"A verdade sempre triunfa", diz pároco de São Pelegrino sobre repercussão do pedido de perdão do bispo de Caxias - Geral - Pioneiro

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Religião12/05/2018 | 07h25Atualizada em 12/05/2018 | 07h25

"A verdade sempre triunfa", diz pároco de São Pelegrino sobre repercussão do pedido de perdão do bispo de Caxias

Féis recorreram aos párocos de suas comunidades para questionar o papel do sacerdócio, tirar dúvidas e buscar aconselhamento

"A verdade sempre triunfa", diz pároco de São Pelegrino sobre repercussão do pedido de perdão do bispo de Caxias Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Poucas vezes uma informação causou tanto alvoroço na Igreja Católica como as denúncias de que um padre estava envolvido num caso de violência doméstica em Caxias. Muitos fiéis recorreram aos párocos de suas comunidades para questionar o papel do sacerdócio, tirar dúvidas e buscar aconselhamento de como seguir adiante. As respostas dos padres geralmente trazem conforto e também tentam direcionar para um novo olhar sobre o significado da misericórdia, sentimento de dor e solidariedade com relação a alguém que enfrenta problemas.

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Nos bastidores da Diocese, o assunto domina tema de conversas entre os padres, mas raros são os que fazem comentários públicos com receio de ofender ou fazer juízo de valor. Nem mesmo os leigos com liderança na Diocese querem se envolver no assunto.

—  Está todo mundo muito sentido porque atinge a todos, tem um silêncio de lamento.  Quanto ao perdão, é uma coisa positiva e há uma admiração em função desse gesto de humildade. Mas há uma apreensão, como vai ser a coisa daqui em diante, como vai terminar, o que isso terá como consequência, como ficará depois que tudo passar? — pondera um sacerdote que prefere o anonimato.

O padre Leonardo Inácio Pereira, pároco da Igreja de São Pelegrino, também tem dado respostas aos fiéis.

_ Todo humano tem tendência de fazer o bem e somos suscetíveis ao mal. Eu diria que a verdade sempre triunfa e sempre estaremos do lado da verdade _ diz Leonardo.

Para ele, o momento atual é uma situação corriqueira, pois a igreja faz análise de suas ações para corrigir e acertar. 

_ A nota (sobre o pedido de perdão) é feliz. Revela a nossa humanidade, expressa que a igreja necessita de conversão, de uma atitude de mudança. O amor é o elemento importante porque oferece a possibilidade de mudanças. 

SINAIS DE MUDANÇAS 

:: O pedido de perdão de dom Alessandro Ruffinoni é um gesto inédito na história da Igreja Católica da Serra, mas está de acordo com a nova postura adotada pelo papa Francisco desde que ele assumiu o posto mais alto do Vaticano, em março de 2013. Embora a instituição tenha mudado paradigmas a partir das conferências do Concílio Vaticano II, realizada entre 1962 e 1965 em Roma, cujo objetivo era modernizar o catolicismo e atrair fiéis que estavam afastados, as ações mais visíveis dessa aproximação com o povo partem de Francisco. O papa, um dos mais populares da histórica recente, prega que a igreja deve ser dos pobres, mais humana e caridosa e menos dogmática.

:: Os sinais dessa mudança são evidentes, embora ainda não tenham um efeito revolucionário. Segundo especialistas, Francisco é o primeiro papa a avançar mais claramente na discussão de temas polêmicos e complexos. Um dos momentos marcantes da nova era tem relação com a homossexualidade, assunto no qual o papa já opinou em várias ocasiões e que encontra forte resistência entre leigos e religiosos. Uma das frases, logo no início do papado, se tornou histórica: "Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-la?", questionou Francisco, pregando contra o preconceito.

:: A humildade de Francisco, que tenta transmitir uma mensagem ao clero, também foi testada numa viagem ao Chile em janeiro deste ano. Questionado sobre acusações de pedofilia contra um importante religioso daquele país, o papa pediu provas dos crimes, causando polêmica. Dias depois, reconheceu que estava errado: "Devo pedir desculpas porque a palavra 'prova' feriu muitos abusados. Foi sem querer.", anunciou Francisco. 

