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História17/05/2018 | 08h30Atualizada em 17/05/2018 | 11h46

Por que Caxias do Sul ainda elege rainhas da Festa da Uva? Veja opinião de especialistas

Neste sábado, 17 candidatas concorrerão ao título de rainha

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A eleição da primeira rainha da Festa da Uva teve caráter popular. Os moradores de Caxias do Sul anotavam o nome de sua candidata preferida em cupons publicados nos jornais da época, que depois de contabilizados, consagraram a soberana Adélia Eberle, nome tradicional e favorito à época. O ano era 1931, terceira edição da Festa, e a coroação da filha de Abramo Eberle deu início a sequência de cortes formadas por influentes mulheres caxienses. Neste fim de semana, 86 anos depois daquele primeiro concurso que teve como ápice o desfile de Adélia no Cine Teatro Central, será eleita a nova soberana de Caxias do Sul. Enquanto as 17 jovens aguardam ansiosas pelo chamado de seu nome no desfile que ocorrerá nos Pavilhões da Festa da Uva, a história mostra o quanto muda, ano a ano, o espaço e a dimensão de uma rainha na sociedade caxiense.

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— O perfil das meninas mudou bastante, são candidatas mais maduras, o que acaba confirmando que se trata mesmo de um sonho de infância. Porque não vejo mais este desejo nas adolescentes de hoje em dia. Não vejo isso como uma má vontade, apenas acredito que talvez elas queiram batalhar mais para ser a presidente da Festa da Uva do que a rainha. Mas a mulher pode ser o que quiser, inclusive a rainha — opina a historiadora Luíza Iotti.

A tradição de eleger uma soberana da Festa da Uva em uma cidade de quase 500 mil habitantes é vista por especialistas como, no mínimo, curiosa. A cidade divide-se em apostas de candidatas preferidas e a população acompanha, pela imprensa, passo a passo das jovens que almejam a coroa. Empresas da cidade acabam patrocinando o sonho das gurias, ainda que a Festa da Uva proporcione trajes, cursos e eventos de forma gratuita. Estima-se que o investimento de uma candidata, com vestidos, torcida, e gastos com salão de beleza, possa chegar a R$ 30 mil. Se antigamente clubes tradicionais da cidade apostavam nas candidatas, hoje são empresas tradicionais e até empreendimentos de menor porte quem patrocinam as gurias. 

— O papel na sociedade de uma menina pura que fazia a divulgação da festa, que era pura tradição, mudou. Hoje, as empresas querem ter o nome associado à candidata porque ganha um vínculo importante com a comunidade. E o retorno que ela tem, em termos de marketing e de fortalecimento do bairrismo, é imenso. O povo daqui gosta de coisas daqui, e em Caxias isso não é diferente — avalia a professora acadêmica e diretora de Economia, Finanças e Estatística da CIC, Maria Carolina Rosa Gullo.

"A rainha é uma embaixadora da cidade"

— O senhor já pensou na honra de ter uma filha como rainha da Festa da Uva? Já pensou ela representar a sua família, o seu pai como imigrante italiano em Caxias do Sul?

Este é tido como o argumento derradeiro para que o pai da rainha da Festa da Uva de 1969, Elisabete Maria Menetrier, concordasse com a participação dela no certame. Era uma noite fria e chuvosa quando cinco homens do Recreio da Juventude bateram à porta da casa da família para convidar ao concurso a jovem que apelidaram de Grace Kelly, premiada atriz norte-americana e princesa de Mônaco, pela beleza de ambas. Elisabete sequer foi consultada: ela concorreria ao título porque sabia que era importante honrar o nome da família. Marcou época por ser a primeira a desfilar em um concurso à noite, e também por inaugurar as visitas da comitiva ao Exterior: ela viajou até o Uruguai e Argentina a bordo de um jato particular patrocinado pelo Banco do Brasil, algo inédito para a década de 1960. 

— Naquela época, havia um encantamento, porque todos ficavam admirados ao me ver cantar músicas italianas, falar dialeto, ir na casa dos colonos. A rainha precisa ser bonita, mas este não é um concurso de beleza. É um concurso que valoriza as origens, a cultura — opina.

