Suposta agressão a senegalês reabre debate sobre tratamento dado a imigrantes, em Caxias - Geral - Pioneiro

Polêmica01/12/2017 | 07h00Atualizada em 01/12/2017 | 07h00

Suposta agressão a senegalês reabre debate sobre tratamento dado a imigrantes, em Caxias

Vídeo que circulou nas redes sociais mostra briga de morador da área central com ambulante 

Suposta agressão a senegalês reabre debate sobre tratamento dado a imigrantes, em Caxias Porthus Junior/Agencia RBS
Ismaila Diedhiou, 41 anos (à direita) relata o caso lado de Abdou Lahat Ndiaye (Bili), presidente da Associação dos Senegaleses em Caxias do Sul Foto: Porthus Junior / Agencia RBS
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Uma agressão a um ambulante senegalês no centro de Caxias do Sul voltou a levantar discussões sobre o tratamento dado aos imigrantes na cidade. Parte do fato, que aconteceu na tarde da última segunda-feira (27), foi registrado em vídeo compartilhado no Facebook. As imagens tiveram mais de 500 compartilhamentos em duas horas, antes de serem excluídas pela rede social.

O vídeo mostra o senegalês discutindo com outro homem na calçada da Rua Visconde de Pelotas, entre a Avenida Júlio de Castilhos e a Rua Pinheiro Machado. O imigrante é, então, empurrado pelo homem e tem seus pertences chutados, enquanto é alvo de xingamentos. Caso confirmado, esse seria o terceiro caso de agressão e racismo contra imigrantes africanos registrado nos últimos meses em Caxias (veja mais abaixo).

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O ambulante estaria vendendo produtos na calçada próximo da residência da mãe do suposto agressor, quando os dois chegaram de carro para descarregar compras. Quem gravou as imagens foi a caixa de supermercado Tabbada Constantino, 20, que passava pelo local. 

— Ele (o senegalês) não entende português direito. Ela (a senhora) estava xingando ele. Então, eu parei com a minha mãe para observar perto da esquina. O filho dela estava carregando um fardo de refrigerante até a casa. Ele só falava para ela (a senhora) sair. Então, ele (o filho) chegou do nada e começou a pedir para o senegalês respeitar a mãe dele, empurrou e chutou todas as coisas dele — relata. 

A versão de Tabbaba é confirmada por comerciantes das proximidades, que afirmam que o imigrante frequentemente era alvo de comentários discriminatórios por parte dos moradores da residência. 

Tabbada encaminhou o vídeo para a Brigada Militar. Segundo ela, a polícia respondeu a mensagem no dia seguinte, pedindo que fosse feito o registro de um boletim de ocorrência. Para ela, trata-se de um caso de racismo. 

— É muito claro, pelo que ele ficava falando tanto para mim quanto para o rapaz, que foi discriminação. 

"Eu fui defender a minha mãe"

O administrador de empresas Marcelo Michielon, 50, é o homem que aparece no vídeo. Ele tem outra versão para o início da confusão. Michielon conta que estava voltando do supermercado com a mãe, de 73 anos, quando se deparou com o imigrante vendendo produtos no portão da casa dela, como frequentemente observa.

— O problema é entrar e sair da minha casa. Quando eu saí de carro, já tinha oito (ambulantes) por ali, fugindo da fiscalização. Um deles, inclusive, me ameaçou. Quando voltamos, eu fui descarregar as compras e a minha mãe foi falar com ele, para que ele (o senegalês) não ficasse mais ali. Ele disse para ela, "sai daqui, sai daqui", e empurrou a minha mãe. Eu disse, "sai daqui tu" — relata.

Michielon nega que a briga tenha tido relação com discriminação.

— Eu não sou racista, nunca tive problema com isso. Tanto que eu não disse nada ofensivo para ele. Posso ter dito para ela (Tabbada, que gravou o vídeo), no calor do momento. Eu fui defender a minha mãe, na frente da minha casa. Eu tenho a minha razão também. Sou brasileiro e pago imposto de renda, e bem alto — defende.

O empresário diz que tentou ligar para a Guarda Municipal e para a Brigada Militar no momento da confusão, mas não foi atendido. Ele deve prestar queixa pela divulgação do vídeo, por considerar que sua família foi exposta sem autorização.

