Polícia Civil diz que ataque a ônibus em Caxias do Sul estava sendo planejado há dias - Geral - Pioneiro

Atentado 26/11/2017 | 17h58Atualizada em 27/11/2017 | 17h16

Polícia Civil diz que ataque a ônibus em Caxias do Sul estava sendo planejado há dias

Sem motivação esclarecida, crime é episódio inesperado na escalada da violência em Caxias

Polícia Civil diz que ataque a ônibus em Caxias do Sul estava sendo planejado há dias Paulo Trevisan/divulgação
Foto: Paulo Trevisan / divulgação

 A escalada da violência em Caxias do Sul atingiu um nível inesperado na noite de sexta-feira quando criminosos invadiram e queimaram um ônibus da Visate no bairro Jardim América, deixando o motorista e duas passageiras feridos. Até então, ataques assim eram comuns apenas na Região Metropolitana de Porto Alegre e nas capitais de outros Estados. Além da migração desse tipo de crime para a Serra, o que também causa espanto é a incerteza sobre a motivação. 

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A primeira hipótese era de uma possível retaliação de uma facção contra a ação da Brigada Militar (BM) que terminou com quatro criminosos mortos em confronto no Primeiro de Maio, um dia antes do ônibus ser incendiado. A Polícia Civil, no entanto, já sabia sobre a intenção de um grupo de criminosos em colocar fogo em um ônibus. A informação foi colhida pelos investigadores da Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) na segunda-feira passada, dia 20. A promessa de bandidos, captada durante uma investigação, causou estranheza entre os policiais, pois o plano não possuía qualquer razão ou motivação específica.

— Havia esta conversa sobre colocar fogo em ônibus. Confesso que não acreditei no primeiro momento, pois é uma situação absurda. Não descartamos qualquer possibilidade, mas a informação era que este grupo estava com a vontade de cometer um crime deste tipo sem uma razão maior — aponta o delegado Adriano Linhares. 

Um dos participantes desta conversa seria Leandro de Melo Alves, 20 anos, um dos mortos no confronto com BM no Primeiro de Maio. Ele seria um elo entre os dois grupos criminosos, o que justifica a hipótese de retaliação contra a polícia. Por possuir informações anteriores ao confronto, porém, o delegado Linhares não acredita nesta possibilidade.

— Era algo que já havia surgido nas nossas investigações, mas tudo será apurado. Este caso é a prioridade da Defrec. Iremos trabalhar com intensidade para não virar um precedente. Não podemos aceitar fatos deste tipo — afirma.

Além do delegado Linhares, uma equipe de investigadores realizou diligências no final de semana. A intenção é manter os dois homens que foram presos pela BM recolhidos no sistema penitenciário e identificar os outros dois envolvidos. Um terceiro suspeito já está identificado. Ele seria o dono da residência em que ocorreram as prisões, na comunidade do São Vicente, no bairro Jardelino Ramos. 

No ataque, ficaram feridos André Ferraro, 39 anos, motorista do ônibus, e as duas únicas passageiras do coletivo, Graziela Cardoso dos Santos, 25, e Dieze Cardozo Ribeiro, 21. Ferraro permanece internado no Hospital do Círculo.

BM não vê lógica no atentado

Apesar de os roubos ao transporte coletivo terem aumentado neste ano, o 12º Batalhão de Polícia Militar (12º BPM) não vê relação dessa onda de crimes com o atentado de sexta-feira.

— Foi uma ação extremamente violenta e arriscada para levar muito pouco em termos de dinheiro e celular. Não percebemos nenhuma lógica em colocar fogo no (transporte) coletivo. É um fato isolado, que foge completamente da nossa realidade em Caxias do Sul —  lamenta o major Jorge Emerson Ribas, comandante do 12º BPM.

A BM tinha informações de que criminosos estavam planejando uma ação em resposta ao confronto de quinta-feira, que terminou com quatro suspeitos mortos, todos com passagens pela polícia e supostamente integrantes de uma ramificação na Serra de uma facção da Região Metropolitana. O atentado, então, seria uma represália de outros integrantes do grupo. Um dos elementos que reforçam esta hipótese é a proximidade geográfica dos dois fatos. 

— Acredito que não deve se repetir (ataque a ônibus). É importante esclarecer o motivo de terem feito isso. Estamos buscando algum vínculo com os quatro mortos (na quinta-feira). No primeiro momento, eles (os presos) negaram — afirma o major Ribas.

Em outubro, para conter a onda de roubos a ônibus, policiais militares começaram a circular no transporte coletivo caxiense.  A intenção era colher informações e passar segurança à comunidade. A estratégia apresentou resultados e os assaltos caíram pela metade na segunda quinzena de outubro. No entanto, os crimes persistem e a diversidade de bairros e horários atacados dificultam o policiamento.

— É o nosso desafio hoje. Não houve a redução que esperávamos. Aos delitos maiores, estamos conseguindo dar boas respostas com prisões e apreensões expressivas. É difícil intensificar ainda mais as ações que temos realizados. Mas iremos ficar ainda mais atentos —  conclui o comandante do 12º BPM.

COMO FOI

:: Por volta das 21h50min de sexta-feira, um homem fez sinal para o ônibus 237 da linha do Século 20, via Primeiro de Maio, parar num ponto de embarque da Avenida Brasil, no Jardim América. Esse local fica a cerca de um quilômetro da rua do bairro Primeiro de Maio, onde quatro homens morreram em confronto com a Brigada Militar na quinta-feira, dia 23. 

:: Ao embarcar, o homem sacou uma arma e anunciou um assalto. Dois comparsas subiram na sequência e ajudaram a render as vítimas: o motorista e duas passageiras. Um quarto bandido ficou do lado de fora para vigiar.

:: Os assaltantes ordenaram que as mulheres se aproximassem da roleta e colocassem seus celulares e bolsas em uma sacola _ que estaria com Alef da Silva. Os outros dois criminosos ordenaram que o motorista abrisse a porta de trás e espalharam gasolina nas duas saídas do veículo. O trio ateou fogo e desembarcou, deixando as vítimas dentro do ônibus em chamas.

:: Encurraladas, as passageiras correram para a porta traseira e pularam por cima das chamas. Ambas tiveram queimaduras nos pés e pernas. O motorista ficou preso no cinto e teve lesões mais graves nos braços, nas pernas e parte da cabeça. Ele seguia internado no Hospital do Círculo atéaté o fechamento desta edição.

:: A BM foi acionada por um taxista que passava pela Avenida Brasil e viu a ação criminosa. Enquanto os bombeiros apagavam as chamas, 15 PMs realizaram buscas aos suspeitos. Os criminosos haviam fugido em direção à comunidade do São Vicente, no bairro Jardelino Ramos.

:: Com a ajuda de moradores que indicavam o percurso feito pelos bandidos, os policias chegaram até a Rua dos Antúrios e localizaram Luis Felipe Freitas de Souza e Alef da Silva tentando fugir pelos telhados das moradias. Os dois foram presos no local.

:: Aos PMs, eles admitiram ter participado do ataque ao ônibus. Contudo, na delegacia, a dupla optou por permanecer em silêncio. Nenhum objeto utilizado no crime nem os celulares roubados das vítimas foram encontrados. Os outros dois criminosos conseguiram fugir.

:: As chamas atingiram a rede elétrica e parte do bairro ficou sem luz durante a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado.

 

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