Superlotação no Postão 24H e leitos do SUS em Caxias desenha cenário dramático - Geral - Pioneiro

Saúde07/06/2017 | 09h05Atualizada em 07/06/2017 | 09h05

Superlotação no Postão 24H e leitos do SUS em Caxias desenha cenário dramático

Alta procura por atendimento ocorre também no Pompéia, HG e hospitais particulares

Superlotação no Postão 24H e leitos do SUS em Caxias desenha cenário dramático Marcelo Casagrande/Agencia RBS
O Postão 24 Horas, por sua vez, dobrou os atendimentos na pediatria. Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A superlotação do sistema de saúde de Caxias do Sul _ que ocasiona espera angustiante por consultas e internações _ não é exclusividade do Pronto-Atendimento 24 Horas (Postão). A greve dos médicos e o desligamento de muitos usuários de planos de saúde, aliados ao aumento na procura por consultas por conta das doenças respiratórias de inverno, projetam um cenário dramático nos atendimentos do SUS em geral e também na rede privada (leia mais abaixo) para as próximas semanas. 

O índice de ocupação de leitos para internação chega a 98% nos hospitais com vagas públicas _ Caxias tem um total de 430 vagas. 

No pronto-atendimento do Pompéia, houve um aumento de 13% na procura por consultas em comparação ao mesmo período do ano passado. No Hospital Geral (HG), o pronto-socorro registra ocupação diária superior a 90%. O Postão 24 Horas, por sua vez, dobrou os atendimentos na pediatria. Um dado importante dá dimensão do problema em Caxias: nos últimos 12 meses, 11,6 mil pessoas desligaram-se de planos de saúde e passaram a depender exclusivamente do SUS, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). 

Desde o início da greve dos médicos, a espera que já era comum no Postão se agravou: as salas de espera não comportam todos os pacientes para espera superior a cinco horas, o que gera indignação de usuários. Os leitos onde os pacientes ficam à espera de transferência para hospitais também operam no limite, assim como o quadro de funcionários. Dias atrás, o então secretário da Saúde, Fernando Vivian, chegou a dar expediente na unidade para dar conta da demanda. 

O problema que não tem prazo para terminar tem origem na falta de perspectiva nas negociações entre médicos e o poder público, comprometendo o funcionamento de UBSs que absorveriam, em parte, a demanda hoje no Postão. A UPA Zona Norte, que também desafogaria o serviço de urgência e emergência, só tem previsão de abrir em setembro. 

O cenário é ainda mais crítico na pediatria: se em janeiro foram 2,7 mil consultas no Postão, maio teve 4.862 atendimentos, representando aumento de 80%. Na última segunda-feira, o vigilante Antônio Marcos Santos dos Santos esperava a consulta da filha de dois anos e meio há mais de quatro horas. Ele sabia que a demora deveria seguir por mais algumas horas:

— Piorou bastante de um ano pra cá. Vemos crianças passando mal e não sendo atendidas. Não tem sequer água para as pessoas que aguardam. É uma disputa entre a prefeitura e os médicos, mas quem acaba sofrendo somos nós, os mais pobres. 

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O desligamento de médicos que estão se aposentando ou exonerando é outro agravante na saúde pública do município, já que os profissionais com carga de 20 horas semanais estão sendo substituídos por outros com jornada de 12 horas.

— O aumento é muito expressivo e há tentativas mensais de aumento de corpo clínico. Há chamamento constante de novos profissionais, mas há de se pensar que temos um aumento considerável de atendimento, principalmente na pediatria, e o inverno nem começou — justifica a diretora-executiva da Secretaria Municipal da Saúde, Ana Paula Grando Fonseca.


No HG, obra parada por falta de recursos

A situação não é diferente no Hospital Geral. Além da histórica lotação de UTIs adultas e pediátricas, há também aumento gradual da demanda espontânea no pronto-socrro, reflexo do atendimento limitado nas UBSs. O setor registra ocupação superior a 90% quase diariamente, e em alguns momentos, a procura atinge o limite de 100%, com pacientes distribuídos em macas e cadeiras por toda a ala. O diretor técnico da instituição, Alexandre Avino, relaciona o problema com o crescimento da procura com a falta de investimentos. Ele reitera a necessidade de redirecionamento de recursos ao setor para evitar o que classifica como"colapso iminente" do SUS. Exemplo disso é a obra de ampliação do HG, que ergue o hospital materno-infantil desde 2014. A obra está parada.

