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Educação15/02/2018 | 10h00Atualizada em 15/02/2018 | 11h11

Comunidade protesta contra saída de diretora que mudou cenário de escola de Caxias

Servidora do município estava emprestada ao Estado

Comunidade protesta contra saída de diretora que mudou cenário de escola de Caxias Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Ainda que as aulas só comecem na próxima semana na Escola Estadual Clemente Pinto, no bairro Rio Branco, os corredores estão movimentados há pelo menos um mês. O clima é de comoção entre a comunidade escolar, que lamenta a saída da diretora do colégio, Cláudia Pinto da Silva Neto. Ela deixará o cargo nesta sexta-feira. 

Cláudia será desligada porque o contrato de trabalho dela é ligado a uma permuta entre o Estado e a prefeitura, já que é concursada com 20 horas nas duas modalidades. Ao ser cedida,  passou a cumprir todas as 40 horas na escola do Estado. O retorno de Cláudia e de outras três professoras (diretoras das escolas Ismael Chaves Barcellos, de Galópolis, Maria Luiza Rosa,  do São Leopoldo, e Maranhão,  em São Marcos), foi solicitado pela Secretaria Municipal de Educação. A comunidade do Rio Branco, no entanto, não acha que a troca vem em boa hora.

— Ela foi capaz de promover uma união entre professores e alunos que eu nunca tinha visto. O que ela fez pelo meu filho e pelo filho de muitos outros pais, ninguém havia feito. É diferente ter um diretor que se preocupa com a criança. Meu filho tem o Whatsapp dela, de todos os professores, porque nós temos livre acesso à ela. Isso é inédito aqui — elogia Jucélia Porto, mãe de um aluno do 9º ano.

A diretora foi comunicada, ainda que informalmente, no início de janeiro. Quando avisou a comunidade escolar sobre sua saída, a reação foi instantânea. Uma espécie de comissão com pais, professores e vice-diretoas se formou para procurar políticos, recolher assinaturas e convencer a prefeitura de que tirar Cláudia do Clemente Pinto causará danos irreparáveis para o ano letivo que iniciaria. 

Para se ter ideia do envolvimento, professores que estavam de férias em Arroio do Sal imprimiram a folha do abaixo-assinado e passaram a recolher assinaturas por lá. Pudera: Cláudia teve uma atuação importante na escola. Ao não se posicionar como refém da já conhecida limitação financeira e estrutural de colégio público, ela conseguiu mobilizar a comunidade e obter conquistas. Exemplo: todas as salas de aula têm, agora, projetores. Assim, os professores podem dar aula com ajuda da tecnologia, importante aliada no aprendizado. Ela também foi a responsável por tirar do caráter de interdição uma sala de aula. Para arrecadar verba, promoveu gincanas, festas e, segundo os colegas, convidou as famílias para que convivessem mais dentro da escola.

— Procurei, nas pequenas atitudes, conhecer as famílias, como ficar na entrada e saída da aula. Sou muito grata por tudo que estão fazendo por mim neste momento, não esperava essa repercussão — conta  Cláudia.

A professora, que é formada em Pedagogia e pós-graduada em Educação Infantil, vive no interior de Farroupilha. Percorre mais de 50 quilômetros diariamente para gerir a escola. É diretora há pouco mais de dois anos, e assumiu o cargo a convite do Estado, já que ninguém havia se candidato na última eleição. 

O futuro profissional dela será, possivelmente, ocupar cargos dentro da rede estadual e municipal. A comunidade lamenta, e promete não esquecê-la tão brevemente.

— Isso é um gerador de angústia muito grande a todos nós. Tirar a diretora é tirar a cabeça do trabalho, é interromper a continuidade de algo que estava dando certo — desabafa Lúcia Estela Luchini de Souza, vice-diretora.

Para prefeitura, acordo não estava firmado de forma correta

O acordo que oficializava a permuta de funcionários entre prefeitura de Caxias do Sul e a 4ª Coordenadoria Regional de Educação (4ª CRE) era precário, conforme detalha a secretária municipal de Educação, Marina Matiello. Isso porque a oficialização foi feita por meio de  ofício _ o que, segundo Marina, pode render problemas administrativos ao município: 

— Entendo porque a comunidade sofre neste momento, mas se eu agir diferente, enquanto eu projeto a comunidade, eu desprotejo o município. Não posso continuar fazendo algo irregular.

A situação, portanto, não deve ser revertida, já que o município estaria pedindo os servidores por temer se responsabilizado por um contrato firmado de forma extraoficial. A titular da 4ª CRE, Janice Moraes, diz que a saída de Cláudia e das outras diretoras provoca uma perda grande no quadro das escolas, já que o ano letivo começa na próxima semana.

Para Janice, não há  irregularidades na permuta. Conforme o setor de RH da coordenadoria, a cedência, inclusive, teria sido publicada no Diário Oficial do Estado.

ENTENDA O CASO

:: A professora Cláudia e outras três diretoras da rede estadual de Caxias (e uma de São Marcos) foram emprestadas pelo município ao Estado. No lugar delas, outros quatro servidores foram agregados à rede municipal.

:: A prefeitura avaliou este ofício que formalizava esta permuta como frágil e precário, oferecendo riscos de penalidades administrativas. Por isso, a Smed decidiu encerrar estes convênios e pedir de volta as funcionárias.

:: As diretoras dos quatro colégios, incluindo Cláudia, deverão se apresentar ao município nesta sexta-feira. Elas deverão cumprir a carga horária separadamente no Estado e no município.

:: Cláudia deve dar aula na Escola Municipal de Ensino Fundamental Cidade Nova, que será inaugurada nesta sexta, e permanecer no turno da tarde na Escola Estadual de 1º Grau Clemente Pinto.

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