É difícil ouvir 'se tu denunciar, eu te mato', lembra irmã de mulher queimada em Caxias do Sul - Geral - Pioneiro

Violência contra mulher25/11/2017 | 10h00Atualizada em 27/11/2017 | 15h24

É difícil ouvir 'se tu denunciar, eu te mato', lembra irmã de mulher queimada em Caxias do Sul

Campanha 16 Dias de Ativismo lembra importância de falar sobre feminicídio

 

 JOINVILLE,SC, BRASIL, 05/02/2015:  Violência contra mulher. (foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS , GERAL)
Em Caxias do Sul, houve cinco casos de feminicídio entre janeiro e junho deste ano.Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

A crueldade de crimes recentes praticados contra mulheres na Serra choca justamente em um momento em que feminicídio é muito debatido no país. A partir deste sábado, dia 25, se inicia em todo o mundo os 16 Dias de Ativismo, campanha que debate as diferentes formas de violência contra o sexo feminino. O assassinato pela condição de ser mulher ocorre cada vez mais por motivações banais, que precisam de atenção do poder público e conscientização de boa parte da sociedade sobre direitos iguais para homens e mulheres. Em Caxias do Sul, houve cinco casos de feminicídio entre janeiro e junho deste ano. Mas a gravidade das tentativas de homicídio também impressionam.

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A mulher que teve 70% do corpo queimado após o ex-companheiro atear fogo, por exemplo, segue em estado grave na UTI do Hospital Geral (HG). Em Vacaria, só neste ano, outras duas mulheres foram queimadas por homens. Uma delas, de 18 anos, teve 80% do corpo mutilado. No caso mais recente, registrado em outubro, uma gestante se recupera das queimaduras que atingiram 50% do corpo. Os três crimes têm outro fator em comum importante: os autores eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas, cenário muito comum no Brasil. 

O feminicídio cometido por parceiro ou parentes, em violência doméstica e familiar, geralmente é precedido por outras formas de agressão. Por isso, poderia ser evitado.

— A violência geral da sociedade conta muito para estes índices elevarem. Chacinas e mortes em morros e periferias avançam, estamos praticamente vivendo uma guerra civil. Desta forma, em uma sociedade profundamente violenta, os mais fortes avançam cada vez mais sobre os vulneráveis, o que envolve esta violência de classe (gênero feminino)— opina a secretária executiva da Rede Nacional Feminista de Saúde e professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Clair Castilhos.

As prováveis causas e alegações dos suspeitos ou assassinos confessos destes crimes são as mais diversas. Na última quinta-feira, por exemplo, uma mulher foi esfaqueada pelo marido em Veranópolis. Eles estão juntos há 15 anos. O criminoso se apresentou na delegacia, admitiu autoria, e argumentou que agiu por ciúmes. Ele foi liberado, e a mulher se recupera de após passar por cirurgia complicada.

Comportamentos abusivos em relacionamentos estão cada vez mais em evidência e, por isso, a coragem de mulheres diante destes casos cresce, segundo a diretora do Departamento de Políticas para as Mulheres, Salma Faria Valencio.

— Muitas ficam no relacionamento abusivo por não ter para onde ir, ou por dependência financeira e emocional. Mas isso tem mudado, a mulher já não se cala e não quer um relacionamento abusivo. A sociedade não tem mais mascarado os crimes, e campanhas e trabalhos de conscientização, além de uma rede estruturada, são fundamentais para esse jogo inverter — pondera Salma.

"Onde ele está?"

Aos 32 anos, a diarista que se recupera há mais de 20 dias em um leito do Hospital Geral (HG), com queimaduras que machucaram quase 70% do seu corpo, entende lentamente o que passa ao seu redor. Ao despertar pela primeira vez e conseguir balbuciar, ela sussurrou à irmã:

— Onde ele está?

O suspiro de alívio que a mulher deu ao saber que "ele" estava preso, garante a irmã, é repetido diariamente. Isso porque ela faz questão de se certificar a cada visita da família que Maykon Marcelino da Silva, 30 anos, ex-companheiro dela, segue atrás das grades. Ainda que grave, o quadro de saúde da mulher melhora aos poucos, e as chances de recuperação são grandes _ evolução de saúde que a pequena Isabella Theodoro Martins, oito meses, afilhada da diarista, não teve: a criança morreu dois dias depois do crime. A tragédia que devastou duas famílias era temida pela irmã da diarista. A ex-companheira de Maykon havia solicitado medida protetiva dias antes do crime, pois apanhava com frequência dele. Ela também não podia receber visitas da família sem a presença dele, ou receber ligações. Natural de um município de Santa Catarina, a diarista veio a Caxias do Sul para trabalhar e também fugir da convivência difícil que tinha com o padrasto que agredia a mãe. Foi em meio a um cenário de violência doméstica que ela e os irmãos cresceram. Vivenciar novamente uma situação tão dramática castiga a família.