:: Outro gesto recente, que também é visto com uma mensagem dessa mudança, foi o casamento realizado por Francisco durante um voo entre duas regiões do Chile. Um casal de comissários do avião, que transportava o pontífice, pediu se o religioso poderia abençoar a união. Os dois funcionários da empresa aérea haviam registrado o casamento somente no civil. Francisco foi além, abençoou as alianças e pediu a um dos cardeais da comitiva para organizar a ata do matrimônio para que pudesse ser um evento legal da igreja. A cerimônia celebrada pelo papa fora de uma igreja quebrou uma tradição. Em Caxias, nem todo o clero concorda com casamentos celebrados por sacerdotes católicos ao ar-livre ou em casa de eventos por exemplo, embora isso ocorra com certa frequência.

:: No ano passado, Francisco teria permitido a abertura de uma discussão sobre a possível inclusão de padres casados para atuar na Amazônia. A liberação parcial do celibato entre os religiosos pode ser inclusive discutido no Sínodo Pan-amazônico em 2019. A quebra do tabu, projeto defendido pelo cardeal brasileiro Claudio Hummes, serviria para lidar com a falta de padres naquela região do país. O próprio Francisco já havia dito anteriormente que o celibato não é um dogma (ponto fundamental da doutrina católica) e sim uma regra de vida. 

EM CAXIAS

:: A Igreja Católica de Caxias do Sul também vem tentando dar sinais de que pretende mudar a forma como se relaciona com os fiéis e a população em geral. Segundo a historiadora Tânia Tonet, o recado de dom Alessandro Ruffinoni é simbólico e não encontra parâmetro no passado de Caxias do Sul.

:: Segundo ela, a Igreja Católica já se envolveu em polêmicas geralmente relacionadas a questões políticas. O conflito mais forte ocorreu ainda no período da imigração italiana. O padre católico Pietro Nosadini, que veio da Itália e se instalou em Caxias do Sul em 1892, entrou em desacordo com os maçônicos da cidade, gerando forte tensão social. Nosadini chegou a ser espancado e escapou de ser assassinado pelos opositores. O religioso acabou voltando para a Itália.

:: Nos anos recentes, a polêmica mais forte teve relação com as denúncias de abuso sexual que teriam sido cometidas por um padre (já morto) contra um adolescente de 15 anos. O caso ocorreu em 2011 e veio à tona em 2013. Dom Alessandro pediu desculpas à família da vítima, que na época do crime tinha 15 anos. Ao pedir desculpas, desta vez para toda a Diocese devido constrangimento causado com as denúncias envolvendo o padre Ezequiel Dal Pozzo, dom Alessandro evidencia o posicionamento da Igreja Católica, no sentido de colocar os sacerdotes como humanos e não seres divinos, a exemplo de todos os cidadãos. 

:: Quando abraçou a causa da imigração de haitianos e senegaleses em Caxias do Sul, a igreja também mostrou que é o momento de acolher, de fato, outras culturas, como prega Francisco, independentemente do credo religioso. A igreja também se mostrou mais prática ao se aliar com a Justiça na campanha da fraternidade deste ano, que pede o fim da violência. Até então, esse tema era tratado de forma mais filosófica durante as homilias. O próprio dom Alessandro se manifestou publicamente com o sumiço da menina Naiara Soares Gomes, sete anos, raptada e assassinada no caminho da escola, e do espancamento de um jovem durante o Carnaval.

:: Por outro lado, integrantes da própria igreja, que preferem não se identificar para evitar conflitos, ainda acham que é necessário ir além em Caxias do Sul. A própria condição de padres que trocam o altar pela evangelização por meio da música ou das redes sociais não é bem vista por boa parte do clero. Também há resistência diante de trabalhos sociais, que acabam sendo vistos como obras populistas demais, que fogem das atribuições de um religioso.

Na Justiça

O inquérito da Delegacia da Mulher com o indiciamento do padre Ezequiel Dal Pozzo pela suspeita de agressão contra uma mulher de 41 anos ainda está no setor de distribuição  de processos do Fórum. Como não há um pedido especial de análise, o caso o trâmite normal de remessa de inquéritos às varas respectivas. Dal Pozzo nega veemente as acusações de violência e também reforça que nunca teve contato íntimo com a suposta vítima, que se diz ex-namorada dele.

 
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