"Começou a cair as pedras e aí vem o horror, o temor, o medo", disse moradora de Muitos Capões - Geral - Pioneiro

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Tempestade30/06/2018 | 14h32Atualizada em 30/06/2018 | 16h03

"Começou a cair as pedras e aí vem o horror, o temor, o medo", disse moradora de Muitos Capões

Prefeitura de Muitos Capões decretou estado de emergência após chuva de granizo que danificou mais de 100 casas nesta sexta-feira

"Começou a cair as pedras e aí vem o horror, o temor, o medo", disse moradora de Muitos Capões Diogo Sallaberry/Agencia RBS
João da Silva, 54 anos, e o filho Daniel, 24, aproveitaram o tempo seco para consertar o telhado atingido pelo granizo Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Os moradores de Muitos Capões ainda se recuperam do susto provocado pela forte chuva de granizo que atingiu o município na tarde desta sexta-feira. A prefeita Rita de Cassia Campos Pereira (DEM) decretou estado de emergência na manhã deste sábado e abriu as portas da prefeitura às 8h para cadastrar àqueles que precisam de ajuda para trocar os telhados. A chuva de pedras chegou ao município por volta das 17h30min de sexta. A precipitação de granizos se intensificou, e por cerca de dez minutos as pedras, apesar de pequenas, danificaram os telhados de 1oo residências.

Os estragos não foram tão sérios quanto os de agosto do ano passado, quando o interior de Muitos Capões foi atingido e mais de 100 famílias ficaram desalojadas. Tampouco foi devastador como o tornado que varreu a cidade em 29 de agosto de 2005, quando ventos de 110 quilômetros por hora deixaram um rasto de destruição e a forte chuva de pedras piorou a situação na cidade. Para as famílias, no entanto, o medo e o desespero é o mesmo a cada vez que o céu escurece e a previsão do tempo é de chuva. Sem Corpo de Bombeiros, o socorro cabe a um grupo  da Defesa Civil formado por integrantes da prefeitura que ficam com os celulares de prontidão e estão sempre atentos aos boletins da previsão do tempo. Cerca de uma hora e meia após o temporal, 84 casas já haviam sido cobertas com lonas e a prefeitura estava atenta aos estragos.

A prefeita conta que assim que ouviu as pedras olhou para o relógio e pensou nas crianças que estavam saindo da escola e seriam levadas para o interior:

– No ano passado, o interior foi muito afetado e agora o granizo danificou casas na área central. A prioridade para ajudar será daqueles que tiveram mais estragos. Em seguida, os que têm mais dificuldades financeiras, os mais carentes, e, então, os que têm mais condições.

Ela pede a colaboração da comunidade para trocar as telhas e ajudar na reconstrução dos telhados. Até mesmo em doações de telhas de amianto se puderem ajudar:

– Nossa equipe é pequena, então, aqueles que podem ajudar, principalmente com mão de obra, podem entrar em contato com a prefeitura no 54 3612-2102.

Apesar do medo, confiança para recomeçar 

Os vestígios da queda de granizo podiam ser visto na BR-285 que leva ao município. O trânsito chegou a ficar interrompido durante a chuva e a situação só normalizou por volta das 20h. As pedras cobriram a estrada e a entrada da cidade de branco. Parecia neve. Logo que parou a chuva, as equipes da prefeitura inciaram a entrega das lonas para cobrir as casas danificadas pelo temporal. Os relatos dos moradores são parecidos: medo, apreensão, mas fé de que tudo irá acabar bem. O desespero que domina a cidade é reflexo do tornado. As lembranças ainda estão bem  vivas na memória após quase 13 anos.

 MUITOS CAPÕES, RS, BRASIL, 30/06/2018. Chuva de granizo intensa causa danos em casas em Muitos Capões. Os moradores fizeram fila na prefeitura, durante a manhã, para se cadastrarem entre os atingidos. A área central urbana foi a mais atingida. Na foto, Adão Álvares Ribeiro. (Diogo Sallaberry/Agência RBS)
Aposentado Adão Alvares Ribeiro, 74, é um dos moradores que teve o telhado da casa danificadoFoto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

No caso da funcionária pública Jane Pinto, 55 anos, que perdeu a casa no tornado, basta começar a chover para que o coração dispare.

– Não tem explicação. Começou a cair as pedras e aí vem o horror, o temor, o medo. Começo a andar de um lado para o outro. Em 2005, a Defesa Civil falou que estamos na rota dos tornados e o medo é o mesmo a cada temporal, queda de granizos e ventos fortes – desabafa Jane.

O filho dela o estudante Henrique Pinto dos Santos, 19, conta que até hoje lembra de cada momento do tornado. Por isso, quando a chuva começa, vem com ela a apreensão:

– Foi horrível. Tinha seis anos e lembro de tudo porque perdemos a casa naquela vez. 

Resignação 

O aposentado Adão Alvares Ribeiro, 74,  mora sozinho e é um dos moradores que teve o telhado da casa danificado. As telhas terão que ser trocadas e a equipe da prefeitura está mobilizada para atender a comunidade. Já a dona de casa, Uliana Fagundes, 51, comemorou que o tempo estava claro e assim poderiam começar a trocar as telhas:

– Quando começou já improvisei com as lonas. Temos medo, mas não adianta se abater. Tem que seguir em frente e recomeçar – ressaltou Uliana.

A vizinha dela Cleusa Maria Pereira da Silva, 50, também ajudava o marido João, 54, e o filho Daniel, 24, a trocar as telhas da pequena casa de madeira:

 MUITOS CAPÕES, RS, BRASIL, 30/06/2018. Chuva de granizo intensa causa danos em casas em Muitos Capões. Os moradores fizeram fila na prefeitura, durante a manhã, para se cadastrarem entre os atingidos. A área central urbana foi a mais atingida. (Diogo Sallaberry/Agência RBS)
Moradores fizeram fila na prefeitura, na manhã deste sábado, para se cadastrar para receber telhasFoto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

– Tínhamos comprado telhas há pouco tempo e agora vamos trocar todo o telhado porque foi feio. Essa foi a primeira vez que o temporal destruiu a nossa casa, e tive muito medo, mas me acalmei, porque Deus sempre sabe o que faz – declarou Cleusa.

A dona de casa Izaura Ferreira da Costa, 56, conta que o susto foi grande e só se acalmou quando um dos filhos chegou em casa:

– Se percebo uma nuvem escura e vento já começo a ficar nervosa e não fico sozinha em casa.

Na parte de trás da residência, onde mora a nora dela Tatiana Dutra Sastoldi, 30 anos, as pedras também deixaram estragos:

– Eu estava dirigindo quando começou a chover e entrei na garagem de uma amiga para me proteger, e já imaginei que chegaria em casa e teria estragos, e, realmente, molhou tudo, e quebrou as telhas, mas o pior foi o susto – relatou Tatiana.

Se chove não fico dentro de casa, diz morador de área atingida

José Cláudio da Silva, 63, lembra bem dos estragos deixados pelo tornado na cidade. A casa dele não foi atingida naquela vez, mas foi danificada com a chuva de granizo desta sexta-feira.

– Desde o tornado, mesmo que a minha casa tenha ficado inteira, quando chove eu saio de casa. Prefiro ficar lá fora, porque me sinto mais seguro – destacou o morador.

Cadastramento das famílias 

O levantamento das residências atingidas está a cargo de um engenheiro da prefeitura que está percorrendo as áreas atingidas do município.

 
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