— Ela (diarista) tinha medo que ele (Maykon) a matasse. Uns dias antes, ela me disse que não tinha medo de morrer, mas medo que ele matasse o filho dela, que era do outro pai. É difícil ouvir "se tu denunciar, eu te mato". No fim, ela estava com ele por medo — confidencia a irmã.

Cerca de 20 dias antes do crime, familiares visitaram a diarista e a encontraram com o olho roxo. Aquela seria a última surra que sofreria, prometeu a mulher à família. Por isso, decidiu dar um basta ao relacionamento de oito anos e pedir que Maykon sumisse. Ela trocou as  chaves de casa e recusou se abrigar na casa de parentes porque ele havia dado uma trégua e já não a procurava mais. O afastamento foi rompido na madrugada de 5 de novembro, quando Maykon invadiu o prédio e ateou fogo na diarista e em Isabella.

— A gente não tem que se calar. Minha mãe apanhou até o fim da vida do padrasto, e dói ver tudo isso. Eu sempre aviso meu marido que não aceito isso — desabafa a irmã.

Superar é possível

16 Dias de Ativismo é uma campanha que quer sensibilizar a população sobre violência de gênero e evidenciar os casos como uma questão de direitos humanos, além de oportunizar discussões para desenvolvimento de novas estratégias para evitar violência. 

Ao todo, 159 países participam dos Dias de Ativismo, que iniciam em 25 de novembro e seguem até 10 de dezembro. Em Caxias do Sul, cerca de 300 mulheres em situação de violência são atendidas mensalmente pela Coordenadoria da Mulher, espaço onde recebem atendimento psicológico e jurídico e podem ser encaminhadas para acolhimento provisório. Ou seja: a missão da equipe da Coordenadoria é fazer com que as mulheres não se sintam sozinhas. É um dos caminhos que a mulher em situação de violência pode encontrar para denunciar, receber ajuda e vislumbrar um futuro mais digno. 

Um dos projetos desenvolvidos pelo setor é a exposição de fotos Expressões de uma História, em que 10 mulheres posaram para as lentes da fotógrafa  Claudia Haupt Camello  para mostrar que é possível vencer situações adversas, e reforçar a autoestima. O resultado está exposto na prefeitura.

— Fui vítima de violência verbal, não física, mas sofri muito. A pessoa invade a privacidade, monitora cada passo, te impede de levar a vida _ diz uma das personagens da exposição.

A mulher de 44 anos travou uma batalha contra o ex-companheiro que terminou em boletim policial. A evolução de alguém doce e carinhoso para o perfil de um namorado possessivo foi rápida e destrutiva. Ela conseguiu medida protetiva e, ao procurar a polícia, descobriu que o ex-companheiro já havia feito outras vítimas, que também denunciaram ele à polícia. A ajuda da Coordenadoria foi essencial para esclarecimento de dúvidas e aconselhamento.

_ Depois do que passei, e de ver o trabalho das meninas da Coordenadoria, fiquei muito mais motivada a lutar pelos direitos da mulher. Não é algo certo ter medo do agressor, e as mulheres vão perceber que estão protegidas quando buscam a ajuda certa_ aconselha.

A programação dos 16 Dias de Ativismo que ocorre em Caxias contempla também a organização de um grupo de corrida, workshops, chás de confraternização com usuárias,  palestra de autoestima e o lançamento do calendário da Coordenadoria da Mulher. A programação está no site da prefeitura.

FALE SEM MEDO

:: Tenha sempre em mãos telefones de emergência.

:: Se for agredida em casa, saia para evitar que o agressor use objetos cortantes como faca.

:: Violência gera violência, por isso, não use amas.

:: Se possível, saia de casa com seus    filhos. Eles podem ser usados para chantageá-la.

:: Sempre guarde algum dinheiro. O valor poderá ser útil.

:: Guarde roupas, cópia de documentos e uma sacola com objetos necessários em casa de pessoa de confiança.

:: Converse com pessoas que você confie e combine o que fazer em casos de emergência.

:: Registre ocorrência na Delegacia da Mulher, no plantão da Polícia Civil ou módulo policial mais próximo, com o maior número de dados possíveis.

:: Solicite uma cópia do boletim de ocorrência e uma guia para fazer exame de lesões corporais, se for o caso.

:: Procure ajude no Centro de Referência para a Mulher ou Coordenadoria da Mulher. Em Caxias, o serviço atende no 3º andar da prefeitura das 8h às 17h. O telefone é o (54) 3218-6026. 

:: É possível solicitar ajuda pelo telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher).


 

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