"Eu vim aqui para trabalhar"

Quem aparece no vídeo é o senegalês Ismaila Diedhiou, 41 anos. Ele denunciou a agressão à Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Caxias na quarta-feira (29) e na quinta (30) foi registrar boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento. Com a ajuda de Abdou Lahat Ndiaye, conhecido como Bili, que é presidente da Associação dos Senegaleses em Caxias do Sul, ele conversou com o Pioneiro sobre o caso.

Conforme Diedhiou, que está na cidade há um ano e oito meses, na segunda-feira Michielon saiu de casa com a mãe e xingou os imigrantes que estavam ali.

— Ele dizia "vai procurar serviço, vagabundo". Ninguém respondeu, só tem um guri que entende mais português que respondeu ele. Então ele saiu com o carro. Na volta, a mãe dele falou, "amanhã tu não vem mais vender aqui". Eu disse que não tinha problema, que colocava a mercadoria para o lado. Então o cara (Michielon) veio e disse que eu não tinha nada que falar com a mãe dele, enlouquecido, chutando as coisas, dizendo que tinha que respeitar a mãe e xingando — conta.

Diedhiou se esforça para fazer entender que está procurando trabalho e não quer brigas: 

— Eu vim aqui para trabalhar, para ajudar a família. Já fui ofendido outras vezes e deixei quieto. Eu nem queria que o vídeo fosse publicado. Mas hoje (quarta), ele voltou e começou a tirar fotos de mim, aí eu fiquei com medo, de que ele poderia mandar alguém me fazer alguma coisa.

O senegalês hesita em denominar o ocorrido como racismo.

— Eu só acho que ele não gosta de ver a gente ali, vendendo, não consegue suportar — resume.

Para Bili, no entanto, a motivação é clara. 

— Existe racismo sim, eu penso que se fosse brasileiro, nunca que ele ia chegar chutando as coisas. É uma falta de respeito, de consideração. Uns meses atrás, outro guri estava vendendo na rua e um cara chegou e bateu nele. Nós estamos aqui, lutando para ganhar a vida. Tem que ter respeito — afirma. 

A Irmã Maria do Carmo, presidente do Centro de Atendimento ao Migrante, acredita que a situação tem piorado.

— Esses são caso atípicos, mas estão nesse contexto mais velado, de pessoas que passam e falam coisas racistas ou xenófobas, é um ambiente cultural que se forma. Estamos tentando combater esse tipo de prática, mas não estamos tendo sucesso no processo de integração. Acho que muito disso está vinculado a essa crise. As pessoas, que já não eram muito favoráveis, agora encontram o argumento das vagas de trabalho para querer eles fora daqui — explica.

Diedhiou conta que veio para Caxias buscar melhores oportunidades de emprego. O senegalês, que diz ser formado em Contabilidade e Economia no país africano, foi contratado para trabalhar no setor de limpeza de uma empresa caxiense e está prestes a deixar as calçadas do Centro. 

OUTROS CASOS

:: Em junho, um caso de racismo contra um senegalês indignou quem passava pela Rua Sinimbu, no centro de Caxias. Na ocasião, testemunhas relataram que um homem caminhava pela via quando começou a xingar o imigrante Moth Loum, 30 anos, que trabalhava como ambulante. O senegalês teria ignorado os xingamentos, mas foi agredido com chutes e socos. Um grupo de mulheres se aproximou para defender o imigrante e chamou a polícia. A Brigada Militar não conseguiu localizar o suspeito.

:: No dia 13 de agosto, o senegalês Falou Ndaye teria sido vítima de agressões por taxistas. Na época, o caso não veio à público, mas conforme o relato de Ndaye ao Pioneiro, ele havia tomado um táxi e, no fim do trajeto, o motorista pediu mais dinheiro que o combinado pela corrida. Quando ele se recusou a pagar mais, o taxista o ameaçou com um facão e chamou outros dois motoristas, que começaram a agredi-lo e insultá-lo com termos racistas. Mulheres que estavam passando teriam percebido a confusão e chamaram a polícia, que encaminhou Ndaye ao Postão. Mais de três meses depois, o senegalês ainda tem cicatrizes e dificuldade de mover um dedo da mão direita. Ele registrou ocorrência, mas não sabe se alguém foi responsabilizado pelo caso.

 

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