Elisabete sabe que marcou época ao ser rainha ao lado de quatro princesas, o dobro de hoje. Também entende que a dimensão da Festa da Uva mudou, e não são raras as vezes em que precisa responder a comentários de que a rainha não tem mais o encantamento de décadas atrás. Para isso, ela responde:

— A rainha é uma embaixadora da cidade, e isto é permanente, não são valores que mudam. Mas é claro que, antigamente, as pessoas conviviam mais com a Festa, vibravam mais. Só existia Festa da Uva, festa de Nossa Senhora de Aparecida e Carnaval. A dimensão mudou porque a cidade cresceu, e é diferente fazer uma festa para 20, 200 ou 2 mil pessoas. Eu não tive mágoas ou desprazeres. Só coisas boas.

Representatividade seletiva, dizem feministas

O papel de uma rainha da Festa da Uva é, também, de mostrar a força e o potencial da mulher. Como protagonista que opta tanto por ser dona de casa, quanto empreendedora. A professora acadêmica e diretora de Economia, Finanças e Estatística da CIC, Maria Carolina Rosa Gullo, afirma que o preparo que as gurias têm durante o pré-concurso - que nesta edição é de seis meses —, é fundamental para que aprendam a conhecer a cidade e sejam mbientadas a uma cultura de tradição. 

— Elas se interessam também pela economia, e não são gurias preparadas de qualquer maneira. Mesmo aqueles que não têm no sangue a questão da imigração, sabe que foi esse o povo que criou o município, e que isso tem força e desenvolveu nossa economia. Elas dão um sinal de que respeitar essa cultura é sinal de respeito com o próprio município — afirma a professora.

As representantes da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) de Caxias do Sul enxergam o concurso com um viés mais crítico, onde as gurias precisam seguir a um padrão que nem sempre é justo dentro da comunidade. 

— É uma representação política de uma mulher disciplinada, em que sua beleza e suas atitudes estão dentro de uma ordem moral. Historicamente, representa a mulher branca, jovem, imigrante italiana. Mas a diversidade de mulheres, as diferentes etnias que construíram e constroem a cidade de Caxias do Sul... são representadas nesse concurso?— questiona Paula Cervelin Grassi, integrante do movimento.

"Ela é a divulgadora da cidade"

A verdadeira sensação de glamour em ser rainha da Festa da Uva era mais forte até o final da década de 1960, avalia o diretor do Instituto Memória Histórica e Cultural da UCS, Anthony Beux Tessari. Tanto que é que foi nesta década que soberanas tiveram papeis inéditos: enquanto Helena Robinson, rainha de 1961, convidou pela primeira vez um presidente da república, Jânio Quadros, Elisabete Maria Menetrier viajou ao Exterior pela primeira vez como soberana, em 1969. Ainda que as visitas a presidentes ainda sejam uma das partes mais importantes da agenda do trio, outras funções são acrescidas a elas ao longo da história da Festa.

— O trio de rainha e soberanas abre mão dos direitos de imagem para participar de toda a divulgação. Desde que eleita, ela passa a cumprir a principal função de representante da cidade. Não é um concurso de miss que transforma, muitas vezes, a mulher em um objeto. Ela é uma divulgadora da cidade — afirma Tessari.

O público médio de uma escolha de rainha é de 10 mil pessoas _ o que iniciou em 1994, lembra Tessari. Nesta edição, serão quase 5 mil a menos, por exigências do Plano de Prevenção e Proteção contra incêndios, o PPCI. A primeira-dama do Estado, Maria Helena Sartori, participou do júri que elegeu Julia Brugger De Carli como soberana de 2006. Ela lembra que a essência do evento, que são as origens de Caxias, devem estar na ponta da língua da nova rainha, cuja principal missão é convidar a todos para a festa, inclusive presidentes.

— Exatamente pela importância do evento, praticamente todos os presidentes convidados pelas rainhas vieram em algum momento da festa. Independente de ser 2019, do ano ou milênio que nós estivermos, haverá espaço para a rainha. Para que ela nos lembre como tudo começou, quem foi quem começou tudo aqui e o orgulho de saber que somos frutos disso— explica.

Primeira-dama e o governador José Ivo Sartori (PMDB) não poderão comparecer ao evento de escolha.

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