— Temos uma obra extremamente importante parada pela falta de comprometimento dos governos municipal, estadual e federal em repassar valores mensais que são relativamente. Pretendemos aumentar em mais de 60% a capacidade de atendimento, porém não conseguimos avançar pela dificuldade em conseguirmos a parceria do poder público.
Com a ampliação, o HG passará de 225 para 355 leitos, entre internações, e UTIs adulto, pediatra e neonatal.

— É preciso que os órgãos públicos redimensionem toda a situação da saúde e não esqueçam que não somos só responsáveis por Caxias, como também para outros 48 municípios da região. A cidade está muito bem assistida na prestação de atendimentos em comparação a outros locais, mas é necessário avançar, o quanto antes. Temos pacientes que aguardam meses para conseguir cirurgias em razão da grande demanda. E são pessoas que precisam operar tumores e outras situações graves — complementa Alvino.

Procura equivocada no Pompéia

Argumento semelhante ao do HG é usado pelo Hospital Pompéia. Na última semana, o Pioneiro mostrou a espera angustiante do taxista José Alves de Almeida Júnior, que amarga há mais de um ano a espera por uma cirurgia reparadora no crânio. Ele foi atingido por oito tiros em julho de 2016, enquanto trabalhava em frente a uma boate, no centro de Caxias do Sul.
Conforme o hospital, a cirurgia vinha sendo postergada em virtude, justamente, da demanda por procedimentos de urgência e emergência que fazem com que os casos eletivos (supostamente, menos urgentes) sejam colocados em fila de espera. 

— Essa grande procura torna ainda mais insuficiente a nossa já defasada oferta de leitos de UTI e causam demora que nós não gostaríamos que tivesse. Temos casos de pessoas que aguardam há mais de um ano cirurgias,  porque os casos de urgência por si só já tomam conta da nossa rotina — afirma superintendente administrativa do PompéiaDaniele Meneguzzi. 

A falta de orientação na hora do paciente procurar por atendimento é outro fator que complica os atendimentos. 

— Não lembro da última vez que tivemos uma demanda compatível à nossa estrutura, e as pessoas muitas vezes não compreendem que nossa prioridade são casos que envolvem risco de morte. E são as situações menos complexas que acabam lotando nossos leitos e blocos cirúrgicos — explica a superintendente administrativa do Pompéia, Daniele Meneguzzi. 

Na rede particular, poucos leitos disponíveis

Nas emergências dos hospitais particulares de Caxias, que atendem basicamente usuários com convênios de planos de saúde, o aumento do número de atendimentos é relacionado diretamente às doenças da época. Em relação ao ano passado, o índice cresceu em 15% no Hospital do Círculo. Nos prontos-atendimentos da Unimed e do Virvi Ramos, não há aumento significativo. A superlotação do Postão não acaba atraindo usuários para o sistema privado, acredita a diretora de serviços do Círculo, Jandira Tissot.

— Isso porque ele acaba ficando limitado ao atendimento, já que geralmente só conta com o dinheiro da consulta e não consegue bancar os exames ou as próximas consultas — explica.

Segundo a comunicação do Hospital da Unimed, ainda que se mantenha o mesmo índice de atendimentos no novo pronto-atendimento, o grau de gravidade dos casos aumentou em relação ao que se apresentava no antigo PA, na Pinheiro Machado. O que chama a atenção na rede privada é a superlotação de leitos: no Hospital do Círculo (que não faz internações pelo SUS), 98% dos leitos estão ocupados aos finais de semanas. Situação um pouco diferente do Virvi Ramos, que não excede 70% de ocupação dos leitos particulares _ na tarde da terça-feira, porém, não havia leitos disponíveis nos 38 credenciados pelo SUS. Na tarde de ontem, na Unimed, a taxa de ocupação de leitos é de 96,43%. 
 

CAMPANHA

Para amenizar a superlotação, o Hospital Pompéia lançou orientações com o objetivo de alertar os pacientes que buscam atendimento pelo SUS na instituição. Confira:

_ Casos prioritários: apenas casos de urgência e emergência. A preferência é para situações de risco de morte como acidentados, suspeita de infartos, derrames, apendicite, pneumonia e fraturas.

_ Não prioritários: pessoas que necessitam de consultas simples ou avaliação de especialistas,  com contusões, dores crônicas,  viroses, lombalgia e dor de garganta (principal procura), devem buscar atendimento no Postão 24 horas ou marcar hora nas UBSs.

_ De janeiro a maio, o Hospital Pompéia registrou 4.701 atendimentos no pronto-socorro. Desses, 2.127 foram de pouca urgência (45,24%). Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve aumento de 616 atendimentos em 2017, simbolizando 13,11% de crescimento.

 
 

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