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Memória20/09/2016 | 06h40Atualizada em 20/09/2016 | 17h11

Um almoço no Caxias Hotel em 1947

Médico Augusto Sartori, que faleceu em 2015, aos 100 anos, foi um dos moradores do hotel, na década de 1940

Um almoço no Caxias Hotel em 1947 0/Foto Mancuso,Acervo de família
 O jovem médico Augusto Sartori (segundo sentado, à esquerda), juntamente com a esposa Heleda e a recém-nascida filha Regina Sartori Bellini (no colo), durante um almoço no Caxias Hotel em 1947 Foto: 0 / Foto Mancuso,Acervo de família

"Caxias do Sul até bem pouco ressentia-se da falta de um confortável e moderno hotel, onde pudessem se hospedar os forasteiros e as autoridades que visitam a cidade". Com essa breve introdução, o jornalista Duminiense Paranhos Antunes descrevia a chegada do Caxias Hotel, no início de 1946.

Irmãos Paranhos Antunes visitam Caxias do Sul em 1952

Conforme Antunes, o novo espaço, que "rivalizaria com os melhores da capital do Estado", tinha como sócios proprietários os empresários Dino Felisberto Cia, Carlos Leonardelli, Luiz Bertola e Guerino Isidoro Calcagnotto. Graças principalmente à gestão de Dino Cia, o majestoso espaço situado à Rua Vinte de Setembro (atual Hospital Saúde) logo se consagraria como um centro de atração de turistas do Estado e do país.

Naqueles tempos do pós-guerra, luxo mesmo era oferecer 25 apartamentos privativos, com banheiros, além de 20 quartos, todos com água corrente. Já o amplo salão de refeições, com 300 metros quadrados, trazia, entre outras novidades, iluminação direta, soalho de parquet e luz fluorescente, além de ser atendido por "pessoal competente e especializado".

Turbinado pela fama de sua cozinha - responsável por iguarias clássicas como o ravióli de espinafre, manteiga e sálvia, o frango recheado com manjerona, a maionese de galinha, os bifes à milanesa e a lendária sopa de aspargos-, o hotel foi destino de hóspedes ilustres entre os anos de 1947 e 1954. Pelas mesas do restaurante passaram nomes como o governador do Estado Walter Jobim, o então candidato a presidência da República pela União Democrática Nacional em 1950, Brigadeiro Eduardo Gomes (derrotado por Getúlio Vargas), o estadista gaúcho Osvaldo Aranha, os políticos Pedro Marques Vianna e Luiz Compagnoni, e os empresários caxienses Humberto Bassanesi e Américo Ribeiro Mendes.

Profissionais liberais também fizeram do hotel moradia temporária a partir da segunda metade dos anos 1940. Foi o caso do médico Augusto Caetano Sartori, falecido em julho do ano passado, um mês após completar 100 anos. Na imagem maior acima, vemos o jovem Sartori (segundo sentado, à esquerda) em 1947, juntamente com a esposa Heleda e a recém-nascida filha Regina Sartori Bellini (no colo), durante um almoço. Abaixo, Sartori e um grupo de amigos no salão principal, também por volta de 1947. 

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Augusto Sartori (em pé ao centro, de terno escuro) e um grupo de amigos na sala de estar do antigo Caxias Hotel, por volta de 1947. Foto: Acervo de família / divulgação

Encerramento das atividades em 1954

O fechamento do hotel coincidiu com a noite em que o presidente Getúlio Vargas suicidou-se, no Rio de Janeiro. Conforme detalhado por Alvino Brugalli, autor do livro Vocação para Hospedar - Trajetória de um Hospital/ Hotel/ Hospital, "na noite de 24 para 25 de agosto de 1954, as Irmãs de São José, compradoras do estabelecimento, chegaram com as malas contendo o dinheiro da transação. Reunidos, vendedores e novos proprietários ainda contavam o dinheiro quando o Repórter Esso, na voz inconfundível de Heron Domingues, começou a narrar, para um Brasil atônito, a morte de Vargas".

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Após o encerramento das atividades hoteleiras, o espaço voltou à sua vocação original de estabelecimento de saúde - o prédio sediou o pioneiro Hospital Santo Antonio, a partir de 1934 (leia mais no link abaixo). Depois de abrigar a Escola de Enfermagem Madre Justina Inês, a partir de 1957, o local consolidou-se como o atual Hospital Saúde -  cujas atividades iniciaram-se oficialmente em 1974.

Hospital Saúde: um prédio com vocação para hospedar (e ensinar)

O hotel no início dos anos 1950, na Rua Vinte de Setembro. Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Em 1948: a fachada do hotel e seu sócio-gerente, Dino Felisberto Cia, com seu impecável terno de linho branco irlandês. Na varanda, o brasão de armas do Uruguai, identificando a sede do consulado daquele país. Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

Hóspedes platinos

Enquanto sediou o Consulado do Uruguai, o Caxias Hotel foi o grande hospedeiro dos turistas vizinhos que rumavam à Serra. Todos os anos, durante a Semana Santa - que no Uruguai era um legítimo feriadão de segunda a domingo -, Caxias se via tomada pelos irmãos platinos.

Colaboração

Informações e fotos desta coluna são uma colaboração da leitora Flavia Bellini (neta de Augusto Sartori), Américo Ribeiro Mendes Netto e Alvino Brugalli (in memoriam), autor de um livro sobre a história do prédio.

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