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Religião06/06/2018 | 08h05Atualizada em 06/06/2018 | 08h13

Diocese de Caxias do Sul cria hospedagem para abrigar moradores de rua

Local escolhido é o salão paroquial da Igreja São Leonardo Murialdo, no Centro

Diocese de Caxias do Sul cria hospedagem para abrigar moradores de rua  Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

A preocupação com o impacto dos dias frios na população de rua em Caxias do Sul — em abril, por exemplo, cerca de 200 eram acompanhados com regularidade pelo Centro Pop Rua e outros quase 300 que formavam um grupo flutuante de desabrigados — fez com que a Pastoral das Pessoas em Situação de Rua criasse um novo projeto na cidade: a hospedagem solidária. A ação vai além do que os voluntários já fazem hoje — servir sopa, entregar cobertores e escutar as feridas da alma de quem quer apenas ser ouvido — ao oferecer um lugar seguro para o pernoite, com banho quente e alimentação. 

O local escolhido para abrigar temporariamente o público masculino durante a noite é o salão paroquial da Igreja São Leonardo Murialdo, no Centro. Inicialmente, serão atendidas cerca de 50 pessoas. 

A intenção é que a partir do dia 11 de junho, próxima segunda-feira, os moradores já possam ser abrigados no espaço. Eles poderão passar a noite no abrigo, jantar e tomar café da manhã antes de saírem e voltarem à noite. O ginásio do colégio Murialdo estará à disposição dos moradores para banho e higiene. 

A iniciativa vem ganhando a adesão de diversos voluntários que tem se inscrito a cada vez que os padres anunciam durante a missa que o projeto será lançado. A pastoral conta com o apoio das paróquias de Nossa Senhora de Lourdes, São Pelegrino, Catedral, Pio X, Santa Catarina e São Leonardo Murialdo, além de movimentos ligados à Igreja Católica, como a Renovação Carismática e o Seminário São José. A solidariedade uniu também empresários que vão doar alimentos, roupas, cobertores e participar da preparação das refeições. 

Para implantar a Hospedagem Solidária, a diocese buscou assessoria de uma equipe da Fundação de Assistência Social (FAS). Por enquanto, o abrigo funcionará apenas nos meses mais frios, como junho, julho e agosto. Em setembro, será avaliado se irão manter a hospedagem. A abordagem dos moradores será feita pelas equipes do Pop Rua, que é a unidade de referência no atendimento aos moradores de rua e tem ampla experiência ao conversar com esse público. Os voluntários também irão cadastrar os moradores e encaminhá-los a serviços que estejam precisando, como confecção de documentos e atendimentos de saúde, bem como tentar retomar vínculos familiares. 

No espaço também serão desenvolvidas rodas de conversa com informações sobre o cuidado das pessoas em situação de rua, ações relacionadas ao autocuidado, como corte de cabelo e manicure, acesso a TV e material para leitura. Haverá ainda momento de oração e espiritualidade e orientações quanto a outras ações solidárias que atendem pessoas em situação de rua na cidade. 

"Temos a tentação de tornar essas pessoas invisíveis"

Não é uma tarefa fácil tirar as pessoas das ruas e restabelecer vínculos que permitam o retorno ao ambiente familiar. Para o pároco da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, padre Eleandro Teles, a responsabilidade é, em primeiro lugar, do Estado. Porém, é um dever de todos olhar para essas pessoas e estender-lhes a mão: 

— Esse compromisso não é apenas do Estado. É um compromisso da sociedade não permitir que essas pessoas se tornem invisíveis. Diz respeito a todos nós porque trata-se do cuidado com o ser humano. Temos a tentação de tornar essas pessoas invisíveis, de virar o rosto para o lado e seguir em frente. Não podemos fazer isso, temos de dar a elas a dignidade, esse resgate é essencial.

Segundo o padre, não bastar ir à missa e rezar sem colocar em prática o Evangelho e seguir os ensinamento da Igreja ao contribuir para que todos tenham uma vida digna. 

— A cada missa cresce o número de voluntários que querem nos ajudar nesse desafio de curar as feridas da nossa sociedade. Todos carregam suas marcas, e nosso papel como Igreja é estender as mão para quem precisa. Não podemos virar para o lado. Jesus nos humaniza e esse é um compromisso da nossa fé. Juntos, temos de lutar pelas pessoas que mais precisam de ajuda. 

Mudanças na política assistencial 

Entre 2017 e 2018, o munícipio deixou de ofertar cerca de 100 vagas para acolhimento da população de rua. No ano passado, 40 foram fechadas com a extinção do Acolhe Caxias para a criação do programa Superação, que estimula as pessoas a deixarem as ruas por meio da capacitação profissional. Em janeiro deste ano, outros 60 lugares deixaram de ser ofertados junto à Casa de Apoio Celeiro de Cristo, que atende pessoas em vulnerabilidade no bairro Reolon, com o fim do convênio com a FAS. A parceria garantia subsídios públicos para custeio de pessoal e manutenção de parte dos serviços de assistência social.

A prefeitura, no entanto, alega que as vagas fechadas não necessariamente impactam no número de pessoas que vivem nas ruas, uma vez que o público que circulava nas casas de passagem nem sempre era de moradores de rua mas, sim, pessoas que estavam em Caxias em busca de emprego ou apenas em trânsito pela cidade. 

Atualmente, a FAS tem duas casas de passagem com 74 vagas para abrigar que vive nas ruas. Contudo, a demanda por vagas aumenta a cada dia em função do crescimento do desemprego e do déficit habitacional. A diretora de Proteção Social da FAS, Ana Maria Pincolini, afirma que hoje há 37 pessoas acolhidas na Casa Carlos Miguel e 31 na São Francisco, mas reconhece que há um aumento visível de pessoas em situação de rua.

— A redução de programas sociais, a revisão de benefícios e o corte de repasses acaba aumentando o número de pessoas que vivem em situação de rua. Há cidades da região que tiveram que reduzir os serviços e isso impacta diretamente em Caxias do Sul. Percebemos um aumento no número de crianças e adolescentes nas ruas também, e isso é reflexo dessa situação que atinge todo o país —  analisa. 

Ela defende a prevenção como forma de mudar essa realidade:

— A pessoa demora um tempo até chegar na rua, e o caminho inverso é ainda mais longo. Temos que investir em prevenção e trabalhar o antes, para evitar que as pessoas cheguem às ruas, de onde é muito mais complicado tirá-las. Elas tem resistência. O que leva uma pessoa a rua? Esse é o nosso desafio. Talvez se tivéssemos mais casas de passagem e todas estivessem lotadas, o problema não estaria sendo resolvido na raiz. A hospedagem solidária irá se somar aos esforços do poder público para atender essas pessoas em situação de rua. Nós valorizamos esse projeto e vamos contribuir com nossa experiência e nosso conhecimento — destaca Ana Maria. 

A prefeitura está mapeando trabalhos realizados por outros grupos no município, por meio do serviço de abordagem social. Esse mapeamento será usado para conhecer o público, conversar com essas pessoas e trocar informações, bem como colocar essas iniciativas em prática pelo bem dos moradores de rua. Será repassado a eles no abrigo temporário os serviços da prefeitura disponíveis à população, como psicólogos, assistentes sociais e atendimento de saúde por meio do Consultório de Rua.

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