Memória: Em 1987, o cinema brilha em Gramado - Geral - Pioneiro

Cinema08/05/2017 | 10h00Atualizada em 08/05/2017 | 10h00

Memória: Em 1987, o cinema brilha em Gramado

Os longas "Anjos do Arrabalde" e "Anjos da Noite" foram as atrações do 15º Festival de Cinema de Gramado

No início da noite de premiação do 15º Festival de Cinema de Gramado, há 30 anos, em 2 de maio 1987, o diretor Carlos Reichenbach avisou o colega de profissão Rogério Sganzerla: "Não se assuste se descobrir em Anjos da Noite, de Wilson Barros, um filme melhor que o seu e o meu juntos".

Foto: Pioneiro / Reprodução

Barros acabou sendo o grande vencedor da noite na categoria melhor diretor, juntamente com mais seis estatuetas. Porém, o Kikito de melhor filme foi concedido a Reichenbach, com o filme Anjos do Arrabalde.

O Pioneiro publicou uma matéria sobre os vencedores em 10 de maio de 1987, relatando o sucesso da 15ª edição do festival, avaliada positivamente pela qualidade das obras indicadas e pelo visível esforço de produção dos cineastas brasileiros presentes, entre eles Reichenbach, Sganzerla e Barros — todos vencedores. Segundo os críticos da época, o painel diverso de tendências e filmes expostos apresentava um ótimo acabamento teórico e artístico. Enquanto os longas-metragens apontavam para uma linha mais intimista, os curtas investiram com maior ênfase nas manifestações políticas, efervescentes na época.

O filme que garantiu a Barros o prêmio de melhor diretor – Anjos da Noite – demonstrava uma preocupação artística voltada a retratar temas como transgressão sexual e marginalidade. Apesar de jovem, o diretor conseguiu traçar no filme um forte perfil do Brasil, surpreendendo por sua audácia em abordar fortes temas sociais. Um mistura de drogas, prostituição, corrupção, solidão e loucura combinou-se com a falta de possibilidades afetivas do homem moderno e as perspectivas de uma guerra nuclear e garantiu ao diretor sete prêmios naquela noite.

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Foto: Reprodução / Divulgação

O longa Anjos do Arrabalde, além de melhor filme, conquistou os prêmios de melhor atriz, com Betty Faria, e melhor atriz coadjuvante, com Vanessa Alves. O diretor Carlos Reichenbach investiu no realismo para retratar a triste realidade social do Brasil da época. O filme foi avaliado por diversos críticos como "um caos revelado através de uma câmera", por retratar a marginalização humana e a violência contra a mulher. O filme conta a história de três professoras da periferia de São Paulo que enfrentavam diariamente temas como tráfico, pobreza e machismo.

As filmagens do longa ocorreram na Vila Mirante e em Pirituba, na periferia de São Paulo. Com o sucesso que alcançou, Anjos do Arrabalde foi exibido, além do Brasil, em mais de 30 cidades americanas. Poucos diretores abordaram o universo feminino com tanta profundida e coerência quanto Reichenbach, e a importância de sua obra é comprovada pelo fato de que os problemas representados por seus personagens na época ainda são os mesmos de hoje.

Como diria Belchior, cantor brasileiro que faleceu na última semana: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais..."

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