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Caso Naiara 22/03/2018 | 07h30Atualizada em 22/03/2018 | 10h17

Como a polícia chegou ao suspeito de ter raptado Naiara

O temido desfecho se confirmou às 16h55min de quarta-feira e comoveu os mais experientes policiais da cidade 

Como a polícia chegou ao suspeito de ter raptado Naiara Felipe Nyland/Agencia RBS
Menina desapareceu no dia 9 de março e caso começou a ser esclarecido no domingo (18) Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Foram 13 dias de uma única oração em Caxias do Sul. Desde que o desaparecimento se tornou público, todos se perguntavam onde estava Naiara Soares Gomes, sete anos, que sumiu quando caminhava sozinha pelo bairro Esplanada em direção a Escola Municipal Renato João Cesa, na manhã de 9 de março. 

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O temido desfecho se confirmou às 16h55min de quarta-feira e comoveu os mais experientes policiais da cidade. O corpo da criança estava num matagal na região de Ana Rech, perto de um banhado na área da represa do Faxinal. O homem que, extraoficialmente, assumiu ter raptado e estuprado a criança está preso e não teve o nome divulgado. Ele não admitiu ter matado Naiara.

O caso começou a ser desvendado no último domingo. Sem boas imagens de câmeras de monitoramento ou testemunhas que relatassem característica do autor do rapto ou a placa de um veículo envolvido, a investigação esteve focada em rastrear o Palio branco que aparecia manobrando na esquina da Rua Júlio Calegari e Mozart Perpétuo Monteiro, no bairro Esplanada. Foram mapeados mais de 500 carros com as características desse Palio, que iam sendo descartados um a um. Foi o "trabalho de formiguinha" tão citado pelo delegado Caio Márcio Fernandes, responsável pela investigação.

O fator que deu uma guinada no caso ocorreu pouco antes do meio-dia do domingo e foi mais uma demonstração do esforço dos investigadores. Agentes da DPCA circulavam pela zona sul da cidade, pela enésima vez, em busca de pistas. Numa das ruas, viram um Palio branco semelhante ao que havia sido flagrado por uma câmera na Rua Mozart Perpétuo Socorro. Um dos policiais observou o veículo estacionado e decidiu fotografá-lo. Com base nesta imagem, foram descobertas as semelhanças entre o Palio fotografado e o Palio filmado na Mozart Perpétuo Socorro. 

—Havíamos identificados detalhes específicos (no carro). Um no lado direito na parte de baixo traseira e outro no vidro traseiro. Assim fomos reduzindo e, em cima destes detalhes, chegamos a este determinado veículo —explica o delegado Paulo Rosa.

As características do Palio fotografado condiziam com o veículo procurado e os investigadores foram em busca do proprietário. Ao buscarem o perfil dele, a fisionomia do homem levou os investigadores a outro caso, um estupro de uma criança ocorrido em outubro do ano passado e que continuava em aberto. Naquela ocasião, uma menina também foi abordada na rua no caminho da escola e foi solta horas depois em outra parte da cidade, após sofrer abuso.

— Quando vimos as características, foi possível identificar seu local e hora de trabalho, rotina. Todas as características batiam (com a outra investigação, que na época teve até a divulgação de um retrato falado). O diferencial era ele ser meio estrábico, com um olho esquerdo bastante diferenciado. Uma característica marcante — aponta o chefe da Polícia Civil na Serra.

Neste momento, a investigação virou. A equipe concluiu que seria mais fácil e rápido conseguir a prisão do suspeito se fosse elucidado o primeiro crime de estupro. Essa foi a estratégia da Polícia Civil para conseguir o mandado de prisão temporária.

Após diligências, a Polícia Civil não tinha mais dúvidas sobre a autoria do crime do ano passado e os investigadores tinham grande expectativa de resolver o caso Naiara junto. Os delegados responsáveis pela apuração entraram a madrugada de quarta-feira formalizando a papelada necessária para a representação judicial. 

