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Opinião 14/03/2018 | 08h59Atualizada em 14/03/2018 | 08h59

Ciro Fabres: o caminho até a escola

Nayara, 7 anos, tem de atravessar a rua da Visate. Depois, tem de subir a lomba até o São Caetano

 O caminho da escola é instigante e revelador. Em especial para quem vai a pé. É um mundo de possibilidades que se abre diante de uma faixa etária principiante, sujeito à exploração do espaço físico e ao exercício infanto-juvenil especulativo ao longo do percurso. Há um mundo pela frente quando se vai à escola, e se volta, com a mente livre para a imaginação mais solta, e o tempo ainda é mercadoria disponível, como nunca mais será logo depois. Ainda há alguma inocência quando se vai à escola. Então se ia à escola, e se voltava, de alma leve, no burburinho da companhia de colegas. É assim que iniciamos os passos preliminares da socialização, nosso contato com a realidade, com as condições do entorno, trânsito, insegurança, as limitações sociais, maiores ou menores, que impõem restrições a uns, a outros não. O caminho até a escola se revela aos poucos. 

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É revelador também quando algumas famílias, nem tão raras, justificam que não podem levar seus filhos ao colégio porque não há transporte escolar e, portanto, ora vejam, não há o que fazer. Afastam a educação para o lado ao primeiro obstáculo, enquanto muitos alunos, no interior, acordam de madrugada e caminham bons quilômetros até uma sala de aula. Questão de escolha, de persistência. 

A menina Nayara, por exemplo, vai a pé até a escola. Sai do Monte Carmelo. São dois quilômetros de sobe e desce, caminho cansativo e longo para sua idade, mas ela não desiste. Ela tem 7 anos e o primo a leva, ou vai sozinha, ao sabor das circunstâncias, e as consequências que podem advir dessa caminhada solitária costumam ser um tanto negligenciadas em nossos dias. Lá pelas tantas, Nayara, 7 anos, tem de atravessar a Júlio Calegari, a rua da Visate. É um perigo. Mas ela estufa o peito e segue em frente. Logo depois, tem de subir a lomba até o São Caetano. No caminho, encontra amiguinhos que vão de van, mas ela segue a pé. E vai pensando seus pensamentos de criança, descobrindo aos poucos como é a vida, para uns e para outros. Para uns, a existência é mais suave. Para outros, mais escassa. 

Pois na sexta-feira, Nayara não chegou à escola. O caminho também tem armadilhas. Afinal, como se disse, a realidade se revela no percurso. Nayara foi colhida por alguma surpresa, que ainda não se sabe. Nayara e suas especulações infantis mereciam um caminho mais aplainado e seguro até a escola, mais imaginoso, instigador de sonhos e de uma realidade melhor. Caminho que não somos capazes, como sociedade, de garantir a ela. 

 
 
 

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