Cenário de guerra em bairro de São Francisco de Paula - Geral - Pioneiro

Serra gaúcha12/03/2017 | 21h24Atualizada em 13/03/2017 | 11h10

Cenário de guerra em bairro de São Francisco de Paula

Na localidade de Santa Isabel, uma das mais atingidas pelo vendaval deste domingo, imóveis inteiros vieram abaixo

Carlos Rollsing / São Francisco de Paula

carlos.rollsing@zerohora.com.br

As paredes de alvenaria, a estrutura de madeira do telhado e o altar da Igreja Sagrado Coração de Jesus vieram abaixo com o vendaval que destruiu cinco bairros de São Francisco de Paula, na serra gaúcha. A casa sacra ficou desfigurada, um amontoado de entulho, mas próximo do altar três delicadas peças de gesso estavam de pé, sobreviventes do completo desabamento: eram as estátuas do Sagrado Coração de Jesus, Santo Antônio e São Vicente, as duas primeiras com mais de um metro de altura.

Voluntários e fiéis se mobilizaram para recolher as imagens, que não escaparam de danificações. Uma mulher aninhou São Vicente em seus braços e, quando o ergueu, sua cabeça caiu. Persistentes, os populares conseguiram guardar todos os bens que sobraram da paróquia.

– É muito grande o sofrimento que o povo está sentindo – afirmou o padre Ilvo Bottega, resumindo o sentimento de gente que perdeu tudo.

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A igreja fica no bairro Santa Isabel, o mais devastado pela intempérie que começou em torno das 8h deste domingo, se estendendo por cerca dois minutos, suficientes para deixar um rastro de destruição. Também foram varridas as localidades de São Miguel, Pedra Branca, Vila Jardim e Distrito Industrial.

A violência do vendaval, que está sendo classificado como tornado por muitos moradores de São Francisco de Paula que relatam ter visto um funil correndo cidade afora, causou a morte de um homem de 24 anos. Duas pessoas estão internadas no hospital da cidade, que fez 90 atendimentos a feridos. Outras quatro vítimas foram transferidas para o pronto-socorro de Canoas. São 1,6 mil desabrigados e 270 casas destelhadas ou destruídas. No domingo, circulou a informação de que haveriam 12 desaparecidos, mas isso foi repelido pela soldado Jéssica Assmann, coordenadora de comunicação do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul.

– Não há desaparecidos – asseverou ela.

No Santa Isabel, o cenário é de guerra. Imóveis inteiros vieram abaixo. O ginásio municipal da comunidade está no chão, uma parede inteira tombou, há incontáveis quilos de ferro retorcido e as chapas de alumínio do telhado foram carregadas pelo vento por metros de distância. Centenas de pinheiros e eucaliptos foram arrancados pela raiz e outros tiveram os troncos quebrados na metade da altura da árvore. Fios de alta tensão caíram nos pátios e portões das casas. Pedro Francisco de Paiva, 59 anos, precisa pular a fiação da rede de energia para sair de casa. A borracharia do genro dele, um fortificado galpão de madeira, foi pelos ares.

– Quando caiu o ginásio, pareceu uma chuva de pedra - conta Paiva, que mora em frente ao que já foi a quadra poliesportiva do Santa Isabel.

Ainda neste humilde bairro, 12 casas foram totalmente destruídas. O vento fez uma residência girar 180 graus no seu eixo. Impiedoso, o vendaval destruiu bairros de gente simples e pobre.

Quem circula pela simpática Avenida Júlio de Castilhos, a via principal do centro de São Francisco de Paula, não acredita que uma tragédia ocorreu nas cercanias. A rua de pedra com canteiro central que exibe os monumentos ao carreteiro e à cuia, pontuada pelos melhores prédios da cidade que servem ao comércio e aos órgãos públicos, não foi atingida.

Centenas de desabrigados estão nas casas de parentes, mas as autoridades montaram um bunker no ginásio municipal, no centro do município, com capacidade para 150 pessoas. A caridade fez com que milhares de peças de roupa, colchões, água, alimentos e itens de higiene fossem doadas no local. Neste domingo à noite, na cozinha, voluntários preparavam frango assado, pães com margarina e saladas. Nas conversas, relatos de medo.

– Foi muito rápido. Arrancou todo o telhado e perdi todos os móveis. Meu filho me agarrou e disse que ia cair tudo – relatou Jair Malmann, desempregado que foi ao ginásio buscar doações.

– Assustador é apelido. Sabe filme de terror? – complementou Liliane dos Santos, esposa de Malmann.

No abrigo, Joelma Fraga tinha o filho Guilherme, de apenas dois anos, no colo. Em uma das mãos, segurava um caminhãozinho do menino e um pacote de bolacha Maria.

— Estava fazendo o mamá do meu filho. Abri a porta e estava tudo preto, nunca tinha visto isso. Fiz um escândalo, arranquei o Guilherme da cama e nos escondemos debaixo da mesa — descreveu Joelma.

Ainda são solicitadas doações materiais de construção, fraldas, produtos de limpeza e higiene pessoal, azeite, cobertores, sacolas, garrafas pet, velas, fósforo, pilhas e lanternas.

A cidade está sem água – estão sendo providenciados geradores de energia para a estação da Corsan – e a maioria dos bairros não tem luz. O trabalho de recolhimento de entulhos e reconstrução da cidade será complexo. Treze equipes com 130 bombeiros da região trabalham em várias frentes. A segurança também foi reforçada. Comandante do 1º Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas, o capitão Pedro Beron prefere não informar o número de homens de prontidão, mas assegura que São Francisco de Paula conta com reforços de Caxias do Sul, Gramado e Canela. De fato, é grande o número de viaturas nas ruas. Há temor de que possam ocorrer saques em casas, mas Beron destaca que, até domingo à noite, o clima era de tranquilidade e não havia registro de ocorrências.

– Agora é lutar para arrumar tudo de novo – disse Pedro Francisco de Paiva, do Santa Isabel, com um discreto sorriso de esperança nos lábios.

Foto: ArteZH / RBS


 
 

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