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Repercussão09/04/2018 | 08h13Atualizada em 09/04/2018 | 08h26

Um mês sem Naiara: especialistas analisam impacto social 30 dias após tragédia

Após comoção inicial, sociólogos e líderes religiosos acreditam que fato pode gerar reflexões mais profundas para superar cultura de ódio difundida em redes sociais

Um mês sem Naiara: especialistas analisam impacto social 30 dias após tragédia Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Há exatamente um mês, no dia 9 de março, por volta de 6h30min, Naiara Soares Gomes, sete anos, deixou a casa onde morava, na Rua Vesúvio, no loteamento Monte Carmelo, em Caxias do Sul, e nunca mais voltou. No percurso para a escola, ela foi raptada e nas horas seguintes do mesmo dia, estuprada e morta. 

Nesta segunda, quando completam-se 30 dias do crime, a ferida ainda não se fechou e, provavelmente, não cicatrizará tão cedo. Em meio às vozes que pedem a morte ou um castigo violento para o autor confesso do crime, algumas iniciativas vão além: que a perda de Naiara não se atenha ao ódio, mas, sim, represente o início de um futuro melhor para crianças que, assim como ela, vivem vulneráveis à violência e sem perspectivas de um futuro melhor. 

— Precisamos aprender lições com todos os acontecimentos. A situação causa raiva, mas não podemos ficar nisso. O ódio está espalhado por todos os lugares, por isso precisamos difundir mais amor e compreensão e superar o medo e essa cultura de que "o filho não é meu". Não é bem assim. Os filhos são da sociedade. Temos de cuidar da vida, não importa se fui eu quem gerei ou não — defende o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), Elói Gallon.

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Naiara caminhou sozinha por quase dois quilômetros sem despertar a preocupação alheia e nunca chegou na escola. De acordo com diagnóstico socioterritorial realizado em Caxias do Sul no ano de 2016, 31 escolas públicas da cidade atendiam mais de 9,4 mil crianças inclusas no Cadastro Único, cujas famílias, portanto, viviam em situação de vulnerabilidade. Embora represente apenas um recorte reduzido da real dimensão do problema, o dado demonstra uma realidade de crianças carentes de ajuda e pais que podem estar atravessando dificuldades semelhantes às vividas pela família de Naiara. 

— A gente percebe que os vizinhos que têm filhos pequenos começaram a buscar os direitos (depois da tragédia). E isso é bom. Precisamos dar mais atenção e conversar com nossas crianças. Não sabíamos que Naiara estava indo sozinha para a escola porque ela nunca nos disse isso. Mas, se tivéssemos conversado com ela, poderíamos ter descoberto _ reconhece a prima de Naiara, Adriele Gomes.

O pastor Davir David Scherdien Santos, presidente do conselho das igrejas evangélicas de Caxias, acredita que a comoção que o caso gerou pode ser canalizada do depois para o antes. 

— Todo mundo ficou comovido depois que aconteceu, mas podemos pensar preventivamente: isso não pode acontecer de novo. A tragédia serve de alerta de que as coisas não estão resolvidas. O mundo ainda precisa de amor. Serve para refletir no relacionamento com o próximo e que devemos aprofundar o senso de comunidade, olharmos pessoas como pessoas de fato, que têm sentimentos, ver indivíduos no meio de multidões — afirma. 

O presidente do Comdica vai além:  

— Eu posso me engajar ajudando alguma escola ou instituição para que ela possa melhorar a qualidade ou aumentar os atendimentos. Muitas vezes, as pessoas podem participar dessas entidades, ou integrar ações de uma igreja, associação de moradores, CTG, etc. Precisamos estar mais engajados em alguma ação. Isso dá muito mais resultado do que ficar destilando veneno ou jogando culpa nos outros".

A cultura do ódio e perda de empatia

Após a confirmação da morte de Naiara, especialmente nas redes sociais, pessoas manifestam indignação com o andamento do processo de indiciamento contra o autor confessor do crime, Juliano Vieira Pimentel de Souza. Embora o teor dos protestos envolva críticas ao Judiciário, chamam atenção as frequentes incitações de violência contra o assassino.

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— As pessoas querem de fato estraçalhar o abusador. É lógico que ele é culpado e tem de ser punido, mas essa cultura de ódio e de fazer justiça com as próprias mãos não leva a lugar nenhum e só gera maior violência. Ao invés de falarem o que a tia da Naiara deveria fazer, as famílias devem refletir: o que eu estou fazendo dentro da minha casa? Minhas crianças não estão sozinhas? Essa raiva coloca uma grande nuvem na frente das pessoas e as imobiliza. Se limitam a dedicar energia no ódio, na vingança,  ao invés de refletirem se contribuem para isso ou não e o porquê de estar ocorrendo tanta violência — opina a vereadora e presidente da Comissão para o Enfrentamento da Violência na Câmara, Paula Ioris (PSDB).

Para sociólogos, o contexto é esperado e tem se apresentado com maior frequência nos últimos anos, tanto pela maior visibilidade que as redes sociais proporcionam quanto pela sensação de insatisfação compartilhada entre as pessoas com relação às instituições

— Recorrer ao argumento do "olho por olho, dente por dente" é um sintoma de uma sociedade doente. Estamos vendo um inimigo na outra pessoa, caminhamos olhando para os lados e projetando nas pessoas uma ameaça, um inimigo. Estamos vivendo na paranoia. Nos confinamos nas nossas casas e abandonamos as nossas ruas. Nunca foi inventado um sistema de segurança melhor do que a ocupação das ruas por parte da cidadania. Eventos que fortaleçam a sociabilidade, nas ruas, nos fins de semana. Se a comunidade não ocupa esses espaços, eles acabam sendo ocupados pela criminalidade — comenta o sociólogo e professor da FSG, Adão Clóvis Martins dos Santos.

— A primeira percepção que é a comoção canaliza frustração muito maior do que o episódio em si. Frustração com uma sociedade impune, desigual, violenta. É uma raiva muito maior do que essa tragédia. A longo prazo talvez, seja possível reverter essa insatisfação através de campanhas, mas fazer aprofundamento sobre questões desse tipo é extremamente difícil, especialmente pelas redes sociais, pois exige uma postura de sensatez e calma — salienta o antropólogo Rafael José dos Santos.

Para líderes religiosos, o contexto também denota a perda do vínculo espiritual com os valores de convivência em comunidade.

— Jesus disse "amai-vos uns aos outros como eu vos amei". Essa deveria ser a regra para que as pessoas possam viver a sua fé. Não pode haver dissociação aquilo que a pessoa crê e o que ela vive. Um cristão jamais deveria ser a favor da pena de morte, porque Jesus, no alto da cruz, que teria todas as razões para desejar vingança disse: "pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".  A fé deveria ser associada à vida, e o Evangelho é bem claro quando diz "bem aventurados os que promovem a paz" — acrescenta o pastor David Scherdien Santos.

— Não adianta ir ao meu local de orações e não ser capaz de olhar para o lado e ver as necessidades do outro. Muitas crianças sofrem todos os dias muito ou um pouco o que essa menina sofreu. Acontece nas casas, às vezes é praticado por pais, por responsáveis, por amigos, parentes. Ouvi depoimentos de que o autor era trabalhador, boa pessoa, acima de qualquer suspeita. Mas acho que para nós, não deve bastar a pessoa aparentar fazer o bem ou mesmo fazer o bem, mas ter de fato ter o bem dentro do coração dela. É o coração humano que precisa ser trabalhado — concluiu Santos.


 
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