Sonho de famílias que devem morar no loteamento Rota Nova, em Caxias, é novamente adiado - Geral - Pioneiro

Burocracia20/07/2017 | 09h00Atualizada em 20/07/2017 | 09h01

Sonho de famílias que devem morar no loteamento Rota Nova, em Caxias, é novamente adiado

Enquanto agenda política para inauguração trava mudança, inscritos no programa do governo federal de reassentamento social vivem em situações precárias às margens da Rota do Sol

Sonho de famílias que devem morar no loteamento Rota Nova, em Caxias, é novamente adiado Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Apartamentos estão prontos há seis meses. Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Quem passa em frente aos prédios do loteamento Rota Nova, na zona oeste de Caxias do Sul, certamente se questiona sobre o motivo das moradias ainda estarem vazias seis meses após a conclusão da obra. Construídos com recursos do município e também do governo federal, os 420 apartamentos já deveriam ter recebido famílias que vivem em áreas de ocupação e extrema vulnerabilidade às margens da Rota do Sol nos bairros Santa Fé e Cidade Industrial. A promessa era de que o empreendimento fosse entregue ainda em março deste ano, porém, por questões meramente burocráticas como, por exemplo, a dificuldade em encontrar espaço na agenda presidencial para inauguração do complexo habitacional tem adiado o sonho de moradores.

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Além de conviverem diariamente com o perigo de acidentes, já que estes pontos da ERS-122 concentram dezenas de mortes, as famílias também enfrentam sérios problemas com a infraestrutura das moradias atuais: casas constantemente inundadas pelo esgoto, com paredes prestes a desabar e risco constante de contrair alguma doença. Apenas numa área do Cidade Industrial, ao menos 12 famílias convivem com esta situação.

— Perdi as contas de quantos prazos de entrega recebemos desde 2011, quando nos inscrevemos no programa de reassentamento. Meus filhos sonham toda noite com a nova casa. Hoje, a que temos está caindo e sempre que chove o esgoto invade todos os cômodos. Estou desempregado e não tenho dinheiro para sair daqui. A única esperança é o Rota Nova — conta Thiago Fogaça da Luz, 30 anos, que vive há 11 no local com a esposa e os filhos pequenos e, inclusive, já separou caixas de papelão para fazer a tão esperada mudança.

Thiago Fogaça da Luz vive com a esposa e os filhos de cinco e 12 anos numa casa de madeira que constantemente é invadida pelo esgoto. Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Drama parecido vive a dona de casa Lidia de Oliveira Saldanha, 57. A mulher e o filho moram a poucos metros da rodovia e já gastaram o que tinham de dinheiro para arrumar a papelada do novo lar.

— É claro que eu queria ter condições de viver num lugar melhor sem ter que depender do governo, mas não tenho condições. Sair daqui é um sonho tão grande que não sei explicar. A gente está sujeito a tudo aqui, até pegar alguma doença. O esgoto sobe pelos ralos e do lado de fora da casa, a água suja fica pelo joelho — lamenta.

"A vida da minha família está em risco"

Numa casa de madeira extremamente precária e com riscos de desabar, no Cidade Industrial, José Henrique Duarte da Silva, 50 anos, vive com a esposa e a filha adolescente. O local foi inundado pelo esgoto recentemente, o que obrigou a família a abandonar o térreo da moradia e viver em dois pequenos cômodos do piso superior: de um lado ficaram os móveis que sobraram da cozinha e no outro, uma cortina separa a sala dos quartos. Inclusive, as paredes e o teto cederam. Além disso, toda vez que um caminhão passa em alta velocidade pela rodovia, o que acontece com frequência, a casa treme.

— A vida da minha família está em risco. Tenho insônia todos os dias, angustiado, sem saber o que nos espera. Se chove, o esgoto fica pelo joelho e invade a casa. Com tempo bom, os bichos aparecem. Não vivemos aqui, sobrevivemos — lamenta ele.

A situação da casa de José Henrique Duarte da Silva é considerada uma das mais graves, já que o risco de desabamento é nítido. Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

A situação da família tem um agravante: aposentado por invalidez após sofrer um acidente de trabalho há um ano, Silva precisa de remédios para dor. Porém, nos últimos meses tem deixado de ir a farmácia para usar o dinheiro no conserto da casa. A quantia economizada também serviu para pagar as diversas taxas e documentos cobrados para a transferência ao Rota Nova.

— Até agora só nos cobraram documentos e nada aconteceu. É óbvio que a esperança não morreu, mas estou sem forças para lutar. Quando fiz a inscrição pro novo loteamento, meu coração ficou aliviado. Só que seis anos depois, o sonho não virou realidade. Ver a minha família vivendo nestas condições acaba comigo — desabafa.

Situação é desumana, diz secretário

Casos parecidos e até piores também são fáceis de encontrar em outros pontos da Rota do Sol. Conforme a prefeitura, todas as moradias envolvendo famílias que vivem às margens da Rota do Sol são considerados graves e urgentes. 

— Da parte do município está tudo certo. Estamos lutado para fazer as transferências o quanto antes, mas esbarramos em problemas que fogem da nossa alçada. A situação destas pessoas é desumana e estamos fazendo o possível para darmos condições melhores para elas — afirma o secretário Elizandro Fiuza.

 A reportagem do Pioneiro tentou contato com o Ministério das Cidades, responsável pelo programa de reassentamento, mas não obteve retorno até a noite de quarta-feira. A expectativa a prefeitura é de que as famílias sejam transferidas até setembro.

O ROTA NOVA

:: A construção dos apartamentos teve início em 2014, mas a transferência das famílias que vivem em moradias na Rota do Sol não tem prazo para ocorrer, em função de burocracias do governo federal
:: São 420 apartamentos, de 49 metros quadrados cada, no loteamento Mattioda.
:: O projeto também inclui a construção de unidade básica de saúde (UBS), escola de turno integral e centro social, recuperação ambiental das áreas invadidas e asfaltamento das ruas Pedro de David e Luiz Covolan.
:: Todo o projeto é orçado em cerca de R$ 50 milhões, com recursos do governo federal e contrapartida da prefeitura.

 
 

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