Campeão do Enart no ano passado, CTG Tiarayú se reinventa com o distanciamento social - Cidades - Pioneiro

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Em Porto Alegre14/09/2020 | 14h19Atualizada em 14/09/2020 | 14h19

Campeão do Enart no ano passado, CTG Tiarayú se reinventa com o distanciamento social

Integrantes realizam série de atividades virtuais, promovem campanhas de arrecadação e engajam os participantes em aulas para seguir com os aprendizados sobre as tradições gaúchas

Campeão do Enart no ano passado, CTG Tiarayú se reinventa com o distanciamento social Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Integrantes do CTG entregando doações para uma instituição da comunidade Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Ao saírem como grandes vencedores do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart) de 2019, os membros do CTG Tiarayú, de Porto Alegre, prepararam-se para um 2020 desafiador. Só não imaginavam que seria tanto. Com o retorno das férias e a chegada da pandemia, as centenas de eventos, apresentações e ensaios que já estavam programados tiveram de ser cancelados, reagendados e refeitos em novos formatos. 

Foi aí que o grupo se destacou mais uma vez. Usando três das características que os fizeram ganhadores no ano passado — a união, a criatividade e o cuidado com os mínimos detalhes —, estão conseguindo realizar uma série de atividades virtuais, promover campanhas de arrecadação e engajar os integrantes em aulas que mantêm o constante aprendizado sobre as tradições gaúchas.

Desde o último encontro presencial, um ensaio que ocorreu no dia 16 de março, eles vêm organizando gincanas online com os jovens, drive-in de doação de roupas e cestas básicas, além de visitas em grupos pequenos à sede para manter o local limpo e organizado.

— Fomos muitos felizes no ano passado, tivermos muitas conquistas não só de prêmios, mas de união. Estamos conseguindo manter tudo isso mesmo com o distanciamento social — conta a patroa do CTG, Vera Lucia Menna Barreto.

Uma das formas que encontraram para se sentirem mais próximos — e relembrar um pouco dos almoços em que costumavam reunir os associados —, foi um galeto realizado em junho em prol dos profissionais do CTG. Um pequeno grupo de colaboradores foi à sede para preparar o almoço, que foi distribuído para os amigos e familiares que passavam de carro no local. As visitas sem sair do carro, por sinal, serviram também para o grupo manter ativas as tradicionais campanhas de doações.

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Neste ano de pandemia, conseguiram realizar cinco eventos de arrecadação, que mobilizaram centenas de voluntários. Somente em cestas básicas, coletaram 120 unidades, que foram distribuídas para instituições carentes e moradores de rua. Tudo, é claro, com os cuidados de higiene e distanciamento social.

E, junto com essas atividades, a patronagem não deixou de lado as aulas que foram programadas para os mais de 500 associados e quase 200 bailarinos, que se encontram semanalmente para bate-papos e aprendizados. Nessas reuniões, uma das características do grupo é que, mesmo para os encontros virtuais, eles se vestem a rigor.

— Nós temos alguns uniformes, e é muito bonito porque eu vejo pela tela do computador que o pessoal se veste com as roupas do CTG, colocam pilcha. É uma maneira de estar com o Tiarayú no corpo — orgulha-se a patroa.

CTG promove atividades juvenis online

 Campanha de doação do CTG Tiarayu; jovem do Tiarayu: Matheus, de seis anos.<!-- NICAID(14586040) -->
Com o envolvimento de Matheus na invernada Juvenil, toda sua família ficaram mais próximos das tradiçõesFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Uma das grandes alegrias e características que orgulham o CTG é a comunidade de crianças e jovens que se mantêm ativa e empenhada em dançar. O grupo é tão motivado que, no ano passado, quando ocorreu o primeiro campeonato da invernada Juvenil, foram campeões. Quem sentiu o gostinho dessa alegria que ronda a turma jovem do Tiarayú foi o Matheus Fiuza Guedes, seis anos. No início do ano passado, ao se aproximar de uma colega que dançava na invernada, pediu aos pais para assistir um ensaio e logo de cara viu que ali era o seu lugar:

— Ele logo se envolveu com o CTG. O pessoal acolheu e ajudou muito ele em vários aspectos. Ele foi convidado para participar de concursos, ir a rodeios, e logo toda a nossa família também ficou mais próxima dessas tradições — conta a mãe Chaiane Leal, 28 anos, enquanto arruma a câmera do computador para o filho participar de mais uma live com os amigos da invernada.

