Moradores do bairro São Vicente querem ser reconhecidos também pelos aspectos comunitários em Caxias - Geral - Pioneiro
 

Não é só violência05/04/2018 | 07h30Atualizada em 05/04/2018 | 07h30

Moradores do bairro São Vicente querem ser reconhecidos também pelos aspectos comunitários em Caxias

No início de março, algumas quadras da comunidade foram sitiadas por criminosos da Região Metropolitana

Moradores do bairro São Vicente querem ser reconhecidos também pelos aspectos comunitários em Caxias Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Poucos sabem ao certo quando e porquê o apelido Buraco Quente foi dado à comunidade São Vicente de Paulo, na área central de Caxias do Sul. Moradores que residem por lá há mais tempo acreditam que o título teve origem pela forma com que a área se constituiu, como uma das primeiras ocupações irregulares da cidade há mais de 60 anos. Outros acreditam que a alcunha se deve a um período de violência vivenciado em meados da década de 1970 e 1980, quando criminosos conhecidos da polícia se escondiam no Complexo Jardelino Ramos.

Fatos recentes geraram apreensão de quem há anos luta para combater o preconceito e também lida com a vulnerabilidade social na comunidade. No início de março, algumas quadras do São Vicente foram sitiadas por criminosos da Região Metropolitana. Antes disso, no dia 2 de fevereiro deste ano, Rosângela de Oliveira Baungarten, 48 anos, e o filho dela, Ramon Baungarten do Rosário, 17, foram mortos em um bar na Rua dos Antúrios. Nas imediações, alguns dias depois, dois homens foram presos e um menor apreendido pela Brigada Militar após denúncia de que estariam tentando reativar o ponto de venda de drogas. Duas hipóteses são especuladas: a tentativa de tomada de um ponto de venda de drogas ou a procura de um traficante conhecido na região, que também seria filho de Rosângela. 

Apesar das mortes e da invasão, a má fama adquirida pelo apelido pejorativo não se sustenta para quem conhece o íntimo do São Vicente. Passada a tormenta de fevereiro e março, os olhares de moradores são um misto de apreensão, esperança e orgulho de fazer parte do "melhor morro da cidade", como define um morador. 

Percorrendo as ruas estreitas e as escadarias do São Vicente, mesmo quem não possui vínculos com as famílias é cumprimentado como se fizesse parte da vizinhança. Os valores da boa convivência são defendidos por quem ali nasceu ou se estabeleceu.

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Sem exceção, todos os moradores abordados pelo Pioneiro responderam: posso falar (sobre o bairro), mas só as coisas positivas. Embora reconheçam a existência de problemas, homens e mulheres ressaltam que o São Vicente tem tantos ou menos problemas que qualquer outro bairro.

— Não trocaria por nenhum lugar da cidade. "Quente" só se for de união, de calor. Aqui todo mundo se ajuda. É uma comunidade de gente boa e honesta. Mas tem seus prós e contras como qualquer lugar do mundo. É uma meia dúzia que dá fama ruim, mas são minoria — comenta Iris Rodrigues, moradora há 30 anos do São Vicente.

O presidente da associação de moradores, Clenau Soares de Oliveira, aponta que a cordialidade entre os moradores ou mesmo as demandas da comunidade acabam sendo sobrepostas à discriminação de uma reputação que não corresponde à vivência.

— Somos um povo sofrido, mas honesto. Nosso bairro é bom e estamos no centro da cidade. A mídia é que faz (o bairro) ficar desse jeito. As coisas boas dificilmente são mostradas. Aí quando acontece algo de ruim, o foco vem todo para nós — protesta Clenau.

Na Rua dos Antúrios, onde a ação dos criminosos se desenrolou, hoje há tranquilidade. Olhares em janelas e distanciamento na aproximação de estranhos são reações comuns por quem mora ali próximo, apesar de todos afirmarem que o local aparenta estar totalmente pacificado.

— A polícia agiu muito rápido. Não houve nada de violência, mas foi o pior momento que vivenciei aqui no bairro ao longo de mais de 40 anos que moro aqui. Mas agora está tudo calmo, desmontaram até um ponto onde os usuários de crack ficavam — comenta um morador que não se identificou à reportagem.

Voluntários pela comunidade

A Avenida Brasil perpassa três comunidades que formam o Complexo Habitacional Jardelino Ramos: a área conhecida como Antena (inserida no bairro Jardim América), o São Vicente e o próprio Jardelino Ramos. Quem trafega pela via, do trecho entre a Rua Uruguai até a Ernesto Alves, tem a visão panorâmica de um cenário de pouca infraestrutura, onde moradias humildes se aglomeram em morros e vielas, lembrando as comunidades do Rio de Janeiro.

Conforme levantamento de estudo socioterritorial da Fundação de Assistência Social (FAS), referente a 2016, entre os três bairros somam-se mais de 250 famílias vivendo em condição de extrema pobreza. Contexto o qual requer e inspira o surgimento de iniciativas sociais dentro da própria comunidade.  Não há áreas de lazer na comunidade. Nesse sentido, a referência recai sobre a Paróquia São Vicente de Paulo, no pátio de escola com o mesmo nome, na Rua Assis Brasil.