Enquanto policiais ficavam de campana e controlavam cada passo do suspeito, o delegado Paulo Rosa, principal autoridade da Polícia Civil na Serra, e o delegado Caio Márcio Fernandes, responsável pela investigação, entraram no Fórum de Caxias do Sul às 10h30min. O encontro era com o juiz Rudolf Carlos Reitz, da 3ª Vara Criminal. Este tipo de procedimento não é normal, mas todos os envolvidos entenderam a gravidade da situação. Após os passos obrigatórios, os delegados receberam o mandado em mãos às 12h15min de quarta-feira.

Naquele momento, a ansiedade quase fazia os investigadores gritarem que o caso estava resolvido e havia uma grande esperança de encontrar Naiara com vida. Mas o momento era de paciência. A campana prosseguia e a prisão só foi efetuada às 13h30min de quarta, quando o suspeito chegava em casa.

Ainda no local da prisão, o investigado assumiu ter raptado e abusado de Naiara e da outra criança para os policiais civis. O preso revelou aos investigadores onde havia deixado Naiara na manhã de 9 de março, após ter abusado dela dentro de casa.  Os agentes se deslocaram até uma a estrada vicinal próxima a Barragem do Faxinal, em Ana Rech, região praticamente desabitada e cercada por mato. 

Os investigadores chegaram no local antes das 15h20min e logo encontraram a mochila e sapatos de Naiara num matagal a 800 metros da Rota do Sol (RSC-453), logo após a ponte sobre o Rio Faxinal. O Corpo de Bombeiros se uniu às buscas às 16h35min. Os cães farejadores da Brigada Militar chegaram 13 minutos depois. Pouco tempo depois, os animais confirmaram a notícia que ninguém queria ouvir. A morte de Naiara foi confirmada oficialmente às 16h55min. Acostumados com as atrocidades de outros tipos de crimes, os experientes delegados não seguraram as lágrimas.

— Foram 13 dias sem dormir, só correndo atrás, na pressão... pois todo mundo perguntava... Além de ser diferente (um caso envolvendo criança), também foi um trabalho que teve bastante repercussão e comoção social. A Polícia Civil conseguiu dar uma resposta a altura para a dimensão do caso — confidenciou o delegado Fernandes, após alguns minutos de comoção.

 Criança foi escolhida aleatoriamente 

 Sabe-se, até agora, que o homem atacou Naiara aleatoriamente. Na manhã de 9 de março, ele havia ido até a zona sul da cidade deixar a esposa na casa de um parente. Depois, ele saiu sozinho no Palio, supostamente para ir até em casa, em outro bairro da cidade. Foi quando o homem avistou a criança passando em frente ao Mercado Berzan, na Rua Júlio Calegari, no Esplanada. Segundo a investigação, o homem seguiu dirigindo no sentido bairro-Centro e acompanhou a criança à distância. Ele só não abordou Naiara naquele momento porque havia duas pessoas caminhando ao lado da criança.

A partir do momento em que Naiara atravessou a rua, o suspeito decidiu abordar a criança. Ele entrou com o carro na Rua Mozart Perpétuo Socorro e manobrou para ingressar na Júlio Calegari, no sentido Centro-bairro. Em seguida, estacionou na Júlio Calegari e esperou a menina se aproximar. Quando ela passou ao lado do carro, o suspeito chamou a criança e convenceu-a a entrar no veículo. Não há informações sobre como ele conseguiu atrair a menina para o interior do Palio. Dali, o suspeito desceu com o carro pela Júlio Calegari e pegou a Marcelino Ramos. Até ontem, não havia detalhes do trajeto feito pelo homem. Contudo, segundo a investigação, ele dirigiu para casa dele, onde cometeu o abuso.  Não há informações sobre quanto tempo ele permaneceu com a menina na moradia. Também há dúvidas se Naiara morreu na casa ou foi assassinada no matagal onde o corpo foi encontrado.

A Polícia Civil espera coletar mais detalhes a partir desta quinta-feira. O inquérito tem 30 dias para ser concluído. O homem está recolhido num local não informado.
 

 
 
 

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