vaga na rede pública para a filha Júlia, sete. No ano passado, quando a criança iria para a pré-escola, conseguiu o encaminhamento para uma creche após intervenção do MP. Neste ano, Júlia tinha de, obrigatoriamente, ir para a 1ª série, mas novamente não havia vagas em escolas de Ensino Fundamental.

Com medo de que a filha perdesse o ano, a opção foi tentar a inscrição em outra cidade. Os avós de Júlia moram em Bagé e, com o início das aulas, a família optou por tentar matricular a menina lá.

— A minha esposa foi visitar a família e decidiu ficar lá para ela estudar. Como é uma cidade de interior, foi mais fácil. Era o único jeito. No fim, eu tenho que ficar longe da minha filha, da minha esposa, para ela poder estudar — desabafa.

Para acompanhar a filha, a mãe teve de largar o emprego. Júlia também está na lista para estudar na Dante Marcucci, apesar de morar próximo à Escola Municipal Renato João Cesa. O pai, no entanto, vê a solução com desconfiança.

— Eu acho inseguro colocar minha filha, uma menina de sete anos, dentro de um ônibus com crianças maiores para o outro lado da cidade. Teria que ser perto. Depois daquele caso que aconteceu com aquela menina, a Naiara, tem que ter as crianças perto de casa — pondera.

Padilha se refere ao caso da menina Naiara Soares Gomes, sete anos, morta em março deste ano. Ela foi sequestrada no caminho para a escola. O caso trágico abriu mais espaço no debate público para o problema da falta de vagas em escolas próximas e ainda está presente na memória dos pais da cidade. 

ATUALIZAÇÃO: uma versão anterior desta reportagem apontava que os 70 alunos na fila de espera iniciariam as aulas no dia 31 de julho, na Escola Estadual Dante Marcucci, conforme a previsão de início do serviço de transporte escolar divulgada pela Secretaria Municipal da Educação. No dia 27 de julho, porém, a Central de Matrículas informou que as aulas na instituição retornarão no dia 6 de agosto. A informação foi acrescentada. 

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