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Exemplos do Estado04/06/2018 | 09h06Atualizada em 04/06/2018 | 09h54

As melhores cidades do RS: Carlos Barbosa é campeã em qualidade de vida

O mais recente Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) mostra as condições de educação, renda, saúde e qualidade de vida no Estado. Conheça os melhores municípios

As melhores cidades do RS: Carlos Barbosa é campeã em qualidade de vida Mateus Bruxel/Agencia RBS
Andréia e o filho Lorenzo passeiam com tranquilidade pela cidade que tem a indústria e a agricultura familiar como pontos fortes Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Eram 11h da manhã de uma terça-feira quando a costureira Andréia Villa, 40 anos, conduzia com tranquilidade o filho Lorenzo, três anos, por uma ciclovia de asfalto novo e flores. Quando interrompe o passeio para conversar com a reportagem, deixa o filho caminhando sozinho na calçada, imune a preocupações típicas de mães das cidades grandes. Diz que se sente feliz e segura onde mora, que não vê pobreza nem lixo no chão. À esquerda, uma visão panorâmica de prédios, casas e árvores. À direita, a fábrica da Tramontina. Ela está em Carlos Barbosa, na Serra, município com a melhor qualidade de vida do Rio Grande do Sul.

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As famílias barbosenses produzem e retêm muita renda, a educação e as condições gerais de saúde são consideradas boas e a mortalidade infantil é baixa. Um tanto disso se deve à economia do município, movida pela força da indústria metalmecânica e pela agricultura de pequena propriedade. 

O levantamento que posicionou Carlos Barbosa como líder no Estado é referente ao ano de 2015 e foi divulgado em março pela Fundação de Economia e Estatística (FEE), antes de a instituição ser extinta pelo governo estadual. Anualmente, a organização compunha o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), feito para medir o nível de desenvolvimento dos municípios gaúchos – agora, a pesquisa está a cargo de uma consultoria privada.

O Idese avalia o próprio Estado e seus municípios com base em 12 indicadores, divididos em três grupos: educação, renda e saúde. O estudo estipula que "0" representa o pior cenário e "1", o padrão de países desenvolvidos. Não são levados em conta fatores como segurança, preços ou qualidade do atendimento. 

Em 2015, ano de auge da crise econômica brasileira, o Idese geral do Rio Grande do Sul teve a primeira queda em nove anos, passando de 0,757 para 0,751. Na prática, a qualidade de vida do gaúcho piorou. Mas os municípios das áreas de colonização italiana e alemã em pequenas propriedades localizados no Norte e no Nordeste mantiveram os bons indicadores – é o caso de Carlos Barbosa. 

São 14 escolas municipais (todas as salas têm ar-condicionado), seis estaduais de Ensino Médio e sete instituições de ensino privadas. Todos os estudantes podem usufruir do transporte escolar gratuito – para universitários, ônibus levam aos campi de outras cidades e cobram 10% da tarifa, cujo valor é revertido para um fundo de segurança e educação. No 5º ano do Ensino Fundamental, 84% dos alunos aprendem o necessário em português, enquanto que a média brasileira é de 50%, segundo a Prova Brasil.

Na saúde, a rede primária, focada em prevenir doenças, é o foco. Há cinco postos de saúde no interior e um grande no município, onde é possível agendar consultas pelo telefone e realizar de raio-X a acupuntura. Pessoas com dificuldade para acessar os serviços recebem transporte gratuito, assim como quem precisa realizar exames ou ser internado em hospitais de referência da região.

CARLOS BARBOSA, RS, BRASIL, 24-04-2018: Fábrica da Tramontina em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha. A empresa grande parte da população local e dos arredores. O município lidera ranking de desenvolvimento no Rio Grande do Sul, conforme o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), referente ao ano de 2015, divulgado pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). O Idese avalia a situação socioeconômica dos municípios gaúchos quanto à educação, à renda e à saúde, considerando aspectos quantitativos e qualitativos do processo de desenvolvimento. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Fábrica da Tramontina em Carlos BarbosaFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Ao caminhar pelas ruas de Carlos Barbosa, são grandes as chances de encontrar um morador que trabalhe, tenha trabalhado ou que conheça alguém ligado à Tramontina ou à Cooperativa Santa Clara, as duas empresas centenárias que mais empregam os barbosenses. É o caso de Andréia.

— As pessoas ficam pouco tempo sem emprego. Não precisa ter alta escolaridade. Eu tenho Ensino Médio completo e trabalhei durante 14 anos na Tramontina, só saí porque quis ter minha autonomia. Mas meu marido trabalha lá e muita gente vai porque ajudam a pagar a faculdade — diz Andréia Villa, logo após caminhar pela ciclovia-jardim mantida pela multinacional que emprega seu cônjuge e, no total, 28% dos 27.926 habitantes. 

Em Carlos Barbosa, a história pessoal de cada pessoa se mistura à história das duas empresas. Além de gerar emprego e fazer a renda circular na região, ambas contribuem com a comunidade ao adotar espaços públicos, investir em ONGs ou oferecer incentivos a seus empregados. 