Há cinco anos, ao chegar no bairro, o pároco Diego Bettoni decidiu mobilizar moradores para trabalho voluntário voltado a famílias pobres. Desde então, o envolvimento da comunidade gerou diversas ações, destacando-se o o projeto Vira Virou, que distribui marmitas, frutas e legumes para famílias carentes aos sábados e promove almoço com crianças no salão paroquial, que após participam de oficina de capoeira e jogam futebol na quadra da escola. As atividades são desenvolvidas por meio de doações e trabalho voluntário. De acordo com o padre Diego Bettoni, além de priorizar o envolvimento de pessoas da própria comunidade, desde preparo até distribuição de comida, o objetivo, segundo ele, é ser rigoroso na promoção de ações sociais de maneira organizada. 

— As pessoas da comunidade devem ser as primeiras a se importar com a comunidade. Mas queremos fazer o bem da melhor maneira possível, de forma organizada. Nossas ações são pontuais, ajudamos alguns grupos apenas, mas não nos importamos com números, queremos realmente ajudar. Não adianta querer salvar o mundo e não salvar ninguém. Ajudar uma única criança que seja, já é o suficiente — defende.

Para as voluntárias, o orgulho de integrar os projetos é evidente:

— Aos poucos o projeto foi crescendo, mas sempre buscamos fazer isso de forma muito organizada. Claro que tem a questão espiritual, somos católicos, mas isso não é barreira, atendemos todas as religiões. Nosso objetivo é envolver a comunidade — comenta uma das coordenadoras do projeto, Rita de Cássia de Souza.

O pároco explica também que o almoço realizado com as crianças visa iniciar a convivência pacífica na comunidade desde cedo:

— O almoço é importante pois é uma forma das crianças que moram próximas umas das outras já irem se conhecendo e interagindo desde pequenas. Isso ajuda até na pacificação. 

Além do Vira Virou, cerca de 40 meninas de cinco a 18 anos têm programação especial de segunda a quinta-feira na paróquia,  onde recebem oficinas de artesanato e culinária e aulas de inglês — que também passou a ser oferecido para meninos —,  entre outras atividades.

A paróquia também tornou-se referência na distribuição de cestas básicas e outros itens oriundos de doações.

— Damos kits de material escolar no início de cada ano e são doadas roupas e móveis para as famílias necessitadas. Nosso trabalho com as meninas também já influenciou até um projeto do bairro Reolon. São boas ações que contagiam — destaca uma das voluntárias, Patrícia Franciane.

Às margens das políticas públicas

Em 2008, a maioria dos moradores do São Vicente recebeu título de propriedade após décadas vivendo em situação de irregularidade. Passados cerca 10 anos do processo, a legalização pouco trouxe de avanços de infraestrutura para a região. E embora espírito comunitário torne o bairro resiliente às carências, muitas demandas estão pendentes por suposta indiferença do poder público, conforme afirma o atual presidente da Amob São Vicente, Clenau Soares de Oliveira.

 — O que nos falta é saúde e educação. Temos uma boa escola, mas não temos praça de lazer onde colocar nossas crianças para brincar ou jogar futebol. Temos uma estrutura de unidade básica de saúde (UBS) praticamente pronta, mas a obra está parada há quase um ano e meio — informa o presidente do bairro.

A ordem de início para a construção de uma nova UBS foi assinada ainda em 2015. Na época, a previsão de entrega era de 360 dias. Três anos depois, a estrutura do prédio se encontra em estado de abandono, com pinturas já gastas, marcas de infiltração e matagal ao redor.

—  Trabalhamos seis anos para conseguir a UBS. Nós mesmos, da comunidade, conseguimos até o terreno. Mas tá abandonada há quase dois anos.  Era para ter sido entregue há um ano e meio atrás — informa Clenau.

Conforme anunciado na época, o espaço teria 430 metros quadrados de área construída. A estrutura serviria para suprir a alta demanda do bairro, atualmente atendido por uma unidade no primeiro andar de um prédio quase em frente à antiga estrutura.

— A nossa UBS atual é muito pequena e não tem para onde se abrigar em dia de chuva — relata o presidente da Amob.

A retomada da obra foi prometida pelo prefeito Daniel Guerra (PRB) para este ano. A previsão é entregar a unidade em junho.

Doações

Ao todo, há cerca de 50 famílias cadastradas pra receber alimentos no São Vicente. O fornecedor é o Banco de Alimentos ajuda também. Porém, quem quiser contribuir (também roupas, brinquedos e móveis) pode ir na secretaria da Paróquia, na Rua Assis Brasil, nº 1.100.

Esperança

A promessa da prefeitura é entregar neste ano uma área de lazer no Jardelino Ramos. Apesar de ficar fora do núcleo do São Vicente, a expectativa é que os moradores das duas comunidades possam aproveitar o espaço devido à proximidade. Com cerca de 1,2 mil metros quadrados, o local terá um parque, quadra de esportes aberta, academia ao ar livre, além de bancos e árvores. O espaço será construído na Avenida Barão de Santo Ângelo, quase no limite com o bairro Sagrada Família.

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