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Justiça18/05/2015 | 15h21

MP questiona investigação sobre morte de atleta de Caxias do Sul

No ano passado, Tiago Pereira levou choque elétrico durante competição em Brasília

MP questiona investigação sobre morte de atleta de Caxias do Sul Reprodução/ Facebook/
Após completar prova, atleta caxiense levou choque fatal ao tocar numa estrutura de metal Foto: Reprodução/ Facebook

Mais de um ano após a morte do professor e triatleta caxiense Tiago Pereira, 28 anos, o resultado da investigação é questionado pela família e pelo Ministério Público.

No dia 6 de abril de 2014, o esportista sofreu uma descarga elétrica após concluir uma prova da modalidade de triatlo no Ironman 70.3, organizado pela Latin Sports em Brasília. Em março deste ano, a 10ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal indiciou cinco pessoas envolvidas na organização e prestação de serviços da competição, mas a promotoria devolveu o inquérito solicitando uma apuração mais detalhada. Novas testemunhas foram intimadas para depor ainda neste mês.

Na avaliação da Polícia Civil, a tragédia foi impulsionada pelo descuido na montagem da rede elétrica a cargo da Neo Eventos, do Distrito Federal. O pedido do MP, porém, quer esclarecer se as falhas na segurança e a possível falta de comunicação entre os organizadores também teria contribuído para a morte de Tiago. A família do atleta e a promotora de Justiça Anna Maria Amarante Brâncio entendem que fatos antes e possivelmente depois do acidente poderiam ter sido evitados.

No dia anterior à morte, testemunhas relataram ter recebido choques na estande da Kona Bikes, ponto onde ocorreu o acidente fatal de Tiago. Eletricistas sem formação técnica, contratados para a manutenção elétrica do Ironman, afirmaram ter providenciado os reparos. Contudo, os choques continuaram no dia seguinte pois houve falha no isolamento de fios condutores, conforme apontamento de peritos. Pela lei do Distrito Federal, a organização deveria ter providenciado a correção do problema ou cancelado a atividade para evitar mais acidentes, o que não ocorreu.

A prova teve seis horas de duração e exigia que os competidores percorressem 2km nadando, 90km pedalando e 21km correndo. Tiago estava em Brasília com outros três competidores de Caxias. Após completar o exaustivo circuito, o caxiense se deslocou até a área de estandes para beber água. Nesse momento, se encostou numa estrutura metálica e recebeu a descarga. Ele recebeu o primeiro atendimento médico no local do acidente, mas morreu no hospital.

Tiago Pereira era conhecido em Caxias do Sul e no meio esportivo. Na cidade, ministrou aulas na Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) e na Universidade de Caxias do Sul. Também foi a professor na Escola Professora Ester Benvenutti, no bairro Fátima. Paralelamente, treinava a equipe de natação da Pranadar Aqua e Fitness e era professor de musculação da Academia Raiar.

INDICIADOS E VERSÕES

O inquérito da 10 Delegacia de Polícia do Distrito Federal responsabilizou cinco pessoas pela morte do triatleta Tiago Pereira. Confira a versão resumida dos indiciados em depoimento na delegacia:

- CARLOS ALBERTO VIANA GALVÃO, SÓCIO DA LATIN SPORTS: disse ser um dos sete sócios da empresa. Afirmou que a Neo Eventos foi contratada para montar os estandes de exposição e de serviços. Que autoridades expediram o alvará de funcionamento para o evento. Também disse que um dia antes da morte de Tiago Pereira, recebeu informações de que a estrutura da Kona Bikes produzia choques elétricos. Que soube que a Neo Eventos mandou um funcionário verificar o problema. Disse que no dia da morte de Tiago não recebeu informação sobre choques no estande da Kona Bikes. Que prestou atendimento de socorro via empresa terceirizada. Atribui o acidente a um grave erro da Neo Eventos.
 
- LUCAS DOS SANTOS FERRAZ, AUXILIAR DE ELETRICISTA: disse que aprendeu a função de auxiliar de eletricista na prática. Na época do acidente de Tiago Pereira, era funcionário da Neo Eventos, empresa contratada pela Latin Sports para viabilizar a estrutura de estandes.  Admitiu que ele e o colega Jailson Bispo da Trindade ficaram responsáveis pela manutenção elétrica de duas tendas do evento (o que incluiu o estande da Kona Bikes). Ele alegou que não recebeu orientação de engenheiro para a montagem da rede elétrica. Que recebeu reclamações de choques e providenciou reparos com fita isolante e fez testes que deram negativo.
 
- JAILSON BISPO DA TRINDADE, ELETRICISTA: disse ser eletricista há 15 anos, mas não frequentou curso profissionalizante para a função. Admitiu não ter recebido orientação de engenheiro ou seguido plano para montar a rede elétrica da competição que Tiago Pereira participou. Também recebeu reclamações sobre choques no estande da Kona Bikes e providenciou reparos.
 
- NELSON FERNANDO DE MIRANDA ESTEVES, SÓCIO DA NEO EVENTOS: era o interlocutor da Neo Eventos com a Latin Sports. Garantiu ter mantido equipe de plantão no evento, mas não recebeu aviso de problemas durante as competições, com exceção do acidente fatal de Tiago Pereira. Afirmou que o eletricista e o auxiliar de eletricista eram funcionários de uma prestadora de serviços contratada pela Neo Eventos. Também ressaltou que serviços de manutenção não exigem a presença de arquiteto ou engenheiro responsável no local.
 
- FERNANDA ALVES DE SOUZA, ARQUITETA: alegou ter sido contratada para consultoria de projetos dos estandes e prestação de serviços durante o Ironman. Que assinou o Registro de Responsabilidade Técnica. Que discutiu a parte elétrica do projeto e recebeu informações de que a fonte de energia teria origem de vários pontos, ou seja, tratava-se de uma montagem de rede simples. Que verificou a conclusão dos trabalhos de montagem e não percebeu irregularidades nos estandes. Também não acompanhou a fiscalização  de órgãos públicos e não recebeu notificação de irregularidade. Esclareceu que existe limitação profissional em relação ao trabalho de arquiteto e que se tivesse tomado conhecimento dos choques elétricos solicitaria uma consultoria de engenheiro ou eletrotécnico.

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