"Aguentei tudo para segurar meu trabalho", diz ex-caixa de mercado que ganhou ação por ser vítima de racismo - Geral - Pioneiro

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Justiça do Trabalho28/05/2018 | 19h02Atualizada em 28/05/2018 | 21h19

"Aguentei tudo para segurar meu trabalho", diz ex-caixa de mercado que ganhou ação por ser vítima de racismo

Trabalhadora era chamada de "carvão", entre outras 

A ex-operadora de caixa da Companhia Zaffari que diz ter sofrido racismo  afirma que foram os próprios clientes que a incentivaram a não aceitar os supostos comentários racistas do colega empacotador. Em uma das oportunidades, ele teria dito para a colega que sua mãe não a reconheceria caso entrasse em uma churrasqueira. Afinal, segundo ele, "é tudo carvão". A cena teria acontecido na frente de um cliente. Inconformado com a situação, o cliente teria dito "Menina, não aceita isso não. Não deixa que ele te fale essas coisas. Racismo é crime, ele pode ser preso".  A Companhia Zaffari foi condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT) a pagar R$ 30 mil de indenização. Segundo o Judiciário, ela foi vítima de injúria racial.  

Leia mais:
Rede de mercados é condenada a pagar R$ 30 mil para ex-funcionária em Caxias por ofensas racistas

A jovem de 20 anos mudou-se para Caxias do Sul em 2014, após ser convidada pelo pai. Ele chegou meses antes para conhecer a cidade e confirmar se as condições de vida eram melhores do que a família enfrentava no Haiti. O emprego no caixa foi a primeira oportunidade de trabalho que ela teve em território caxiense. Trabalhou por um ano e 10 meses, e chegou a ser promovida de empacotadora para operadora de caixa. Ouvia as piadas racistas do colega diariamente, que encerrava as frases com comentários como "somos amigos e ela sabe que é brincadeira". Cansada de ser humilhada, principalmente na frente de clientes e colegas, ela decidiu relatar o caso ao chefe. Repetiu a conversa com o superior por duas vezes, afirma. 

— Eles diziam que a gente era amigo e isso era brincadeira. Mas amigo não fala uma coisa dessas — lamenta.

A jovem não mora mais em Caxias do Sul. Atualmente, reside em Campinas (SP), onde frequenta um curso para ser comissária de bordo. No restante do tempo, trabalha no setor administrativo de um mercado. Buscou coragem para relatar o caso por acreditar que cenas como essas acontecem diariamente em diversos ambientes de trabalho. E espera que a situação não se repita:

_ Eu tenho um irmão de três anos e não quero nunca que ele passe por algo assim. Eu segurei isso tudo por muito tempo para não perder o emprego. Eu amava muito meu trabalho. Mas agora espero que haja justiça. Se todos que passassem por isso fizessem igual e denunciassem, acho que seria diferente_ acredita.

CONTRAPONTO

O que diz a Companhia Zaffari:

"A ex-funcionária disse ter sofrido práticas discriminatórias por funcionário da empresa, mas a ação foi julgada totalmente improcedente pela 5ª Vara do Trabalho de Caxias do Sul. O TRT reformou a decisão a partir de flagrante erro material ao considerar que a dispensa teria sido discriminatória por ter ocorrido logo após a funcionária fazer uma ocorrência policial, quando, na verdade, o boletim de ocorrência foi feito após sua demissão. A diretoria da empresa desconhecia o fato e não admite condutas discriminatórias, contando, inclusive, com canal próprio para apuração de eventuais denúncias nesse sentido. A empresa acredita na reforma da decisão".



 
 
 

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