Quase 12 mil consultas foram canceladas em Caxias desde o início da greve dos médicos  - Geral - Pioneiro

Saúde pública08/05/2017 | 08h22Atualizada em 08/05/2017 | 09h35

Quase 12 mil consultas foram canceladas em Caxias desde o início da greve dos médicos 

Até a última sexta-feira, 11.679 pacientes foram prejudicados com o cancelamento de consultas

Quase 12 mil consultas foram canceladas em Caxias desde o início da greve dos médicos  Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Paralisação começou em 17 de abril e milhares ficaram sem atendimento, muitas vezes já no guichê Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

A greve dos médicos do SUS em Caxias do Sul entra nesta segunda-feira na quarta semana com menos força, mas ainda sem sinais de solução. Até a última sexta-feira, 11.679 pacientes foram prejudicados com o cancelamento de consultas. O reagendamento preocupa a Secretaria Municipal de Saúde, que só tem como fazer planos para recuperar os atendimentos a partir do momento em que houver data do retorno de todos os profissionais. A prefeitura também anunciou uma sindicância para apurar a demora no atendimento no Pronto-Atendimento 24 horas (Postão): denúncias indicam que alguns médicos atenderiam dois ou três pacientes por turno, o que provocaria longas horas de espera.

Além dos números serem impactantes, o relato de pessoas que aguardavam há meses por uma consulta e que, muitas vezes, ficam sabendo do cancelamento somente no guichê, divide-se entre indignação e cansaço. Há regiões da cidade que sentiram ainda mais o reflexo da paralisação. Nos bairros Belo Horizonte, Santa Fé e Vila Ipê, por exemplo, são apenas três médicos que não aderiram à greve e, mesmo assim, segundo moradores, eles não comparecem todos os dias nas unidades básicas de saúde (UBS). Revezando-se entre alguns turnos de atendimento durante a semana, esses profissionais absorvem a demanda de colegas paralisados e respondem por todas as consultas numa região da cidade que abrange 45 mil usuários.

— Nós fizemos um abaixo-assinado com mais de 700 assinaturas e entregamos ao secretário. Agora parece que vai chegar mais alguns médicos do programa Mais Brasil. Os médicos que estão atendendo, estão sobrecarregados. E falta pediatra também — desabafa Claiton da Cruz, representante da região no Conselho Municipal da Saúde.

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Moradores da região de Ana Rech, Eldorado e Serrano também têm motivos para reclamar:

— Tem mãe que sai da fila chorando porque fica revoltada. Chega de manhã cedo no postinho com a expectativa de que tenha médico e tem que ir pro Postão. No papel diz que temos médico, mas a realidade é outra. Estamos bem decepcionados — lamenta a líder do Conselho de Saúde Região Ana Rech, Justina Inês Rech Ribeiro.

O abaixo-assinado, que ainda passará por outros bairros, servirá como documento para o Conselho ingressar no Ministério Público contra o Sindicato dos Médicos na próxima semana, caso a greve permaneça. A paralisação, no entanto, não reduziu o número de profissionais que atendem no Pronto Atendimento 24h. Segundo a diretora técnica do Postão, Aline Picoli, o que tem aumentado gradativamente é a quantidade de pacientes, especialmente da pediatria. Isto faz com que o tempo de espera aumente bastante e gere ainda mais insatisfação dos usuários. Se antes uma criança era atendida e medicada em até duas horas, agora esse atendimento se arrasta por até cinco horas.

— Se antes eles iam no postinho, agora acabam vindo pra cá.  E tem pais que sequer passam na UBS para verificar se tem pediatria, vem direto para cá — explica Aline.

Sem cardiologista, sem consulta 

Ainda que o atendimento aos casos de urgência e de emergência tenha sido mantido, a greve impacta em situações que precisariam ser resolvidas com brevidade, caso da aposentada Irene Branco, 70 anos, diagnosticada com câncer há cerca de um mês. Ela temeu que a demora tradicional dos atendimentos pelo SUS somada à paralisação pudesse pior sua situação. No início, ficou surpresa pelo bom atendimento na unidade básica de saúde (UBS) do bairro Mariani  e pela agilidade na marcação de exames.

Logo que foi diagnosticada com a doença, os médicos e enfermeiros do postinho aceleraram o processo de tratamento e agendamento da cirurgia.Com exames em mãos, ela esbarrou na greve: como todo procedimento, é preciso laudo de anestesista e cardiologista. No entanto, não havia previsão para consulta com especialista do sistema cardíaco. Tanto na UBS quando no CES, a informação era de que ela precisava esperar.

— Minha cirurgia estava marcada e eu não tinha tempo a esperar. Decidi gastar o que não tinha e precisei marcar consulta com um médico particular, que teve compaixão de mim e fez um desconto no valor da consulta — afirma Irene.

Dos R$ 300 cobrados pelo profissional, ela conseguiu ser atendida por R$ 200. Com o laudo do profissional particular já em mãos, recebeu uma ligação do SUS avisando que a consulta com o especialista no CES havia sido agendada para a próxima segunda-feira, di 15 de maio. Detalhe: a cirurgia ocorre nesta quarta, dia 10.