Apesar de ter convivido com a comunidade do Tiarayú por apenas um ano de forma presencial, o menino se mantém ativo nas atividades online, e não perde a oportunidade de dizer que sente saudade do grupo que tão bem o acolheu:

— Quando eu participo dos encontros no computador do Tiarayú, passa um pouco da saudade, eu quero que tudo isso passe logo — diz o menino.

Se depender dos pais, assim que for autorizado e seguro, ele irá retornar às atividades e se preparar para os ensaios. Desde março, as invernadas decidiram formar grupo de WhatsApp para assim manter a rotina de trocar ideias sobre as futuras coreografias. De acordo com a patroa do CTG, os coreógrafos já estão com um planejamento de aulas e ensaios montados, e pretendem começar a botar em prática assim que for possível.

Planos do tricampeonato seguem vivos

Algumas dessas ideias para futuras coreografias surgiram já no ano passado, logo que o CTG levou o bicampeonato no Enart (a primeira vitória do CTG foi em 2016). Animados com o título recém-conquistado, eles já haviam começado a organizar as estratégias que os levariam ao tri. No entanto, com o cancelamento do festival neste ano, e enquanto aguardam a chance de voltar a competir, terão de se contentar em manter o mesmo troféu por dois anos.

— Logo que ganhamos, no dia seguinte da vitória, já estávamos organizando o show de abertura do Enart 2020. Foi um choque o que aconteceu neste ano, a gente não esperava. A única vantagem é que o troféu ainda está com a gente — brinca a patroa, que, aos 58 anos, comanda pela segunda vez consecutiva o CTG.

O bom humor de Vera frente às adversidades é resultado de uma trajetória de desafios e vitórias que englobam os quase 50 anos de história do CTG. Criado em 1962, o Tiarayú guarda centenas de troféus conquistados em categorias artísticas de rodeios e festivais, além das lembranças de algumas fases difíceis. 

Localizado na Zona Norte de Porto Alegre, o galpão de 1,3 mil metros já foi palco de muitos eventos que buscaram arrecadar recursos para manter o tradicionalismo vivo. No ano passado, por exemplo, escolheram um tema desafiador para apresentar no Enart, que demandava diferentes figurinos. A proposta para a apresentação do grupo foi contar a história da visita do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire ao Rio Grande do Sul, entre 1820 e 1821, que virou um livro. Em sua jornada, ele passou por Porto Alegre, onde viu uma cidade com forte influência europeia e em desenvolvimento, mas também teve contato com índios nas Missões. Por causa desse contraste de realidade, um grupo de bailarinos dançou com trajes finos e um estilo de dança elegante. Já o outro representou os índios, com pilchas simples e coreografias rústicas.

Para conseguir financiar o audacioso projeto, realizaram uma série de rifas e eventos. No final, a disposição das centenas de voluntários e bailarinos deu certo, e resultou no tão desejado troféu. Neste ano, os esforços resultarão em um prêmio ainda maior: a união fortalecida da comunidade. 

E para celebrar tanto sucesso, a patronagem também preparou surpresas no aniversário do CTG, que é comemorado dia 20 de setembro. Neste ano, o grupo está organizando uma série de atividades que ocorrerão ao longo de toda a Semana Farroupilha. Eles reservaram um estúdio de gravação que transmitirá, ao vivo, shows e depoimentos de associados para contar os causos de mais de meio século de história do Tiarayú.

 
 
 

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