A idade avançada lhe franziu um pouco o corpo, mas não lhe tirou a força das pernas e dos braços. Interferiu menos ainda no gosto pelo trabalho, diário, ainda com carteira assinada.
A dois dias de completar 95 anos, com traços e jeito típicos dos nonos da colônia, João Brambilla será aplaudido por seu aniversário na noite de hoje pelos colegas de trabalho do hospital São Francisco de Paula, na cidade de mesmo nome, na Serra.
Muitos podem pensar que ele deve ter dificuldades para andar ou falar. Não. O Nono, como é chamado com carinho, anda firme, agarra com força os braços de quem o acompanha, fala alto, dá gargalhadas.
— Sou muito feliz — repete algumas vezes para que não faltem palavras ditas que comprovem sua realização.
Diferente dos idosos que circulam pelo hospital como pacientes, o Nono nunca adoeceu. Passou uma única noite em observação com pressão alta quando um dos quatro filhos se acidentou.
— Mas entrei de noite e já saí de manhã — apressa-se em dizer.
Responsável pela horta do hospital há cerca de três anos, ele é quem planta o milho, feijão, cultiva as hortaliças e orgulha-se do tamanho das couves. Mas sua lida nem sempre foi com a enxada em mãos.
— De pedreiro virei "horteiro" — brinca.
Do distrito de Nova Milano, em Farroupilha, ele se mudou para São Francisco de Paula em 3 de abril de 1961, recorda em detalhes. Ao lado de mais um pedreiro, tinha a tarefa de erguer a igreja da cidade, elevada ao lado do hospital.
Pela proximidade, começou a intercalar o trabalho entre o santuário e a casa dos doentes, onde fazia alguns serviços gerais. E foi ficando. Há cerca de 20 anos, o Nono tomou o hospital como seu lugar fixo de trabalho como autônomo. Cativou pela simpatia, dedicação e conhecimento até garantir a carteira assinada em 2005, muito depois de já estar aposentado.
A data exata da aposentadoria, aliás, é a única não gravada na excelente memória. E a falha é compreensível. Quem gosta tanto de trabalhar não considera relevante o dia, mês e ano que poderiam sinalizar o abandono do serviço.
— Trabalho das 13h às 17h. Mas tem vezes que chego mais cedo, bato meu cartão 15 minutos antes e aí saio antes também. O certo é o certo — diverte-se.
A alegria e o sorriso fácil somente dão lugar a um rosto sereno, com algumas lágrimas presas aos olhos, quando a lembrança é da mulher, Umbelina Regina Brambilla, que o deixou há quase dois. Pelo sentimento ao falar, essa foi a perda mais sentida para o homem que guardou no passado todos os irmãos e os amigos que conheceu ainda jovem.
Mas o que foi não o abala por muito tempo, e o trabalho lhe anima:
— Tem que pensar na vida, não na morte.
Curiosidades
João Brambilla cuida de sua saúde bebendo muito chimarrão e tomando café todos os dias. Aboliu o álcool ainda na infância, quando, aos nove anos, se embebedou com vinho. Cuida pessoalmente da sua comida e prepara o almoço todos os dias desde que perdeu sua mulher. Aos domingos, é ainda ele que assa o churrasco da família.