— Tava no sistema que não era possível consulta antes da cirurgia, me disseram. Ninguém podia fazer nada, fiquei desesperada e resolvi desta maneira. Agora é torcer para que dê tudo certo — afirma Irene.

A diretora do Departamento de Avaliação, Controle, Regulação e Auditoria (Dacra), Marguit Weber Meneguzzi, diz que é preciso mais informações acerca da pacientepara verificar o que, de fato, ocorreu. Conforme Marguit, as avaliações pré-operatórias oncológicas, de urgência, têm prioridade. Se os serviços próprios do município não podem atender, seja em função de paralisação médica ou por outro motivo, o paciente é encaminhado para serviços contratados como o Hospital Pompéia e o Hospital Geral. 

Grávida, e sem acompanhamento de especialista

Cleonice Pereira faz o acompanhamento com clínico-geral por falta de ginecologista Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

A dona de casa Cleonice Monteiro Pereira, 35 anos, está na quarta gestação. Moradora do loteamento Campos da Serra, na região do Cruzeiro, ela vive com orçamento apertado, o que não permite consultas com médicos particulares, por exemplo. No entanto, está vivenciando uma situação atípica: a dona de casa faz todo acompanhamento da gestação na UBS do bairro, mas sem o parecer de um especialista. Ela consulta mensalmente com clínico-geral, já que não há atendimento de ginecologista na unidade.

— Não que eu fique sem consulta, mas é diferente com ginecologista. Ele fala mais sobre a gravidez, conversa mais sobre o bebê e sobre a mulher. A gente se sente mais à vontade. Clínico tem coisas que não pode fazer como o ginecologista durante a consulta — afirma Cleonice.

Já no quarto mês de gravidez, Cleonice diz que há diversas outras gestantes na mesma situação. Além de não ter o acompanhamento de um ginecologista, ela precisou de um dermatologista, o que não foi possível devido à falta de médicos.

— Me mandaram ir ligando pro postinho que me informariam quando eu conseguiria uma consulta. Eu sempre sou bem atendida lá, mas estou torcendo para conseguir me consultar com um especialista — confessa.

Conforme Maria Elenir Anselmo, diretora técnica do programa Estratégia de Saúde da Família, a UBS Campos da Serra é uma unidade tipo "Saúde da Família". Isso quer dizer que os dois médicos que atendem no local são aptos avaliar e acompanhar todos os ciclos vitais da pessoa, inclusive gestantes, de acordo com as regras estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

Tamanho da adesão

:: Conforme a Secretaria Municipal da Saúde, a adesão dos médicos à paralisação caiu 50% na semana passada em relação às duas primeiras semanas. Ou seja, se antes havia 60% de profissionais de braços cruzados, essa quantidade caiu para 30% entre os dias 2 e 5 de maio. Na sexta-feira passada, de 119 médicos escalados para atender nas UBSs, CES e Cais Mental, 33 não compareceram, o que representa 27,7%. 

:: O Centro Especializado de Saúde (CES) conta com corpo clínico de 37 especialistas. Dos 20 que se declararam em greve, sete ainda se mantinham parados, segundo o diretor Marcos Venício da Silva Carvalho. Na sexta-feira, por exemplo, 22 tinham escala de trabalho no CES, sendo que apenas cinco não compareceram ao trabalho, o que totalizou 80 consultas perdidas. 

:: Como a adesão de grevistas no CES diminuiu consideravelmente, mais da metade das consultas perdidas já estão sendo reagendadas e a demanda em atraso deve ser zerada em duas semanas. Ainda que seja difícil mensurar o tempo que levará para todas os procedimentos serem recuperados, sabe-se que o número de consultas do CES oscila entre 300 a 450 por dia _ a quantidade varia de acordo com a carga horária dos médicos.

:: Há ortopedista que voltará com quase 150 consultas para serem recuperadas, por exemplo. Como o número de consultas abrange 16 pacientes por dia, ele levará pelo menos 9 dias para recuperar o atraso — o que impactará diretamente na marcação de novas consultas.

:: A reportagem não conseguiu contar os médicos que integram a comissão dos grevistas. Por determinação da Justiça, o Sindicato dos Médicos foi afastado das negociações. 

NÚMEROS

:: De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, são 43 médicos exonerados desde o começo do ano. Destes, 27 se desligaram em virtude da greve (por não concordarem com as exigências da prefeitura). 

:: O número de médicos acionados de forma emergencial pela prefeitura, tanto de caráter emergencial como contratual, aproxima-se do número de grevistas exonerados: são 23 que já estão em atendimento.

:: A prefeitura chamou 25 médicos especialistas concursados. Apenas 11 assumiram o cargo. 

:: Foram chamados também 21 médicos temporários, a maioria na área de clínica-geral. Desses, 12 tomaram posse.

:: A prefeitura tem cerca de 350 médicos que atendem pelo SUS. Pelo menos 170 atuam nas UBSs, no CES e no Cais Mental. Os demais trabalham no Postão 24 horas e no Programa de Saúde da Família.


 
 

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