Ratos, 33 centavos e descaso: por que alunos ocupam escolas em Caxias do Sul - Geral - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Greve na educação18/05/2016 | 22h06Atualizada em 19/05/2016 | 10h41

Ratos, 33 centavos e descaso: por que alunos ocupam escolas em Caxias do Sul

Ligados ao Bloco de Luta pelo Transporte Público, jovens não portam bandeiras, adesivos e outros itens ligados a partidos políticos

Ratos, 33 centavos e descaso: por que alunos ocupam escolas em Caxias do Sul Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Professor Apolinário Alves dos Santos está com as aulas suspensas por causa da greve e da ocupação  Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Em um movimento inédito em Caxias do Sul, estudantes ocuparam nesta quarta-feira duas escolas da cidade e reforçaram a greve dos professores estaduais gaúchos, que já dura três dias e deve ganhar mais força a partir de quinta. Com barracas, colchões e faixas de protesto, os jovens tomaram parte das dependências dos colégios Professor Apolinário Alves dos Santos e Emílio Meyer. Na pauta, assuntos que variam de infestação de ratos ao repasse de 33 centavos para a merenda.

De acordo com o comando da paralisação em Caxias, são mais de 100 profissionais de braços cruzados, número confirmado pela 4ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). O impulso para as ocupações veio na esteira de atos semelhantes em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza (CE). Ligados ao Bloco de Luta pelo Transporte Público, que em 2013 foi um dos grupos mais atuantes na jornada de manifestações nacionais, os jovens não portam bandeiras, adesivos e outros itens semelhantes de partidos e entidades ligadas a política.

No sábado, uma assembleia no Centro de Convivência da Universidade de Caxias do Sul (UCS) deve aprofundar as ocupações. Até mesmo instituições menores, onde não há nível médio ou grêmios estudantis, estão se mostrando simpáticas à greve. Na Silvio Stallivieri, por exemplo, todos os 24 docentes pararam por tempo indeterminado. Membros do Cpers/Sindicato e do Bloco de Lutas circularam durante o dia e ofereceram ajuda com comida e produtos de higiene para os estudantes.

– Isso é altamente positivo. A escola tem de ser um espaço privilegiado de exercício da cidadania. Dentro desse processo eles vão se formando enquanto cidadãos, o que é mais importante do que qualquer aula – analisa o professor Paulo Amaro Ferreira, um dos integrantes do comando de greve em Caxias. 

Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Em 2015, o projeto de reorganização das escolas paulistas, apresentado pelo governador Geraldo Alckmin, sucumbiu diante da ocupação de mais de 200 unidades de ensino. A jornada inspirou outros municípios, e agora há uma ligação entre os líderes dos movimentos. O sociólogo Carlos Winckler, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), salienta que, ao contrário de anos anteriores, os alunos têm hoje um maior grau de compreensão dos problemas e apresentam novas soluções:

– Eles falam em políticas públicas, reorganizam o espaço, fazem outro tipo de sala de aula e convocam as pessoas para debates. Estamos diante de uma juventude mais politizada.

Infestação de ratos

Mobilizado desde o início da manhã desta quarta-feira, um grupo de estudantes do Apolinário Alves dos Santos reclama das condições estruturais ruins da escola, do repasse de apenas 33 centavos por aluno para a merenda e de uma infestação de ratos. 

Dispostos numa sala de Educação Física (foto abaixo) para passar a noite, eles receberam doações de cobertores da UCS, além de colchões e alimentos de pais e professores. No portão de entrada, comunicavam os colegas de que não haveria aula no turno da noite, e os convidavam a aderir ao movimento. Sob a liderança de Júlia Carolina, presidente do Grêmio Estudantil, eles falavam que não há data para desocupar o local.

– Nossa luta é por coisas específicas, mas também por uma melhor educação –explica ela.

Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Em frente à escola, diversos cartazes colados nas grades que dão acesso ao pátio principal ilustravam os motivos da manifestação.

"O professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo", afirmava um.

"Não adianta querer mudança se não há apoio!", dizia outro.

"Educação é investimento, não gasto!", defendia um terceiro.

Solidários aos docentes, que cobram do Estado melhores salários, os adolescentes frisaram que não pertencem a partidos políticos e que estão abertos ao diálogo.

– Esse colégio está virado de cabeça para baixo. Em 2015, não podemos nos inscrever no vestibular porque o ano letivo extrapolou o prazo e ninguém tinha seus históricos de aprovação. Não vamos mais deixar acontecer isso. Ficaremos o tempo que for necessário – garantiu Lucas de Souza Lemos, 18 anos, do 3º ano do Ensino Médio.

No outro colégio ocupado, o Emílio Meyer, a adesão foi bem mais tímida e não contou com o apoio da direção. Somente cinco alunos pintavam cartazes e organizavam barracas e colchões para um grupo que chegaria mais tarde. A expectativa deles é engrossar o ato a partir de quinta-feira, com o convencimento de estudantes do turno da manhã.

– Até segunda-feira, pelo menos, estaremos aqui. Se for preciso, iremos para outras escolas participar e ajudar – comentou Muriel Jaci da Silva, 16 anos.


 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
Imprimir