— Praticamente todos os moradores do município têm algum envolvimento com essas empresas. A Tramontina e a Santa Clara têm importância grande, na renda, sobretudo, mas também têm um lado social muito forte. Elas são parceiras do município — sintetiza o vice-prefeito, Beto Da-Fré (PDT).

Só a indústria é responsável por mais de 71% do retorno do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) ao município – e a protagonista é a Tramontina. Sozinha, a multinacional é responsável, no segmento industrial, por 77,26% do retorno do ICMS. Em 2015, auge da crise, a empresa não demitiu ninguém, ao contrário: contratou 411 novos funcionários.

— Normalmente, por fatores extraeconômicos, a cidade na qual grandes empresas são sediadas é importante para os tomadores de estratégias. Há vínculos com a comunidade, como se a empresa fosse também vizinha dos moradores — diz Roberto Rocha, economista da FEE.

Além de batizar rua e escola, a Tramontina adota espaços públicos e ajuda a manter uma ONG, ao lado de outras empresas. Na prática, a companhia é vista como instituição benfeitora à população tão importante quanto o governo.

Aldair Constantino Nunes, 44, trabalha no setor de talheres da Tramontina há 25 anos. Ele simboliza o típico habitante de Carlos Barbosa: já trabalhou na Santa Clara, assim como sua mãe, mas entrou na Tramontina, junto com seus irmãos, seguindo os passos do pai, funcionário aposentado da firma. 

CARLOS BARBOSA, RS, BRASIL, 24-04-2018: Aldair Constantino Nunes, operário da Tramontina, na sede da empresa em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha. Município tem bom desempenho na área rural e indústria e lidera ranking de desenvolvimento no Rio Grande do Sul, conforme o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), referente ao ano de 2015, divulgado pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). O Idese avalia a situação socioeconômica dos municípios gaúchos quanto à educação, à renda e à saúde, considerando aspectos quantitativos e qualitativos do processo de desenvolvimento. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Aldair Constantino Nunes trabalha na Tramontina há 25 anos, mas também já foi funcionário da Santa ClaraFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

O dinheiro da família Nunes rende. Apesar de não ter completado a faculdade, Aldair adquiriu, ao lado da mulher, a governanta Sirlei Barbosa Nunes, 43, uma casa de dois andares com cinco quartos, três banheiros e duas cozinhas, onde vivem com a filha, Gabriela, de 14 anos. A jovem estuda na escola municipal Elisa Tramontina e faz curso de inglês.

— Morar aqui é bom. Tem de trabalhar o marido e a mulher, mas a gente vive bem — diz o operário.

A Santa Clara, que vende leite e derivados, empregava 1.254 funcionários, ou 4,5% da população. 

Além de ações voltadas à cidade, como a oferta de bicicletas para uso público no estilo BikePoa e um projeto de conscientização ambiental e alimentação saudável que já beneficiou 7,2 mil alunos desde 2016, a cooperativa estimula a agricultura de pequena propriedade. Em poucos hectares, cuidam-se de vacas cuja produção, inteira, é vendida à instituição. 

Diego Baldasso, 34 anos, já atuou na Tramontina, quando era mais novo, mas optou por seguir os passos da família e se tornou a quarta geração a trabalhar na produção de leite. Hoje, ele toca o negócio ao lado do pai, de dois tios e do primo na Granja Margarida, onde 230 vacas vivem em 63 hectares. O clã leiteiro produz 3,7 mil litros ao dia, vendidos exclusivamente à cooperativa.

CARLOS BARBOSA, RS, BRASIL, 24-04-2018: O produtor de leite Diego Baldasso na pequena propriedade da família em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha. Município tem bom desempenho na área rural e indústria e lidera ranking de desenvolvimento no Rio Grande do Sul, conforme o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), referente ao ano de 2015, divulgado pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). O Idese avalia a situação socioeconômica dos municípios gaúchos quanto à educação, à renda e à saúde, considerando aspectos quantitativos e qualitativos do processo de desenvolvimento. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Diego Baldasso seguiu os passos da família e é quarta geração a trabalhar na produção de leiteFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Baldasso não tem vida fácil: trabalha de segunda a segunda e acorda às 3h para ordenhar as vacas, manejo repetido no fim da manhã e da tarde, quando volta para casa. A rotina férrea só é quebrada em casos excepcionais — como em 16 de março, nascimento do filho, Teodoro, com a esposa, a cabeleireira e manicure Elisandra Baldasso, 32, com quem está junto há 18 anos.

— Tenho orgulho do que faço, é da família. E gosto muito de Carlos Barbosa, não trocaria por nada. Todo mundo conhece todo mundo, é uma cidade completa, limpa e organizada — resume.

Os índices

Educação 0,816 (8º)
Renda 0,925 (2º)
Saúde 0,894 (36º)
Idese 0,879 (1º)
População em 2015 27.926
PIB per capita R$ 66.824

*Em parênteses, a colocação no ranking dos municípios do Estado.

Os municípios com a melhor qualidade de vida do Rio Grande do Sul*

Carlos Barbosa 0,879
Água Santa 0,873
Nova Araçá 0,865
Aratiba 0,860
Nova Bassano 0,854

Rio Grande do Sul (geral) 0,751

*De acordo com o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese)

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